GABRIEL ABAROA JR. | PRESIDENTE DA ACADEMIA LATINA DE GRAVAÇÃO

“Nós, latinos, não podemos ser tratados como criminosos”

Abaroa é o responsável pelo Grammy Latino, que acontece nesta quinta-feira Evento agiu politicamente pela primeira vez ao responder à xenofobia de Donald Trump

Gabriel Abaroa, na cerimônia do ano passado.
Gabriel Abaroa, na cerimônia do ano passado.LATINGRAMMY.COM

O presidente da Academia Latina de Gravação, Gabriel Abaroa Jr., é o responsável por organizar há 16 anos o Grammy Latino, premiação que acontece mais uma vez nesta quinta-feira. Trata-se de um evento único em seu gênero, já que reúne tudo que fale espanhol ou português no mundo, da Catalunha à Califórnia e de Nova York até o Chile. Não é um evento latino-americano, nem hispânico no sentido dos Estados Unidos. Não têm mais peso os mexicanos que os espanhóis ou os brasileiros. É global e latino. Talvez por isso Abaroa seja uma das pessoas mais autorizadas a conversar sobre as nuances do termo latino.

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“Eu herdei o nome Latin Grammy”, responde Abaroa por telefone em Miami, sede da Academia Latina de Gravação. “Se tivesse tido que tomar essa decisão, precisaria encontrar muitos elementos para justificar. Para mim, latino é tudo o que deriva do latim, que é também italiano, francês e romeno. Mas não, nisto participam falantes de português e espanhol. Daria no mesmo se tivesse colocado o nome grammy ibero-americano. Para os Estados Unidos, dizer hispânico ou latino é o mesmo. Mas o termo latino inclui o português. O que é a música latina? Qualquer gênero reconhecido pelos membros da Academia como música latina, chame-se ballenato, cumbia, merengue, bachata, flamenco, tango, cuenca, ranchera… são todos gêneros válidos em espanhol ou português”.

As normas da Academia exigem dos candidatos que mais da metade do produto esteja em um destes dois idiomas. Mede-se por segundo. “Quando há gravações dessas que dizem ‘ay mamita ven pacá shake your booty', é preciso cronometrar quantas palavras há em espanhol e em inglês”, diz Abaroa. A categoria de cantor-compositor é mais rigorosa e exige que 66% do disco esteja em um idioma latino. Isto deixa de fora produtos cantados em inglês de artistas latinos, algo cada vez mais comum. Abaroa considera fundamental para o prestígio e a credibilidade dos prêmios que as normas sejam respeitadas como estão. “Infelizmente, um álbum escrito em inglês não pode competir, mesmo que possa ser considerado música latina”.

O Grammy Latino foi criado na virada do século pela Academia de Gravação, proprietária da marca Grammy. “Perceberam que havia um mercado que não sabiam entender e que estava crescendo muito e muito rápido. Em 1999, houve uma capa da revista Time que dizia: “The latino wave is taking over”. A Academia Latina é dirigida por eles, mas operada por latinos muito focados no mercado dos Estados Unidos. Depois de 16 anos, hoje, do ponto de vista econômico, somos totalmente independentes da Academia dos Grammy. Com orgulho, estamos fazendo um programa de televisão em que nunca se criticou nosso nível de produção. Em nossos eventos batemos todos os programas dos Estados Unidos de primeiro nível. Em audiência, na noite da premiação, roubamos os ratings da ABC, NBC, CBS e FOX juntos. Nossa conta do Twitter tem mais seguidores que qualquer outro prêmio, incluindo o Oscar”.

“Há 16 anos tínhamos de nos provar, demonstrar que tinha viabilidade”, diz Abaroa. “Isso já não se questiona. Agora nos questionamos como chegaremos aos próximos 16, com um território tão vasto e complexo como a América Latina ou qualquer lugar onde haja um músico que componha em espanhol ou em português”.

O megaevento dos Grammy Latinos foi celebrado em Los Angeles, Houston, Miami, Nova York e, desde alguns anos atrás, em Las Vegas, cidade que seduziu os organizadores por seus enormes recursos na produção de espetáculos e pela facilidade de hospedagem. Isso não faz dele um show unicamente norte-americano, adverte Abaroa. É uma questão prática. Em cidades fora dos Estados Unidos “não encontramos o apoio econômico para fazer um show desse nível. Não podemos correr o risco de não ficar à altura. Falamos, entre outras coisas, de uma cidade que pode acomodar 12.000 pessoas sem problemas” a poucos passos da cerimônia de gala.

No fim de agosto passado, a Academia Latina de Gravação publicou um comunicado sem precedentes, assinado por Abaroa, em que se envolvia em política pela primeira vez para responder à xenofobia do candidato presidencial republicano Donald Trump. Abaroa defende a decisão: “A Academia é uma entidade não política cuja missão é musical. Mas (a campanha de Trump) afeta uma comunidade da qual fazem parte muitos músicos e, além disso, há um uso demasiado ignorante dos termos latino, hispânico, mexicano, imigrante ou sul-americano, porque para ele todos são mexicanos. Falei com o pessoal do Grammy e me disseram para ir adiante. O que fiz foi mandar uma mensagem profundamente respeitosa, mas também definitiva. Falamos em nome de muitos artistas que gostariam de se expressar, mas não têm como”.

Não é uma posição militante, não acredita que exista uma obrigação de os artistas latinos estarem permanentemente comprometidos na defesa dos seus. “Somente é preciso pregar com o exemplo. Se formos profissionais, pontuais, honestos e temos palavra, não temos de combater ninguém. Não é necessário ficar gritando aos quatro ventos. A maioria vê os hispânicos como gente trabalhadora, familiar e confiável. O que não podemos permitir é que nos tratem a todos como criminosos”.

Natural da capital mexicana, Abaroa está há 20 anos em Miami, o grande caldeirão latino-americano dos Estados Unidos. “Faz 30 anos que trabalho em toda a América Latina”, explica. Acredita que nos países latino-americanos ainda há uma educação ensimesmada, que olha pouco para os vizinhos. “Sempre nos dizem: ‘Como o México não há dois’. E é verdade, há uns 20. Porque todos os países têm algo importante. Ver isso me ajudou a navegar sem bandeiras em um território sem bandeiras como é a música”.

“Temos uma linguagem comum na qual todos nos comunicamos que é a música”, conclui Abaroa. “Aí não competimos. Competimos em comida, em esporte, em economia, em tudo exceto em música. Quando Alejandro Sanz vai à Argentina, ou Diego Torre ao Chile, ou Alejandro Fernández à Colômbia, ninguém os vê como estrangeiros. Na música, não há barreiras”.

A cerimônia de entrega dos XVI Grammy Latinos acontece na quinta-feira, 19 de novembro, às 20h em Las Vegas (20 de novembro, às 2h em Brasília).