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PMDB pró-Dilma mostra força e se prepara para resistir ao impeachment

Leonardo Picciani, que havia sido destituído oito dias atrás, reassume com partido rachado

Dilma e Eduardo Paes na inauguração do Museu do Amanhã, no Rio, nesta quinta-feira.
Dilma e Eduardo Paes na inauguração do Museu do Amanhã, no Rio, nesta quinta-feira. Antonio Lacerda (EFE)

A inauguração do Museu do Amanhã, uma das obras mais emblemáticas das mudanças na zona portuária do Rio, foi palco perfeito para encenar a sintonia entre Dilma Rousseff e a ala do PMDB do Rio que compra briga interna no partido para tentar salvá-la do impeachment. "Não era uma questão de dinheiro, era uma questão de abrir o diálogo, de sintonia", disse o prefeito do Rio e um líder desta facção peemedebista, Eduardo Paes, a respeito do píer Mauá, local do museu. No discurso, agradeceu repetidas vezes a colaboração de Dilma para as transformações pré-Olimpícas na cidade.

Ao lado de Paes e da elite cultural, intelectual e financeira carioca, estavam lá todos os demais atores relevantes que horas antes haviam dado colaboração crucial para que o Planalto tivesse uma vitória: o governador do Estado, Luiz Fernando Pezão, o secretário exonerado da cidade e deputado Pedro Paulo, e o deputado Leonardo Picciani, que na manhã da quinta-feira havia sido reconduzido à liderança da bancada do PMDB da Câmara. “A política brasileira precisa dialogar. Em Brasília, principalmente, o grau de radicalização de conflitos está muito acima daquilo que é aceitável. Isso prejudica o país. Se a gente já vive uma situação de dificuldade econômica, essa dificuldade econômica é muito agravada por esta crise política. Acho que se botou um pouco de água na fervura hoje", comemorou o prefeito.

Para a felicidade do Governo, Picciani (RJ) reassumiu o controle após ter sido substituído em 9 de dezembro por Leonardo Quintão (PMDB-MG), favorável ao impeachment, em mais um capítulo da luta fatricida aberta em que se transformou o PMDB desde que o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, aceitou um pedido de afastamento da presidenta. Tudo começou quando Picciani indicou apenas deputados pró-Governo para a cota de seu partido na comissão especial que analisará o pedido de impedimento. Com o aval de Cunha, a ala radical da legenda hostil ao Planalto reagiu, montando uma chapa paralela, que foi eleita no plenário. A nova troca na liderança ganha ainda mais peso, uma vez que o Supremo Tribunal Federal acaba de invalidar a sessão que elegeu a chapa alternativa – e anti-Dilma –, e uma nova eleição terá que ser realizada. Caberá novamente a Picciani indicar os deputados do PMDB que analisarão o pedido de afastamento da presidenta.

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A disputa foi cabeça a cabeça entre a ala fiel a Picciani e os descontentes com os rumos da sigla e apoiados pelo vice-presidente Michel Temer, que flerta com um desembarque do Governo que poderia pavimentar seu caminho para herdar o escritório de Dilma. Os peemedebistas rebeldes coletaram na semana passada 35 assinaturas de parlamentares, entre os 69 da legenda, para trocar a liderança. Quintão foi o escolhido para a cabeça da bancada.  A ala fiel a Picciani  reagiu, e apresentou nesta quinta uma lista assinada por 36 deputados, o que garantiu a recondução do parlamentar fluminense à liderança.

Para a vitória de Picciani foram determinantes o auxílio do Governo Federal e a operação montada pelos aliados do Rio, que liberaram secretários da administração para que reassumissem seus mandatos na Câmara. Pedro Paulo Carvalho, que comandava a Secretaria Executiva de Coordenação do Governo municipal, e Marco Antonio Cabral, que estava no comando da Secretaria de Estado de Esporte, Lazer e Juventude do Estado, foram exonerados para, com seus votos, virar o jogo para Picciani.

“Podemos dizer que ele (Picciani) é um líder paraguaio, porque não foi legitimado pela bancada que realmente atua nesta Casa”, disse à Agência Brasil  Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA), um dos principais articuladores da eleição de Quintão para a liderança. Já Pedro Paulo disse ao El PAÍS que foi a Brasília para "estabelecer a racionalidade" e previu que ainda "é possível que os ânimos se acirrem mais na próxima semanas na Câmara". "Eu vou ficar até precisar." É provável que luta de listas no PMDB siga mesmo no recesso parlamentar, já que a escolha da liderança não depende da atividade legislativa e sessões. Os antigovernistas prometem tentar reverter a derrota.

Renan X Temer

Os conflitos internos da Câmara também alimentaram a guerra aberta entre dois caciques do partido, o vice Temer, e o presidente do Senado, Renan Calheiros, que tem feito acenos de apoio ao Planalto. Para tentar barrar as articulações do Planalto por Picciani, a Executiva Nacional do PMDB – liderada por Temer, presidente da legenda – publicou na quarta-feira uma resolução para barrar filiações à legenda que fossem consideradas "oportunistas", e que teriam como resultado final o fortalecimento de Picciani. Foi o bastante para que Calheiros (PMDB-AL) criticasse o veto. Em uma clara mensagem a Temer, ele afirmou que a medida “antidemocrática” tinha como artífice o vice de Dilma. “O doutor Ulisses [Guimarães, peemedebista histórico morto em 1992] deve estar se revirando no túmulo. É um retrocesso”, disse. Temer respondeu a Renan, e declarou que a executiva do partido tem “plena competência” para tomar decisões na legenda. “É correta a afirmação de que o PMDB não tem dono. Nem coronéis. Por isso, suas decisões são baseadas no voto”, disse o vice-presidente em nota.

Aos atritos da troca na liderança do partido tem também como pano de fundo as últimas ações da Operação Lava Jato, que atingiram diretamente a legenda, com buscas na casa e escritórios de Cunha e no diretório estadual do partido em Alagoas – feudo de Renan. Por ora, dos grandes nomes só o vice Temer ainda não apareceu no escândalo. Mas, se depender do presidente do Senado, ele não terá dias tranquilos. Renan articulou a aprovação de um requerimento de que ordena uma auditoria do Tribunal de Contas de União (TCU) em sete decretos assinados por Temer para abertura de crédito ao Orçamento. Nos decretos, também estaria a digital do vice em manobras fiscais semelhantes às que embasam o pedido de impeachment contra Dilma. Ao que parece, o acabo de guerra para decidir se a bancada peemedebista desembarque definitivamente da base do Governo ainda vai longe.

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