28 leituras para enxergar a América

Da Argentina aos EUA, o EL PAÍS sugere uma seleção de obras que enriqueceram 2015 na região

Homem caminha enquanto lê um livro na livraria Juan Rulfo, em Madri.
Homem caminha enquanto lê um livro na livraria Juan Rulfo, em Madri.LUIS SEVILLANO

Do diário de um escritor argentino ao de um preso mauritano em um presídio hediondo em um canto de Cuba. Do capitalismo do conhecimento da Costa Oeste dos Estados Unidos à memória chilena. Da infância prosaica e hilária em São Paulo à ditadura brasileira. De um massacre de chineses no México há um século a todas as formas possíveis de violência que a Colômbia desencadeou, e tenta deixar de desencadear. Não sabemos o que é exatamente a América. Mas uma maneira de procurar saber é lendo-a. As redações de EL PAÍS Brasil e América propõem uma seleção de obras que enriqueceram o ano na região. Da Argentina aos Estados Unidos.

Los Diarios de Emilio Renzi. Años de Formación (Os Diários de Emilio Renzi. Anos de formação)

Ricardo Piglia (Anagrama)

Ricardo Emilio Piglia Renzi nasceu há 74 anos na Grande Buenos Aires, e no processo de se transformar em um dos principais escritores argentinos dividiu seu nome em dois: o autor Ricardo Piglia e seu alterego, Emilio Renzi. Neste primeiro volume de seus diários, relata o começo como escritor, as primeiras leituras e os encontros com Borges e Walsh. ALEJANDRO REBOSSIO

Desmonte

Gabriela Massuh (Adriana Hidalgo)

Gabriela Massuh (Tucumán, 1954) narra em seu terceiro romance a viagem de uma jornalista da área literária que prefere ocupar-se de histórias que “não interessam a ninguém”, segundo a recriminação de seu editor. Massuch, ex-professora, jornalista, tradutora e diretora do departamento cultural do Instituto Goethe de Buenos Aires, conta a desgraça dos indígenas deslocados. ALEJANDRO REBOSSIO

Historia Secreta de Chile (História Secreta do Chile)

Jorge Baradit (Editora Universitária)

O livro de Jorge Baradit (Valparaíso, 1969) foi um dos fenômenos editoriais no Chile. O escritor, que usa diferentes plataformas narrativas, como trilhas sonoras, peças audiovisuais, mockumentários, quadrinhos, ilustrações e livros-objetos, conquistou os leitores com 12 relatos de não ficção. ROCÍO MONTES

Qué Vergüenza (Que Vergonha)

Paulina Flores (Editorial Hueders)

Um livro que reflete o dinamismo das narradoras chilenas é esta estreia de Paulina Flores (Santiago, 1988), por meio de nove relatos de uma visão despojada da vida dos chilenos de hoje. Mulheres que moram em apartamentos de classe média, homens que perderam o emprego e que revelam os sustentos frágeis das famílias, jovens que trabalham em fast-foods, Uma visão dura, mas terna, da realidade chilena. ROCÍO MONTES

Nuevos Juguetes de la Guerra Fría (Novos Brinquedos da Guerra Fria)

Juan Manuel Robles (Seix Barral)

É a primeira obra do escritor peruano Juan Manuel Robles. Formado na escola de cronistas da revista limenha Etiqueta Negra, Robles se lança aqui a uma história que brinca com a essência da recordação, da memória, com o fato em si de voltar neuroniamente ao passado, seu significado, sua arquitetura química. Uma história de espionagem que transcorre entre Havana, Lima, Nova York e La Paz em um tempo que já se foi. PABLO FERRI

Zona de obras

Leila Guerriero (Anagrama)

Há quem se queixe de que nas relações de cronistas latino-americanos o único nome feminino seja Leila Guerriero (Junín, 1967), mas o certo é que este livro, que recompila artigos e conferências, e agora é editado no México, Argentina e Colômbia, transpira paixão pelo jornalismo. CECILIA BALLESTEROS

Niebla al Mediodía (Névoa ao Meio-Dia)

Tomás González (Alfaguara)

Apaixonar-se por alguém radicalmente diferente pode vir a ser um absurdo. E também uma viagem para entender a alma de uma pessoa. Por meio de uma história simples, Tomás Conzález (Medellín, 1950) volta a recriar um mundo complexo em Niebla al Mediodía, como já havia feito em La Luz Difícil (A Luz Difícil). Dizer que se trata de um romance sentimental seria reduzir à mínima expressão a complexidade que o leitor encontra ao longo de apenas 148 páginas. JAVIER LAFUENTE

La Oculta

Héctor Abad Faciolince

Em La Oculta, novo romance de Héctor Abad Faciolince (Medellín, 1958), a morte de Ana, a matriarca de uma família de classe média alta, desata a ação. Seus filhos, Antonio, Eva e Pilar, combinam o luto com os problemas cotidianos trazidos pela morte dos pais e o terror que se vive na zona rural colombiana. LUIS PABLO BEAUREGARD

La Ruidosa Marcha de los Mudos (A Ruidosa Marcha dos Mudos)

Juan Álvarez (Seix Barral)

Um romance histórico a partir de grandes épicos pode ser excelente, mas logo de início não será muito original. Aí reside o valor de La Ruidosa Marcha de los Mudos, onde Juan Álvarez (Neiva, 1978) dá voz a José María Caballero Llanos, um homem que não pronunciou nenhuma palavra, para recriar a Santafé de Bogotá de 1808, no alvorecer da Independência. JAVIER LAFUENTE

La forma de las ruinas

Juan Gabriel Vásquez (Alfaguara)

Existem dois tipos de pessoas: as que acreditam no azar e as que transformam qualquer acontecimento em uma oportunidade para armar uma teoria da conspiração. Essas versões do ser humano se encontram no último romance de Juan Gabriel Vásquez (Bogotá, 1973) enredadas em dois momentos relevantes na história da Colômbia: os magnicídios do político Jorge Eliécer Gaitán e do senador liberal Rafael Uribe Uribe. ANA MARCOS

¡Llegaron! (Chegaram!)

Fernando Vallejo (Alfaguara)

Fernando Vallejo (Medellín, 1942) não escreve. Basicamente abre as comportas de sua genialidade e deixa que as palavras inundem as páginas. Seu domínio da linguagem ultrapassa qualquer muro de contenção e arrasa o que encontra em sua passagem. Isso ocorre, uma vez mais, com ¡Llegaron!, um texto autobiográfico (e às vezes nem tanto), onde uma primeira pessoa em um avião revê de faca na mão a vida familiar do narrador e sua época. JAN MARTÍNEZ AHRENS

Patria o Muerte (Pátria ou Morte)

Alberto Barrera (Tusquets)

A Venezuela atual pode resultar em um romance sombrio, uma telenovela e até mesmo uma crônica de ficção científica. O retrato que Alberto Barrera faz de seu país, e que lhe valeu o último Prêmio Tusquets, é uma radiografia do que acontece no dia-a-dia a partir da doença de Hugo Chávez. Um momento cujas consequências ainda se percebem. JAVIER LAFUENTE

La Casa del Dolor Ajeno (A Casa da Dor Alheia)

Julián Herbert (Random)

Depois de Canción de Tumba (Canção do Túmulo) (2011), Julián Herbert (Acapulco, 1971) deu outro soco na mesa com La Casa del Dolor Ajeno (Random), crônica da matança de 303 chineses no México em 1911. Narrador tão tempestuoso quanto rigoroso, ele resgatou uma história do velho oeste mexicano que deixaria Tarantino louco e que, lançando o olhar a uma atrocidade do passado, coloca o México diante de seus horrores do presente. PABLO DE LLANO

Méjico

Antonio Ortuño (Océano)

Antonio Ortuño (Guadalajara, 1976) esmiúça duas histórias no tempo: o exílio republicano no México e a guerra contra o narcotráfico em Jalisco. O romance desvenda dois tipos de guerras diferentes e distantes, mas com um alto saldo de sofrimento. SONIA CORONA

Las Tierras Arrasadas (As Terras Arrasadas)

Emiliano Monge (Random)

O drama da imigração centro-americana, a solidão, o tráfico de pessoas e o amor entre dois membros de uma organização criminosa são os ingredientes do último romance de Emiliano Monge (Ciudad de México, 1978). Las Tierras Arrasadas descreve a crise de uma região onde as pessoas são reduzidas a mercadorias e a violência é o motor da história. PAULA CHOUZA

Dos Veces Única (Duas Vezes Única)

Elena Poniatowska (Seix Barral)

A autora, Prêmio Cervantes 2013, encerra com este romance –uma profunda investigação sobre Lupe Marín, a primeira mulher de Diego Rivera–, sua trilogia sobre o México depois de Tinísima e Leonora. CECILIA BALLESTEROS

Quarenta Dias

Maria Valéria Rezende (Alfaguara)

Maria Valéria Rezende (Santos, 1942) ganhou com este livro o Prêmio Jabuti, a mais importante honraria da literatura brasileira. Seu romance conta a história de uma viúva de 60 anos que se muda para Porto Alegre para ajudar a filha e sofre um momento de loucura que a leva a viver nas ruas. Escritora e freira, Rezende debutou na literatura aos 59 anos, depois de uma vida de viagens e militância política. NATASHA R. SILVA

Muse (Musa)

Jonathan Galassi (Alfred A. Knopf)

Galassi, um dos editores mais influentes dos Estados Unidos, publica seu primeiro romance, um jogo literário delicioso que é ao mesmo tempo um retrato do mundo literário nova-iorquino e uma elegia à velha edição independente, golpeada pelos conglomerados, a revolução da Internet, a Amazon e o livro eletrônico. “Esta é uma história de amor”, assim começa o prólogo de Muse, um romance “para os ocultos fanáticos do culto da palavra impressa”. MARC BASSETS

Guantánamo Diary (Diário de Guantánamo)

Mohamedou Ould Slahi (Canongate Books)

É o diário de cativeiro do mauritano Mohamedou Ould Slahi, encarcerado desde 2002 no centro de detenção dos Estados Unidos na base militar de Guantánamo (Cuba). O livro de Slahi, que não foi acusado de nenhum delito pelas autoridades norte-americanas, é o primeiro de um recluso que continua em Guantánamo. JOAN FAUS

Bold (Audacioso)

Peter Diamandis e Steven Kotler (Simon &Schuster)

Peter Diamandis, ideólogo da Universidade Singularidade, e Steven Kotler, jornalista e empreendedor, fincam as bases das organizações do futuro. O livro ajuda a entender a mente de revolucionários atuais como Jeff Bezos e Elon Musk ou emular sucessos que partiram do zero, como a hospedagem com o Airnbnb ou o financiamento coletivo por meio do Kickstarter. ROSA JIMÉNEZ CANO

Between the World and Me (Entre Mim e o Mundo)

Ta-Nehisi Coates (Spiegel & Grau)

“Te escrevo no teu décimo quinto ano de vida. Este é o ano em que viste Eric Garner ser afogado até a morte por vender cigarros, E viste homens uniformizados assassinarem Tamir Rice, um menino de 12 anos a quem deveriam proteger.” Between the World and Me é a carta de Ta-Nehisi Coates a seu filho para ajudá-lo a compreender a violência racial nos Estados Unidos. CRISTINA F. PEREDA

Future Crimes (Crimes Futuros)

Marc Goodman (Random House Audio)

Marc Goodman, especialista em delitos tecnológicos e consultor do FBI e da polícia de Los Angeles, explica os desafios que as cidades, as pessoas e as empresas terão de enfrentar em um mundo conectado. Um título de prosa cuidada, com experiências que convidam à reflexão sobre as fragilidades da Internet. É impossível não pensar em tampar a câmera do notebook depois de lê-lo. ROSA JIMÉNEZ CANO

Killing and Dying (Matando e Morrendo)

Adrian Tomine (Faber)

Um dos melhores retratos recentes dos Estados Unidos suburbanos, os bairros de casa unifamiliares e shopping centers impessoais com restaurantes fast-food, as famílias de classe média atingidas pela incerteza econômica e os solitários sem rumo nem conexões sociais – não se encontra em nenhum tratado sociológico, a não ser na última HQ de Adrian Tomine, Killing and Dying. MARC BASSETS

Quem manda aqui? Um livro sobre política para crianças

Larissa Ribeiro, André Rodrigues e Paula Desgualdo e Pedro Markun (Companhia das Letrinhas)

Através da explicação de várias formas de poder, o livro mostra de maneira lúdica e suscinta como funcionam diferentes modelos políticos – como a monarquia e a ditadura militar – e as eleições. Também propõe às crianças uma reflexão sobre o poder das pessoas dentro de seus próprios espaços: a professora na sala de aula, o indígena na natureza e os pais dentro de casa, apresentando, inclusive, diferentes modelos de família: mãe, pai e filho; somente mãe e filho; mãe, mãe e filho; vó, vô e filho etc, ressaltando, no final, que o importante é que cada um possa escolher como quer viver. ISABELA SPERANDIO

Hereges

Leonardo Padura (Boitempo Editorial)

Depois do sucesso mundial de O Homem Que Amava Cachorros, que conta a história do assassino de Leon Trótski Ramón Mercader, Leonardo Padura resgata seu detetive Mario Conde e o insere em uma trama investigativa através dos séculos. Ler esse romance histórico é conhecer um pouco mais sobre algumas das histórias mais fascinantes da humanidade: o desenvolvimento das artes plásticas, as várias diásporas de judeus e a revolução cubana. ANDRÉ DE OLIVEIRA

Pare de acreditar no governo

Bruno Garschagen (Editora Record)

O brasileiro se acostumou a falar mal de seus políticos. Os sucessivos casos de corrupção e equívocos governamentais ocorridos ao longo da história do país não foram suficientes, contudo, para acabar com a crença na capacidade do Estado para solucionar os problemas nacionais. É a partir dessa premissa que Garschagen (Cachoeiro de Itapemirim, 1975) investiga o histórico patrimonialista do Brasil desde o período colonial e analisa, entre outras coisas, o impacto na nossa vida pública da unificação educacional sob o ideário iluminista do marquês de Pombal, no século XVIII. Além de ajudar a entender o Brasil, o livro está entre os maiores expoentes do recente fenômeno de resgate editorial do pensamento liberal e conservador brasileiro. RODOLFO BORGES

Ainda estou aqui

Marcelo Rubens Paiva (Objetiva)

Impossível por um ponto final na ditadura brasileira. Tanto para o autor de 'Feliz ano velho' – que perdeu o pai, o deputado Rubens Paiva, para os horrores do regime em 1971 – como para todos nós, brasileiros, que temos muita memória a resgatar e mais ainda que entender sobre esse período sombrio do país. Neste livro, Marcelo aborda o tema com sua prosa leve e certeira ao retratar sua mãe, Eunice Paiva, belo personagem, hoje doente de Alzheimer, que levou a família por dias de drama e também de comédia com regras de amor e coerência estritos. CAMILA MORAES

Mulheres – Retratos de respeito, amor-próprio, direitos e dignidade

Carol Rossetti (Sextante)

As questões feministas estiveram nas ruas brasileiras em 2015. E no Congresso. Na internet, na publicidade e na redação do Enem. O empoderamento da mulher foi também o tema deste livro, em que a ilustradora Carol Rossetti criou diversas personagens para narrar casos de machismo no cotidiano feminino. Algumas histórias parecem até piada. Seguramente alguma mulher que você conhece e passou por um caso parecido, provará que não. O livro é mais uma prova de que 2015 foi sim, o ano das mulheres. E se reclamar, 2016 também o será. MARINA ROSSI