O regime egípcio assedia a cultura no aniversário da revolução

Salas de exposições, editoras e escritores estão sob a mira do governo

Uma mulher passa ao lado de um soldado, próximo à praça Tahrir.
Uma mulher passa ao lado de um soldado, próximo à praça Tahrir.Roger Anis (AP)

Depois de prender jornalistas, proibir qualquer tipo de protesto nas ruas e forçar vários partidos políticos à ilegalidade, o regime egípcio volta-se contra a cultura. As autoridades egípcias fecharam recentemente uma sala de exposições, um teatro e uma editora, todas situadas no centro do Cairo. Depois do golpe de Estado de 2013, as liberdades de expressão e de criação estão se deteriorando no Egito, um país que passou, nos últimos anos, por uma revolução e uma contrarrevolução.

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No final de dezembro, o regime egípcio fechou a sala de exposições Townhouse Gallery e o teatro Rawabet, que fica em um edifício anexo, depois de uma inspeção surpresa, da qual participaram agentes da Agência de Segurança Nacional, funcionários da Fazenda, do Ministério do Trabalho e da autoridade responsável pela censura. Os dois lugares estão entre os principais espaços culturais independentes da capital.

“As razões do fechamento não são claras, mas parece que têm a ver com alguns erros administrativos. Estamos trabalhando para resolver as exigências das autoridades”, declarou, por telefone, Yaser Jarab, o responsável pela Townhouse Gallery. “Esperamos que seja apenas um fechamento temporário e não definitivo. Até agora não recebemos nenhuma ameaça”, acrescentou Jarab, que garantiu ter todos os documentos em ordem, mas não quis entrar em especulações sobre quais poderiam ser as verdadeiras razões das autoridades.

No dia seguinte, foi a vez da editoria Merit Publishing House. Os agentes que executaram a ordem de fechamento alegaram que estavam reagindo a uma denúncia de que a empresa operava sem licença e vendia livros não registrados. No entanto, seu proprietário Mohamed Hasehm suspeita que a verdadeira razão seja a publicação do livro Vodka, que revela os obscuros truques da imprensa oficial, como ele explicou ao jornal Madamaser. Hashem, publicamente contra a autoridade de censura, fundou a editora em 1998, especializada na publicação de obras de jovens valores da literatura egípcia.

Esta não é a primeira vez que o Egito do marechal Abdelfatá al Sisi fecha um espaço cultural alternativo. Ano passado, o regime dissolveu a entidade Fan al-Midan, cujo objetivo era levar cultura a bairros populares organizando festivais gratuitos em praças e parques públicos. O regime chegou até a assediar Alaa al Asuani, uma das referências culturais do país. Al Asuani, escritor de renome internacional, viu-se forçado a cancelar um seminário público em Alexandria, três semanas atrás, por causa de pressões governamentais.

“Essas investidas contra as instituições culturais do centro do Cairo compõem uma campanha contra a juventude opositora, diante de 25 de janeiro”, afirma Fatma Serag, da Associação pela Liberdade de Expressão e Pensamento. Com sua atuação contra as instituições culturais, o regime exibe uma surpreendente insegurança, considerando que a brutalidade policial conseguiu colocar um fim a qualquer manifestação opositora, já há uns dois anos. Inclusive, o próprio Al Sisi, cuja popularidade foi corroída pela estagnação econômica, advertiu o povo contra uma nova onda revolucionária em 25 de janeiro, em um discurso pela televisão.

O mundo da cultura foi precisamente um dos primeiros a se rebelar contra o governo do presidente Mohamed Morsi, eleito pelas urnas e derrubado por Al Sisi. Vários artistas expressaram, naquele momento, o medo de que a Irmandade Muçulmana restringisse, progressivamente, as liberdades de expressão e criação. No entanto, as novas autoridades não têm sido mais tolerantes. “Desde 2013, todas as liberdades do Egito foram reduzidas”, lamenta Serag, que lembra o caso do escritor Ahmed Naji, processado em novembro porque seu último romance tinha passagens eróticas.