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Kirchneristas param Buenos Aires para pedir libertação de ativista

Simpatizantes da dirigente social Milagro Sala fecham acessos da capital e provocam situação caótica

Manifestantes protestam por Milagro Sala.
Manifestantes protestam por Milagro Sala.Natacha Pisarenko (AP)

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O Governo de Mauricio Macri enfrenta a primeira tentativa real da oposição de levar a batalha política para as ruas. Pequenos grupos de kirchneristas, organizados em 200 piquetes simultâneos em diversos pontos do país, conseguiram paralisar completamente os acessos a Buenos Aires, uma cidade com mais de 11 milhões de habitantes, para exigir a libertação da polêmica dirigente social Milagro Sala, presa há mais de um mês na província de Jujuy (norte).

Sala se transformou num símbolo para o kirchnerismo mais radical e recebeu apoios de lugares inesperados, como a ONG Anistia Internacional e o papa Francisco, que lhe enviou um rosário abençoado — um gesto que incomodou alguns católicos mais próximos do macrismo.

Os piquetes rapidamente adquiriram uma enorme dimensão, já que representaram uma demonstração de força organizacional da oposição e um grande desafio ao Governo liberal recém-empossado.

Os grupos kirchneristas que apoiam Sala já tentaram de tudo para obter sua libertação. Alguns ativistas estão acampados há quase um mês na praça de Maio, em frente à Casa Rosada, sede da presidência. Também houve negociações com a Igreja como mediadora, e o número dois do Governo, Marcos Peña, chegou a receber dirigentes da organização de Sala, a Tupac Amaru, mas nada deu resultado. A mensagem do Papa parecia ser um evidente sinal para pressionar em favor da libertação da dirigente social antes que Macri viaje a Roma para visitar o pontífice argentino, no dia 27. Até agora, porém, ela continua detida.

Inicialmente, foi acusada de incitar à quebra da ordem pública, por organizar um acampamento em frente à sede do Governo provincial de Jujuy. Mas essa detenção por causa de um protesto social gerou muita polêmica, e posteriormente as autoridades incorporaram outras acusações, por apropriação de recursos públicos. Sala é uma dirigente muito polêmica por ter criado uma espécie de Estado paralelo em Jujuy, que contava com enormes recursos públicos graças ao apoio da ex-presidenta Cristina Kirchner. Sala perdeu seu poder político e financeiro ao ser derrotada por um aliado de Macri, Gerardo Morales, na eleição provincial, e mais ainda quando Macri venceu o kirchnerismo na eleição presidencial de novembro. Ela então organizou o acampamento, e depois de um mês foi presa por ordem de um juiz de Jujuy.

Esse assunto se complicou e se transformou não só em um problema para as relações entre Macri e o Papa argentino, mas também num teste de força para o Governo. Os manifestantes que estão paralisando a capital representam um desafio para Macri porque qualquer repressão policial rapidamente se transformaria em uma grande controvérsia. Mas permitir que fechem completamente a metrópole durante várias horas tampouco é bom para a imagem de Macri e da sua ministra da Segurança, Patricia Bullrich, que estão justamente elaborando um protocolo para impedir que a cidade possa ser paralisada tão facilmente.

Depois do escândalo da crise de 2001, quando a repressão a protestos deixou 28 mortos, tornou-se habitual que um pequeno grupo de piqueteiros interrompa uma avenida durante várias horas na Argentina sem que nenhum policial se atreva a retirá-los, pois a situação acabaria de maneira violenta, e os políticos dão ordens expressas para que isso não aconteça. Foi assim até agora, mas esta é uma prova de fogo muito importante para o novo Governo.

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