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Evo Morales inicia a corrida por uma nova reeleição

Presidente da Bolívia se lança a uma campanha para alterar a Constituição

Evo Morales inicia la carrera para una nueva reelección Ampliar foto
Morales na chegada do papa Francisco à Bolívia, em 9 de julho. reuters

O partido governista Movimento ao Socialismo (MAS), as organizações sociais que o apoiam e o próprio Evo Morales iniciaram uma campanha para alterar a Constituição e autorizar a reeleição indefinida do presidente, que no ano passado assumiu seu terceiro – e supostamente último – mandato. No próximo ano, o Governo convocará um referendo constitucional para que os bolivianos decidam se pode haver uma nova recondução dele ao cargo. Morales é, com nove anos, o presidente latino-americano há mais tempo no poder.

“Se tudo está bem, Evo está bem”, disse o mandatário a seguidores na segunda-feira, numa alusão à situação econômica da Bolívia, ainda à tona, apesar de ameaçada pela queda do preço do gás, cujas exportações ao Brasil e à Argentina são a principal fonte de renda do país. O Governo diz que a Bolívia não será afetada pela crise das economias produtoras de matérias-primas, apesar da redução de 30% no valor das exportações e da tendência, pela primeira vez minguante, das reservas bolivianas em dólares, que chegaram a quase 50% do PIB graças à bonança dos últimos 10 anos. Para vencer o referendo constitucional a ser convocado no primeiro semestre de 2016, Morales escolheu justamente esse slogan: “Se tudo está bem, Evo está bem”.

Seguindo esse lema, o Governo promete investimentos como se não existisse a previsão de um déficit fiscal de 3% neste ano e 7% no próximo. Morales afirmou ontem que até 2017 serão construídos mais de 40 hospitais, ao custo de 1,6 bilhão de dólares. E o investimento público deste ano será um recorde histórico: sete bilhões de dólares, mais de 23% do PIB.

Mais de 60% dos votos

Evo Morales ficou conhecido na política boliviana por sua defesa dos cocales (lavouras de coca) da região do Chapare, nos anos noventa. No começo deste século, ele fundou o Movimento ao Socialismo e se tornou deputado. A queda do sistema neoliberal e a mobilização popular de 2003-2005 o levaram ao poder com a promessa de um estatismo rejuvenescido, comandado pela maioria indígena. Em 2005, obteve 57% dos votos e, contrariando o costume boliviano, foi reeleito em 2009 e 2014, em ambas as ocasiões com mais de 60% da votação.

Alguns economistas locais dizem que, com o aumento do gasto público e dos salários e com os estímulos à construção civil para rebater a crise, o Governo se arrisca a criar uma “bolha” de infraestrutura pouco eficiente e de importações e atividades não produtivas. Isto aumentaria a necessidade de usar capitais que no futuro serão cada vez mais difíceis de obter, dada a tendência dos investidores internacionais de retornarem aos países desenvolvidos. Por isso a oposição sugere políticas de austeridade, as quais, entretanto, aparecem muito longínquas neste novo período eleitoral. “O Governo quer dar um caráter eleitoral à conjuntura para distrair a população da crise que se avizinha”, afirmou o líder oposicionista Samuel Doria Medina. Para o ex-presidente conservador Jorge Quiroga, Morales e seus seguidores “temem o que acontecerá quando seu padrinho Maduro perder as eleições parlamentares na Venezuela”.

As pesquisas divergem sobre a posição da opinião pública a respeito da reeleição indefinida, embora a maioria considere que existe forte rejeição. Aparentemente, por via das dúvidas, um setor do governismo quer que o “sim” à reeleição seja também um “sim” à reforma constitucional da Justiça, que uma expressiva maioria dos bolivianos deseja ver concretizada.

Depois de 2019

A anunciada reforma implicará uma mudança na forma de escolha dos magistrados, que nos últimos anos é feita por voto popular, um método que acabou sendo mal sucedido, apesar da insistência do MAS. Um referendo que misture a reeleição com outras mudanças constitucionais foi qualificado de antemão pela oposição como “uma armadilha”.

Morales justificou sua nova posição, que contradiz sua promessa de se aposentar em 2019, alegando que “a alternância é uma mudança de modelo” e um retorno ao passado neoliberal. A reeleição indefinida poderá valer também para o vice-presidente Álvaro Garcia Linera, embora nisso o MAS não seja unânime. A reforma constitucional foi confiada aos movimentos sociais, que também parecem divididos sobre a reeleição. Hilarión Mamani, um dos seus dirigentes, perguntou-se ironicamente sobre a duração do mandato do Evo: “Por que não eterno?”.

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