Físico condenado por terrorismo na França defende sua nova vida no Brasil

Adlène Hicheur foi considerado culpado em 2009 por suas ligações com fóruns jihadistas

Adlène Hicheur, na foto da sua ficha académica no Brasil.
Adlène Hicheur, na foto da sua ficha académica no Brasil.

O físico cumpriu dois anos e meio de pena desde que foi preso até sair em liberdade condicional. Uma vez na rua, ele quis voltar a fazer parte da equipe do prestigioso Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (CERN, na sigla em francês), com sede em Genebra, onde trabalhou, mas não conseguiu. A polícia suíça, em uma decisão administrativa e não judicial, proibiu-o de entrar no país até 2018. Foi então que, em 2013, ele se mudou para o Rio de Janeiro com uma bolsa de pesquisa concedida pelo Governo federal para se tornar professor visitante no Departamento de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro com um salário mensal de aproximadamente 11.000 reais.

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Seis anos depois de sua prisão e posterior condenação, seu passado foi revelado no sábado em uma reportagem da revista Época que afirma que a Polícia Federal, que em outubro revistou sua casa e seu laboratório, o tem sob vigilância. A história do físico causou um grande alvoroço e desperta a ameaça jihadista em um país que ainda não tem leis para julgar o terrorismo e que enfrenta o desafio da segurança em escala planetária nos Jogos Olímpicos do Rio, que acontecerão em agosto. O ministro da Educação e braço direito da presidente Dilma Rousseff durante muito tempo, Aloizio Mercadante, se manifestou sobre o caso afirmando que o cientista não deveria ter entrado no Brasil. “É lógico pensar que [Hicheur] não deveria ter podido cruzar a fronteira. Uma pessoa condenada por prática de terrorismo não nos interessa como professor no Brasil. Não temos nenhum interesse nesse tipo de pessoa”, disse o ministro.

Hicheur, de nacionalidade franco-argelina, entrou legalmente Brasil; seu visto de trabalho, solicitado pela universidade, está em ordem e é válido até julho. O Brasil, como muitos países, exige um certificado de antecedentes criminais para a concessão de vistos, razão pela qual sua passagem pela prisão francesa não era um segredo. Por seu lado, o pesquisador, indignado com a reportagem, escreveu uma carta divulgada nesta semana pelo Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas na qual argumenta que está sendo incriminado injustamente. Hicheur afirma que “o caso foi fabricado” e que a acusação não conseguiu apresentar “nenhuma prova material para sustentar seus argumentos”, nem tampouco provas que demonstrassem a identidade do seu interlocutor, escondido sob o pseudônimo de “Phenix Shadow”. Na carta, no entanto, ele não explica o porquê de sua participação nesse tipo de fóruns e nem condena o terrorismo. Seus colegas brasileiros, que assinaram uma carta em sua defesa afirmando que “não havia provas para garantir sua associação com o grupo terrorista”, disseram ao jornal O Globo que Hicheur deixará em breve o país para se reunir com sua família em Lyon e assim evitar complicações que “manchariam ainda mais o seu histórico”.

Depois de ser preso na França, Hicheur também contou com o apoio de membros da comunidade científica, entre os quais figuravam muitos dos colegas com os quais trabalhou no CERN. O pesquisador ressalta em sua carta que os físicos Jean-Pierre Lees, Monica Pepe-Altarelli e Jean-Pierre Melo criaram um comitê de apoio internacional que contou “com a adesão de centenas de pessoas”, inclusive o Nobel de Física Jack Steinberger. Em dezembro de 2010, mais de uma centena de cientistas assinou uma carta dirigida ao então presidente francês, Nicolas Sarkozy, na qual ponderam que a detenção do colega [que ainda não havia sido julgado] era injustificada. “Pessoalmente, não acredito que ele tenha feito alguma coisa errada”, afirmou Lees em 2011 no The New York Times. “Ele participou de um bate-papo em um fórum. A polícia tentou construir uma imagem de terrorista em potencial, mas conversar não faz de você um terrorista”, disse. A acusação, de fato, não foi capaz de provar no tribunal sua verdadeira participação em uma célula terrorista. “A ambiguidade envolve todo o processo: julgou-se a tentação de se tornar um jihadista, uma simpatia ideológica evidente, mas sem fatos. Uma ambiguidade com a qual joga a acusação”, afirmou em 2012 num artigo sobre o caso o jornal francês Le Monde”, que prosseguia: “Adlène Hicheur lembra que nunca disse sim [às propostas de seu interlocutor]. O promotor censura-lhe por não ter dito não”.