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Evo Morales: “Para manter a ideologia, você tem que garantir o alimento”

Evo Morales enfrenta um disputado referendo que decidirá se pode voltar a ser candidato em 2019

Como faz a cada véspera de uma votação desde 2005, a primeira eleição presidencial que venceu, Evo Morales Ayma (Orinoca, 1959) almoça truta no restaurante El Conquistador, em San Jacinto, na província de Chapare. Perto dali, votou neste domingo a favor da emenda à Constituição que lhe permite voltar a ser candidato em 2019. O presidente convidou o EL PAÍS e o Financial Times para viajar com ele de Cochabamba a San Jacinto. É o próprio Morales quem dirige.

Prudente ao volante, fica incomodado porque a segurança que o precede ignora os semáforos: “Calma, não estamos com pressa!”, se irrita. Apenas nos dois pedágios do trajeto Morales dá um mestrado sobre porque é um animal político e um gênio do populismo. Compra dois sacos de feijão de uma mulher, mas não aceita o troco: “Na próxima vez você me dá”, diz a ela. Jovens que vendem jornais ficam impressionados ao ver o presidente dirigindo, mas ainda mais quando diz a eles: “É proibido se equivocar, hein”.

Durante as duas horas da viagem, repetem-se canções compostas para suas campanhas eleitorais. “Evo, Evo, presidente” e “A Bolívia é a minha vida, o povo é a minha família”, soam incessantemente, enquanto Morales acompanha o ritmo com palmas e com algum “quem não canta é pró-ianque”. Faz piadas constantemente, parece relaxado, longe da imagem contrariada que se percebia nos últimos dias da campanha. No momento da entrevista transmite a mesma sensação. Mostra-se muito tranquilo, alheio ao empate indicado pelas pesquisas relativas à importantíssima eleição deste  domingo. Um cenário desconhecido para ele desde que chegou ao poder, há 10 anos.

Pergunta. Por que o senhor está convencido de que tem que continuar sendo presidente?

Resposta. Isso deveria ser perguntado aos vários movimentos sociais. Não é que eu tenha abusado para tentar que modifiquem a Constituição. Parece que vocês não entendem isso. Convoquei um Gabinete social há cerca de oito meses e os argumentos que me deram é que esse processo não pode parar, os neoliberais não podem voltar. Eles me disseram: “É preciso ampliar o aparelho produtivo, desenvolver a agenda patriótica 2020-2025, só o senhor pode garantir isso”. A proposta original era modificar a Constituição para a reeleição indefinida. Falei disso com Álvaro [García Linera, o vice-presidente] e só aceitamos que fosse até 2025.

P. O senhor acredita que é o único capaz de continuar esse projeto?

R. Já ouvi alguma vez: “Se Evo se vai, isto vai para o saco [fracassa]. É o único que pode unir os movimentos sociais”. Temos líderes jovens, eles têm discurso, mas ainda têm pouca experiência. Também temos líderes do movimento indígena, como David Choquehuanca [o chanceler]... O que deve ser buscado é quem pode ser o fator de unidade. Essa é a questão.

"Eu disse muitas vezes a Chávez: “Mude a economia, não pode seguir subsidiando tanto"

P. Boa parte da campanha concentrou-se em um discurso anti-imperialista. O senhor não acha que os mais jovens, que não viveram os tempos difíceis com os Estados Unidos, estão pensando mais no futuro do que nesse discurso?

R. Não sei. Uma sondagem reservada feita pela Embaixada dos Estados Unidos, que não foi publicada, apontou que o sim ganharia com uma margem de 10%. Os que mais me apoiaram eram jovens de 18 a 25 anos. Eu sinto que o povo é anti-imperialista.

P. Parece que a polarização, que parecia esquecida, está de volta.

R. Para este referendo a direita só usou o insulto. Não há debate ideológico, não há debate programático. Queriam que fracassássemos economicamente. Eu disse aos banqueiros: “Podem criar conflitos sociais, podem gerar mobilizações, conflitos políticos, mas os pobres não perdem nada, os senhores perdem”. E então, pessoas de direita me disseram: “Se você se sair bem, todos nós nos sairemos bem”. Ganhamos esta batalha.

P. Há duas semanas, tornou-se conhecido que você teve um filho com a gerente de uma empresa chinesa, a principal fornecedora do Estado. O que acha das acusações de tráfico de influências?

R. Sabíamos que a direita faria alguma coisa. E fizeram o mais vergonhoso: usaram uma mulher e uma criança. Não a vejo desde 2007. É verdade que existem fotos posteriores, mas foi algo pontual. Cheguei a duvidar se era ela ou não. Havia mudado a cor do cabelo, de aparência.... Eu sou sincero, admito que isso pode cair mal entre as mulheres. De todo modo, eu pedi que suas contas fossem investigadas. Do jeito como o tema está sendo usado nas redes sociais, parece que tudo foi por água abaixo.

"Sinto que o povo é anti-imperialista"

P. Sempre conseguiu vitórias contundentes, mas agora está correndo riscos em bastiões como El Alto ou Potosí. Por quê?

R. Uma coisa são as eleições subnacionais e outra as nacionais. Nas subnacionais, às vezes os companheiros escolhem errado os candidatos a prefeito. Nas áreas rurais, meus companheiros foram divididos. Uma companheira nova, jovem, foi marginalizada pelo machismo e ela foi derrotada, de longe. Mas talvez o apoio não seja como antes.

P. Quais são os motivos dessa perda de apoio?

R. O machismo, a corrupção e a divisão interna do MAS (partido de Evo, Movimento Pelo Socialismo). Todos querem ser prefeitos, vereadores. Temos exemplos de prefeitos que, se não estão na prisão, estão sendo processados. Esse tema da corrupção nos afetou.

P. Se ganhar o referendo e depois vencer em 2019, restará como o último bastião da esquerda latino-americana. Como vê as mudanças que estão acontecendo na região?

R. Talvez isso esteja acontecendo nos governos, mas todos os movimentos sociais da América Latina são anti-imperialistas por princípio. Enquanto o império e o capitalismo continuarem, a luta segue.

P. Que acha da visita de Obama a Cuba?

R. A América Latina tem alguns assuntos pendentes: o bloqueio econômico, as FARCs, Malvinas, a saída ao mar da Bolívia. A região tem um patrimônio, que é a paz. Tem que cuidar desse patrimônio, mas, se não houver justiça social, se não houver soberania, podemos perdê-lo a qualquer momento.

P. Mas o que acha da visita?

R. Não acho que os Estados Unidos vão erguer o bloqueio econômico. Dependerá das eleições, embora não haja muita diferença entre democratas e republicanos. Eu saúdo os passos importantes. Eu sempre pensei que um negro e um índio trabalhariam bem. Esse dia chegará.

P. Como é sua relação com Macri?

R. Até agora, é boa. Eu o procurei um dia para comprar tecnologia para assuntos de saúde, mas não o encontrei. Ele me ligou de volta. Não há química na ideologia, nem haverá, claro, mas é um presidente eleito democraticamente e vou tentar ter uma boa relação com ele. Temos que renegociar o contrato do gás, vamos avançar em temas de energia. Nós precisamos.

P. Como vê a situação da Venezuela?

R. O que vejo é que com semelhantes problemas econômicos, segue havendo um voto duro do chavismo. Em qualquer outro país, ele teria voado pela janela. Eu respeito muito isso. Mas quando você não garante o alimento, a maioria não se importa com a questão ideológica. Disse muitas vezes a Chávez: “Mude a economia, não pode continuar subsidiando tanto”. Lula lhe dizia para investir mais. Para manter a ideologia, você tem que garantir o alimento. Que não falte água, luz, a base.

P. Esse tem sido seu grande feito. No entanto, ano passado, recebeu 30% a menos de receita pela exportação de gás. Há rumores de desvalorização... Está começando a se preocupar com a economia?

R. Sim. Vamos ter, na próxima sexta-feira, um gabinete ampliado e reuniões com o setor privado. Estou tentando convidar a Cepal, o BID e outros organismos para ouvir sugestões. Creio que a solução passa por ampliar o mercado nacional e regional. Europa e China querem fazer consórcios. Dizem que a Bolívia será o centro energético da América Latina. O que temos que fazer é planejar e acelerar tudo isso.

P. A Bolívia tem a classe média mais pobre. Não acredita que pode ser vítima do seu próprio sucesso no sentido de que vão ter outras exigências?

R. Já há algo assim. Antes, não havia celulares e agora todo mundo quer um. Isso vai passar e será acomodado. É o debate que temos com os movimentos sociais. Temos que descobrir suas novas necessidades, suas novas exigências. Embora algumas sejam inalcançáveis e indesejáveis, têm muitas ambições. Nossa obrigação é cuidar da economia nacional.

P. Se apesar de todos os seus feitos, perdesse este referendo. Você se sentiria muito decepcionado?

R. Não. Porque estou preparado. Com tudo que fiz, vou embora feliz e contente. Jamais vou vacilar nos meus princípios. Continuarei apoiando-os. Ficaria encantado em ser dirigente esportivo. O esporte me encanta.

P. Da Fifa?

R. (Risos). Não. Embora se trabalhe pouco e ganhe muito. Estou feliz com o apoio que recebi. Mas vamos ganhar, sei que vamos.

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