A precariedade como arte

A artista argentina Ana Gallardo apresenta exposição no Museu de Arte Moderna de Buenos Aires

“Casa Rodante” (2007) imagem do vídeo de Ana Gallardo
“Casa Rodante” (2007) imagem do vídeo de Ana GallardoAna Gallardo

Uma das obras mais atraentes de Un lugar para vivir cuando seamos viejos (Um lugar para viver quando formos velhos), a mostra de Ana Gallardo (Rosário, 1958) no Museu de Arte Moderna de Buenos Aires, é também uma das mais simples: o currículo da artista. No centro do primeiro dos dois andares que o MAMBA dedica a repassar seus últimos dez anos de trabalho, cinco pares de fones de ouvido estão pendurados do teto em círculo e reproduzem a voz da artista recitando as etapas de seu percurso desde meados dos anos 80 até hoje. Mas trata-se de um percurso de trabalho, ou melhor, de alimento, de mera sobrevivência, no qual a arte, se aparece, acaba sendo apenas como um mundo ideal ou um horizonte inacessível, e cujos marcos compõem a paisagem de insegurança típica do mundo do trabalho contemporâneo.

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Ao longo de quase 30 anos, Gallardo – cuja trajetória como artista inclui, entre outras coisas, ter participado da Bienal de Veneza de 2015 – foi recepcionista, telefonista, secretária promotora de venda e assistente (de feiras e galerias de arte, incluso da galeria que já a representou). Os poucos momentos de adrenalina que animam este mapa da fragilidade do trabalho são alguns meses como contrabandista de matérias-primas para bijuterias entre a Argentina e a Cidade do México (onde a artista viveu por alguns anos) e outros, também na Cidade do México, de “representante de artistas de cabaré”. Gallardo recita sua lista de empregos, sem qualquer ênfase, fiel à marca subsintática e administrativa do gênero CV, e delega à repetição e acumulação (quantas centrais telefônicas um artista contemporâneo pode se vangloriar de ter atendido?) o humor e a crueldade paradoxal de uma autobiografia onde a arte foi deslocada pela necessidade. Diferente é o tom da peça informativa que comenta a obra, sofrido, estoico, pouco sentimental, sem um pingo de ironia ou de distância: “Não vivo da venda das minhas obras”, escreve Gallardo, “portanto, tenho que fazer outros trabalhos para ganhar meu sustento e da minha família”.

Não é raro que um artista não viva da sua arte. O raro é a lógica da vida dupla contundente, quase de super-heroína, em que se coloca Gallardo

Não é raro que um artista não viva da sua arte (talvez essa seja a única fusão arte-vida que a milagrosa arte contemporânea ainda não esteja em condições de garantir). O raro é a lógica da vida dupla contundente, quase de super-heroína, em que se coloca Gallardo (promotora de venda de convênios médicos de dia, estrela de bienais à noite), e o modo em que transforma essa desinteligência social – sem dúvida comum a muitos artistas, embora nunca tão visível como no caso dela – no objeto de uma busca de autorrepresentação pela qual se filtra uma figura que pensávamos estar extinta: a figura do artista que sofre. Se a imagem de Gallardo algemada na recepção de uma empresa ou vendendo planos de telefone celular na rua parece injusta, não é tanto porque demonstra as misérias da precarização, da hiperflexibilidade e da desregulamentação do trabalho (uma tendência da qual o artista contemporâneo, por outro lado, é menos vítima que pioneiro) quanto porque postula que não ser dono do seu tempo nem poder ser fiel a seu desejo é o drama máximo que um artista (contemporâneo) pode sofrer.

Mas Gallardo vai ainda mais longe e imprime ao assunto uma inflexão dickensiana, anacronizando o que poderia ser uma síndrome endêmica do presente e substituindo o reflexo da crítica ou da denúncia pela encenação de uma espécie de calvário pessoal, marcado por uma penúria cuja nudez (cuja manifestação sincera, em primeiro grau, crente) tínhamos desacostumado a ver em um espaço de arte. Ali a temos em plano artista homeless, condenada ao nomadismo e à caridade de outros, passeando por Buenos Aires os despojos de sua casa (alguns poucos móveis, um abajur, um tapete, sua própria filha Rocío) cuidadosamente em um trailer puxado por uma bicicleta (Casa Rodante, 2007). Aí está, empenhada em realizar um projeto em um asilo de prostitutas da Cidade do México, aceitando prestar o “serviço” que a diretora da instituição exigir em troca de uma condição: cuidar de Estela, uma prostituta prostrada em uma cadeira de rodas (Estela, 2012; Extracto de un fracasado proyecto o el retrato de Estela – Extrato de um fracassado projeto ou o retrato de Estela, 2012); mas Estela morre antes que Gallardo cumpra o número de horas de serviço que tinham concordado, de modo que o projeto fica truncado.

Dança japonesa.
Dança japonesa.ANA GALLARDO

Desses turning points cruéis e desolados, como um melodrama devoto, estão feitos a dramaturgia de Un lugar para vivir cuando seamos viejos e o imaginário desguarnecido de Ana Gallardo. O século XIX, berço do melodrama, propôs uma solução para a ruptura do artista sofredor, inadequado: foi chamada de boêmia. Mas do mix dissonante de lamento e ressentimento da retórica boêmia, Gallardo conserva apenas o primeiro componente – “meu coração nu” – enquanto substitui a veia crítica do segundo pelo arsenal de disposições sensíveis (empatia, solidariedade, vocação terapêutica) que informam o “giro assistencial” de uma região da arte contemporânea. Daí as comunidades específicas de pares com as quais se conecta, marcadas pela marginalidade e o abandono: prostitutas do asilo do bairro Tepito de Estela, as vítimas ensacadas de Mujeres de Juárez (2010) e, claro, os velhos de Un lugar para vivir cuando seamos viejos (2010-2015), a instalação de vídeo exposta no segundo subsolo do museu.

Do mix dissonante de lamento e ressentimento da retórica boêmia, conserva apenas o primeiro componente

Estritamente falando, a “solução Gallardo” para o karma do artista é a terceira idade. Dos velhos inertes dos vídeos do térreo (o pai e o tio da artista, dois imigrantes espanhóis em Rosário e dominados pela adversidade e a melancolia) aos entusiastas que protagonizam os do porão (um elenco de septuagenários que se dedicam, finalmente, ao que sempre quiseram fazer e nunca puderam: danças japonesas, karaokê, horta orgânica, bailes populares), o que muda não é só a densidade do tempo (o peso do passado contra a leveza jovial do presente); é também a posição da artista, que por uma vez troca o pathos autocomplacente da aflição por uma espécie de deslocamento lunático (Gallardo é filmada “aprendendo” com os idosos as destrezas crepusculares a que se dedicam), e as tautologias de uma dor muito conhecida pelos mistérios de uma dimensão – a velhice – cuja marginalidade não é mais sinônimo de calvário mas, talvez, para o artista da penúria, de liberdade e desejo.

Un lugar para vivir cuando seamos viejos. Museu de Arte Moderna de Buenos Aires. Até 3 de abril de 2016