Prêmios Grammy 2016

Kanye West revela ao mundo “o melhor disco de todos os tempos”

Rapper lança ‘The Life of Pablo’ com participação de Rihanna e alfinetada a Taylor Swift em ‘Famous’

Kanye West durante a apresentação de sua coleção e do álbum 'The Life of Pablo', no New York Fashion Week.
Kanye West durante a apresentação de sua coleção e do álbum 'The Life of Pablo', no New York Fashion Week.ANDREW KELLY (REUTERS)

Antes, os discos eram um objeto palpável; agora podem ser baixados na internet. Da mesma maneira que antes eram apresentados primeiramente em eventos e encontros com os meios de comunicação, o que em inglês ficou conhecido como listening party, e agora qualquer fã pode acompanhar seu lançamento por streaming a partir de ginásios esportivos, cinemas multiplex ou smartphones de última geração. Adeus, privilégios e exclusividades; viva a democratização digital. Se há alguns dias Rihanna ofereceu seu novo álbum de maneira gratuita e aleatória através do aplicativo Tidal, na quinta-feira foi Kanye West quem voltou a sabotar e redefinir o paradigma da indústria da música. O velho e o novo. Um show que reuniu uma multidão no Madison Square Garden, em Nova York, retransmitido para todo o mundo pelo mesmo aplicativo e estreando em cinemas de todo o planeta, no qual o rapper, produtor e designer finalmente revelou ao mundo seu novo e esperado álbum, The Life of Pablo, e sua nova coleção de roupas e tênis para a Adidas.

“Estou muito contente por ter finalizado o melhor disco de todos os tempos”

É o sétimo disco de sua carreira, que chega precedido de uma ruidosa, errática mas fascinante campanha de autopromoção realizada pelo próprio artista a partir de sua conta oficial no Twitter, e que engordou as expectativas durante as duas semanas anteriores ao espetáculo da quinta-feira. “Estou muito contente por ter finalizado o melhor disco de todos os tempos”, afirmou ele em 25 de janeiro em um tuíte que vinha acompanhado de uma foto da lista de canções que teoricamente fariam parte do projeto. Um dia depois, acrescentava: “Este não é o disco do ano. É o disco da vida”. E poucas horas depois revelava o novo nome do álbum, The Life of Pablo, após descartas a primeira opção que ele próprio tinha divulgado: o projeto passava de Swish a Waves. Mas a ideia não tardaria a mudar. Em 8 de fevereiro, postou: “É possível que haja um novo título secreto para o disco”, e tudo isso depois de explicar que “o novo álbum é UM dos melhores da História, não o melhor, apenas um dos...”.

A um dia do lançamento, o artista tornou público o título, dessa vez já definitivo: The Life of Pablo. “Escobar ou Picasso?”, têm perguntado os fãs nos últimos dias. Não é a primeira vez, nem a segunda, que West se compara com Pablo Picasso, um dos artistas que mais admira. Por isso, talvez o nome escolhido aponte para essa direção.

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Às 16h40 (19h40 em Brasília), quarenta minutos mais tarde do que o previsto, Kanye West surgiu no centro do palco do Garden. Com um boné preto da turnê de Yeezus, moletom vermelho e um laptop sob o braço. Agarrou o microfone, dirigiu-se ao público e convidou os presentes a dançar, gritar e comemorar se gostassem do que estavam a ponto de escutar. Começou a tocar Ultra Light Beams, a primeira das dez canções que compõem o álbum, e já suspeitamos que The Life of Pablo teria pouco ou nada a ver com seu predecessor. Ressonâncias gospel, um beat quase inapreciável, vozes soul e o protagonista cuspindo suas primeiras rimas de fogo. Com Father Stretch My Hands, obra dedicada a seu pai, foram abertas as lonas do cenário e pudemos ver um grupo de modelos exibindo as peças que West desenhou para esta temporada. Todos estáticos e com o olhar perdido, como se não estivessem ali. A música, uma das melhores de toda a trajetória, acabou sendo muito mais chamativa, até porque confirmou os rumores destes últimos dias: o regresso da estrela a um som mais soul, emocional e acessível.

De Yeezus restam alguns traços, de todas as formas. Por exemplo, em Freestyle 4 acrescenta a produção eletrônica minimalista e desconfortável do primeiro, talvez como um aceno ou como uma decisão deliberada de ceder ao álbum todo o protagonismo das rimas. Mas é quando chega Famous, um dos monumentos de The Life of Pablo, quando as coisas ficam sérias e transcendentes. E tem tudo: a poderosa voz de Rihanna, uma batida forte, pitadas de soul, um refrão pop irresistível, melodias cativantes e, ainda por cima, uma referência clara e direta a Taylor Swift, com quem protagonizou uma célebre polêmica no MTV Awards de 2009, e a quem desqualifica sem paliativos: "I made that bitch famous" (algo como, "tornei aquela vaca famosa"). Highlights, com Young Thug, nos leva de volta para a estética de Graduation. E depois chega Feedback, cheia de sons e texturas estranhas e um esmagador freestyle sobre ele mesmo, em outra pirueta de egocentrismo brilhante (“Love you like Kanye loves Kanye”, algo como "Te amo como Kanye ama Kanye") . Fade, na qual o baixo marca o ritmo mais movimentado do repertório e West experimenta de forma brilhante com sons vocais, abre o caminho para um resultado excelente.

O trio final é formado por FML, com apoio esmagador de The Weeknd; Real Friends, melancólica e belíssima história de amizades desfeitas e desilusão existencial; e Wolves, que já tocou na apresentação da coleção de roupas da última temporada. Até aqui, aplausos e ovação para Kanye, para sua esposa e cunhadas, e gritos contra a Nike, a marca com a qual tinha um contrato antes de ir para a Adidas, e agradecimentos para Vanessa Barcroft, coreógrafa e produtora do show. E uma conclusão sobre a marcha, certamente precipitada, mas consciente: The life of Pablo não é apenas o retorno de Kanye West com um som mais reconhecível, melódico e digerível, e sim um disco disposto a desafiar o hip hop com argumentos de peso. Soa dolorido, emotivo, exultante, imaginativo, novo e moderno. E, acima de tudo, poderoso.

O álbum The Life of Pablo, tem de tudo: a poderosa voz de Rihanna, melodias cativantes e uma referência direta a Taylor Swift

O álbum The Life of Pablo de Kanye West chega em um momento interessante na trajetória pessoal e artística do rapper. Em um momento em que, por exemplo, suas marcas de tênis, o Adidas Yeezy Yeezy Boost 350 ou Yeezy Boost 750, geram mais expectativas, atenção e emoção que suas canções. Transformados em objetos cobiçados por milhares de pessoas que fazem filas quilométricas nas ruas dias antes da data de lançamento, a maioria com o objetivo de revendê-los por um preço três ou quatro vezes maior do que o original, seus artigos esportivos têm ajudado a modernizar e melhorar a imagem da empresa alemã, especialmente nos Estados Unidos. E seu casamento com Kim Kardashian, uma das celebridades mais seguidas do planeta, fez dele uma figura pública também nas páginas das revistas de fofoca, situação que destaca muito mais suas declarações já provocativas e polêmicas e aparições públicas. A música havia sido relegada a um plano secundário no qual ele mal quis se mexer no último ano: com exceção de FourFiveSeconds e All Day, dois singles que felizmente não foram incluídos no disco, e de algumas produções especiais para outros artistas, tivemos poucas notícias sobre o que estava acontecendo no estúdio de gravação. Até hoje com The Life of Pablo. Kanye West voltou. E a todo vapor.

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