OPINIÃO
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Thomas Bach: é preciso renovar a confiança no esporte

Presidente do COI reflete sobre o que fazer depois dos últimos escândalos de corrupção e dopagem no esporte mundial

Mascotes dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro 2016.
Mascotes dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro 2016.

Como medalhista olímpico, os recentes acontecimentos em alguns esportes são particularmente preocupantes para mim. O que mais me dói como ex-esportista é que minam a confiança nos atletas honestos. O dedo acusador aponta para os atletas honestos que se esforçam diariamente para alcançar seus sonhos. Esse é o pior efeito secundário do doping.

Precisamos fazer tudo o que estiver em nossas mãos para proteger esses milhões de atletas honestos no mundo. Temos de preservá-los do doping e da corrupção, por seu bem e pelo bem da credibilidade das competições esportivas. Também precisamos proteger a credibilidade das competições esportivas da manipulação e do arranjo de resultados. O COI criou um fundo de 20 milhões de dólares (74,5 milhões de reais) especificamente destinado à proteção dos atletas honestos. Esse fundo se soma a investimentos internacionais de 500 milhões de dólares para efetuar cerca de 250.000 controles antidoping por ano, entre outras iniciativas. O COI tem uma política de tolerância zero com o doping e qualquer tipo de manipulação ou corrupção.

Precisamos fazer o que estiver em nossas mãos para proteger os milhões de atletas honestos

Os atletas que se dopam enfrentam, desde a primeira infração, a proibição de participar de qualquer competição esportiva durante quatro anos. Isso significa que não podem tomar parte na edição seguinte dos Jogos Olímpicos. Na minha juventude, pedi a suspensão para toda a vida a partir da primeira infração. Infelizmente, nenhum tribunal judicial validaria esse tipo de punição. Mas o que poderemos fazer, sim, é que o sistema antidoping seja mais independente das organizações esportivas. Nesse sentido, o COI tomou a iniciativa de pedir à Agência Mundial Antidoping (AMA), a autoridade internacional na luta contra o doping no esporte, que estude a possibilidade de administrar os programas de controle das federações esportivas internacionais. O COI também propôs que o Tribunal Arbitral do Esporte (TAD), o órgão judicial supremo no mundo do esporte, se ocupe de todas as punições aos atletas infratores.

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A tolerância zero também implica o respeito às normas da AMA por parte de todas as nações e todos os esportes. Para isso, o esporte necessita do apoio dos Governos. Não esqueçamos que eles participam com 50% do financiamento da AMA. Os Governos têm que garantir que as autoridades antidoping nacionais cumpram as disposições da AMA. E também precisam assegurar que os transgressores, treinadores e médicos corruptos sejam punidos com todo o rigor da lei.

A proteção dos atletas honestos tem de ser acompanhada de um entorno livre de corrupção. O COI e as federações esportivas internacionais estão colaborando estreitamente com a polícia e os reguladores e operadores de apostas em todo o mundo com o objetivo de combater a manipulação no esporte e, concretamente, as apostas ilegais e o arranjo de resultados. O COI está ciente do caráter internacional do crime organizado, por isso também coopera com a Interpol a fim de salvaguardar a integridade do esporte.

O esporte necessita do apoio dos Governos. Não esqueçamos que eles participam com 50% do financiamento da AMA

Para lutar contra a corrupção, a boa governança das organizações esportivas é um aspecto fundamental. Há tempos o COI adotou as medidas as necessárias para isso. Mais recentemente, as reformas aprovadas há exatamente um ano, no marco da Agenda Olímpica 2020, garantem normas de governança reconhecidas internacionalmente. O resultado disso é que nossas contas são auditadas de acordo com as Normas Internacionais de Informação Financeira (NIIF) e que tudo aparece em nosso relatório anual, como é habitual no mundo corporativo. Ainda assim, fixamos limites de idade e duração de mandato para todos os membros do COI, e nomeamos um responsável pela ética e cumprimento, bem como um comitê de auditoria e uma comissão de ética independente. Pedimos a todas as organizações esportivas que sigam esse caminho, e esperamos que assim o façam. Todas essas medidas, entre tantas outras, são públicas e permitem que o COI distribua mais de 90% de sua receita, ou seja, 3,25 milhões de dólares (12,1 milhões de reais) por dia, entre atletas e outros atores do mundo do esporte.

Os recentes debates sobre essas questões deixam em evidência a importância do esporte em nossa sociedade. O esporte pode transformar o mundo em um lugar melhor. Se todas as organizações esportivas adotarem essas medidas de boa governança e seguirem as políticas de tolerância zero, o esporte terá um futuro brilhante. Como disse Nelson Mandela: "O esporte tem o poder de mudar o mundo”. Sim, são tempos difíceis para o esporte. Mas isso também nos dá a oportunidade de renovar nossa confiança na capacidade do esporte de contribuir para um mundo melhor.