Epidemia de microcefalia no Brasil

Casos de microcefalia crescem 41% e Governo muda critérios para doença

Número chegou a 1.761, em 13 Estados e o Distrito Federal e 19 mortes são registradas Governo diminui em 1 centímetro a medida que define se o bebê pode sofrer da doença

Homens do Exército acompanham trabalhos de combate ao Aedes Aegypti.
Homens do Exército acompanham trabalhos de combate ao Aedes Aegypti.Secretaria de Saúde do Recife

Os casos de microcefalia no Brasil aumentaram 41% na última semana, informou o Ministério da Saúde nesta terça-feira, durante uma coletiva de imprensa semanal que o órgão faz para atualizar os números da epidemia. Os casos já chegaram a 1.761, espalhados em 13 Estados e no Distrito Federal e 19 mortes de crianças já foram registradas, causadas, provavelmente, pela condição.

O Governo também adotará novos critérios para considerar os casos suspeitos de microcefalia – até o momento, eram contabilizados os bebês com perímetro cefálico menor ou igual a 33 centímetros e, a partir de agora, só serão incluídos na estatística de casos suspeitos os que nascem com 32 centímetros ou menos, medida adotada pela Organização Mundial da Saúde (OMS). “Adotamos [no início do surto da doença], 33 centímetros porque o objetivo era que pudéssemos ter margem de segurança ampla para saber o que estava acontecendo”, explicou Claudio Maierovitch, diretor do Departamento de Vigilância de Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde. Mas isso, segundo ele, levou a um número grande de notificações de crianças que poderiam não ter microcefalia. “Agora teremos mais precisão e passaremos a captar com mais segurança”. Os casos entre 33 e 32 centímetros continuarão a ser monitorados pelas equipes de saúde.

A microcefalia é uma malformação congênita em que o cérebro do feto não se desenvolve de maneira adequada. Além de trazer risco de morte, a condição pode ter sequelas graves para os bebês que sobrevivem, como dificuldades psicomotoras (no andar e no falar) e cognitivas (como retardo mental). Na semana passada, o Governo federal afirmou que há uma correlação entre o aumento dos casos de microcefalia e o zika vírus, transmitido pelo Aedes aegypti, mosquito que também transmite quatro tipos de dengue e outra doença nova, a chikungunya.

O país aumentou os esforços para combater a proliferação dos mosquitos e passou a contar, em muitos Estados, com a ajuda do Exército no apoio dos agentes que visitam as residências. Alguns Estados também estão elaborando mecanismos legais que permitam a entrada em domicílios fechados ou nos quais a visita dos agentes foi impedida, o que atualmente é proibido.

O zika é um vírus novo, e sua chegada ao Brasil passou a ser confirmada em abril deste ano, apesar de já existirem registros de alguns casos no ano passado. Vista inicialmente como uma “dengue leve”, por ter sintomas mais brandos, ela não foi considerada uma doença de notificação compulsória – aquelas que os sistemas de saúde são obrigados a informar. E, em muitos casos, as próprias pessoas infectadas não procuraram os hospitais por não considerarem que os sintomas eram graves ou por não terem desenvolvido qualquer sintoma (estima-se que isso ocorra em 80% dos casos). Com isso, não se sabe atualmente qual o número exato de pessoas que contraíram zika no país. Os casos só ganharam notoriedade quando começou a nascer um número maior do que o normal de bebês com microcefalia. Essas mães relataram, então, terem tido na gestação sintomas parecidos aos do zika. Para afetar o cérebro do bebê, o mais provável é que o contagio pelo vírus tenha ocorrido entre o terceiro e o quarto mês de gestação.

MAIS INFORMAÇÕES

Um relatório da coordenação do Programa Nacional do Controle da Dengue, também do Ministério da Saúde, trazia uma estimativa, provavelmente bastante subestimada, dos casos suspeitos de zika. Segundo o documento, haviam sido notificados no Brasil até outubro 84.931 casos do vírus, a grande maioria deles na Bahia, onde a Secretaria Estadual da Saúde já havia confirmado a suspeita de 62.635 casos até 18 de novembro. O Estado também notou no meio deste ano um aumento de casos de síndrome de Guillain-Barré, uma doença neurológica que já havia sido associada à infecção por zika em outros países.

“A Bahia desde o início adotou a estratégia de registrar as notificações. Foi o primeiro Estado, acredito, a registrar os casos suspeitos de zika”, explicou Ita de Cácia Aguilar, superintendente de Vigilância e Proteção da Saúde da Secretaria Estadual da Saúde da Bahia. Os baianos, até o momento, tiveram 180 casos suspeitos de microcefalia. Mas o Governo espera que esse número aumente bastante, porque o pico da epidemia de zika no Estado foi em maio, depois do de Pernambuco (abril), que teve 804 registros de microcefalia até o momento. “Começaram a surgir os casos de microcefalia a partir de agora”, explica Aguilar, que afirma que até a semana passada existiam no Estado 260 gestantes com notificação de infecção por zika, mas ainda não se sabia se seus fetos tiveram microcefalia.

Sudeste

O período de proliferação do Aedes aegypti muda de um Estado para outro, o que ajuda a explicar o porque, por exemplo, locais como São Paulo, que registraram uma incidência enorme de dengue neste ano ­ ­(com pico entre março e abril), ainda não terem registrado um grande número de casos de microcefalia, dizem pesquisadores. Uma das teses mais prováveis é que o Sudeste ainda não tenha tido muitos casos de zika, porque o vírus provavelmente entrou no país pelo Nordeste. Ela só deve chegar ao Sudeste, com força, no próximo período de proliferação do mosquito, esperado para o início de 2016. O mosquito já poderá ser vetor, portanto, da já chamada “tríplice epidemia” (dengue, zika e chikungunya).

Alguns epidemiologistas, no entanto, dizem que ainda não se sabe como o vírus se comporta e, portanto, ainda seria cedo para dizer que a epidemia chegará com força no Sudeste. “A gente não sabe quanto esse vírus tem potencial de se espalhar. Duas coisas podem acontecer: ou esse vírus deu esse surto e parou por aqui no Nordeste ou ele continua se espalhando”, ressalta Rafael França, pesquisador da Fiocruz em Recife que desenvolve uma pesquisa sobre o zika. “Mas, realmente, é preocupante, não apenas no Sudeste, mas no país como um todo. No Nordeste a gente tem uma questão econômica. A pobreza aqui é muito maior e a população de baixa renda geralmente não tem coleta de lixo, água encanada e tudo isso é um fator complicador para a proliferação do mosquito.”

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