Crise política

PSDB apoia votações essenciais ao Governo mas aposta no impeachment

Partido revê estratégia ao se afastar de Eduardo Cunha e se descola do PMDB

Sampaio discursa enquanto Cunha conversa, no dia 11.
Sampaio discursa enquanto Cunha conversa, no dia 11.Gustavo Lima (Ag. Câmara)

O principal partido de oposição ao Governo da petista Dilma Rousseff, o PSDB, deu quatro sinais que podem parecer ambíguos nos últimos dias. Primeiro, disse estar aberto ao diálogo com a gestão federal e topou votar a favor de um projeto considerado essencial pelos governistas, a renovação da Desvinculação das Receitas da União (DRU). Depois, decidiu pedir oficialmente o afastamento de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) da presidência da Câmara. Na sequência, ajudou a aprovar o projeto de repatriação de recursos, uma proposta essencial para o ajuste fiscal governista. E, por último, reforçou sua vontade de que novas eleições presidenciais ocorram ainda em 2016, junto com o pleito municipal.

Ao baixar a guarda para garantir votações essenciais no Congresso, embora mantendo o afastamento do Governo – num momento em que assume a rejeição a Cunha – o ninho tucano refaz suas posições no tabuleiro da política brasileira. O partido do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso marca território para as próximas eleições e, principalmente, se contrapõe ao PMDB, que nos últimos meses tem se colocado como uma alternativa ao PT caso Rousseff seja destituída. Os peemedebistas inclusive lançaram manifestos com uma série de programas para o Brasil e marcaram dois eventos para debater os rumos do país nos próximos meses.

O PSDB, conforme parlamentares ouvidos pelo EL PAÍS, não quer ficar marcado como um partido que só deseja o mal do Brasil e não ajuda a aprovar as medidas necessárias para retirá-lo da crise. É exatamente essa pecha que os petistas tentam colar em seus opositores.

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“Conversamos com o líder do Governo na Câmara e mostramos que estamos dispostos a ajudar, mas desde que o Governo mostre quais são suas propostas, quais projetos têm para o Brasil, não só com aumento de impostos”, ponderou o deputado Bruno Araújo (PSDB-PE), líder da minoria na Câmara.

O apoio à gestão Dilma promete ser bastante limitado e em apenas questões pontuais, até porque a meta do PSDB ainda é conseguir o impeachment presidencial. “O difícil é que o Governo só tem a criação de novos tributos como alternativa para sair da crise. E isso só não basta. Falta gerência e por isso o país está tão mal”, afirmou o líder do partido no Senado, Cássio Cunha Lima (PSDB-PB).

Cunha Lima é um dos principais tucanos defensores da realização de novas eleições no ano que vem. A ideia dele, que vem se difundindo internamente desde meados de julho, é que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) julgue o quanto antes a ação promovida pelo próprio PSDB que pede a cassação das candidaturas de Rousseff e de seu vice, Michel Temer. O senador entende que, ocorrendo a cassação da chapa até o ano que vem, antes da metade do mandato, seria obrigatório a convocação de uma nova eleição. O problema é que há distintas interpretações jurídicas sobre esse ponto. No entendimento de alguns especialistas, neste caso quem assumiria a presidência seria o segundo colocado nas eleições, o senador Aécio Neves (PSDB-MG). Para os tucanos, essa não seria a melhor alternativa, pois não querem parecer golpistas.

Cunha no caminho

Desde que Eduardo Cunha passou a responder por um processo de cassação no Conselho de Ética da Câmara, ele tem visto se reduzir seu apoio, mas não ao ponto de acabar. O último a abandoná-lo, na quarta-feira passada, foi o PSDB, legenda que tem 54 deputados federais, sendo dois no Conselho. A decisão foi tomada porque o partido não quer abraçar Cunha até o abismo político do qual ele se aproxima. Até então, mesmo com tantas evidências de que o presidente da Câmara teria quebrado o decoro parlamentar ao mentir à CPI da Petrobras, o PSDB era uma das legendas que ainda o sustentavam no cargo.

Agora, ao deixar o barco do peemedebista, pretende levar consigo outro partido de oposição à gestão Rousseff, o Democratas. O problema é que o DEM se sentiu traído ao não ser chamado para encaminhar uma proposta conjunta. Até então, todos os movimentos contrários ao Governo do PT, por exemplo, eram feitos de maneira coordenada entre os opositores PSDB, DEM, PPS e Solidariedade.

Desse grupo, o único que dificilmente abandonará Cunha é o Solidariedade, que já até trocou seu representante no Conselho de Ética para poder ajudar o presidente da Câmara. Enquanto isso, no plenário da Casa, Cunha ainda teria o apoio de 240 dos 513 deputados. Na quarta-feira, quando o líder do PSDB, Carlos Sampaio (SP), manifestou-se contra o peemedebista, o deputado André Moura (PSC-SE) leu um documento assinado por líderes de 13 legendas que defendia o direito de defesa do presidente da Câmara e que eventuais disputas políticas não poderiam paralisar o funcionamento da Casa. Assinavam o documento deputados das seguintes legendas: PMDB, PP, PR, PSD, PTB, PSC, PRP, PHS, SD, PEN, PTN, PTdoB e PMN.

Os apoiadores de Cunha são, em sua maioria, membros de bancadas conservadoras

Na quinta-feira, entretanto, um levantamento feio pelo site G1 constatou que assinaturas de ao menos três dos deputados não representavam a totalidade de suas bancadas. Como são representantes, e não líderes, de partidos nanicos (PTN, PTdoB e PMN), ao invés dos 240 apoios ventilados a Cunha, os dez partidos somariam 231 deputados. Acontece que essa conta não é tão exata assim, pois nela estariam incluídos opositores declarados de Cunha dentro do próprio PMDB, como Jarbas Vasconcelos, e do PSC, como Silvio Costa.

Os apoiadores de Cunha são, em sua maioria, membros de bancadas conservadoras (como a do boi, bala e bíblia), de partidos nanicos, em primeiro mandato ou ainda que conseguiram obter alguma relevância desde que o peemedebista assumiu a presidência da Casa. Neste grupo também há quase cem deles que teriam recebido a ajuda do peemedebista para conseguirem doações eleitorais no ano passado. Ocorre que, com esse número de 230 apoiadores – menos da metade do plenário da Câmara, que tem 513 parlamentares – qualquer resultado é possível hoje. Seja com apoio do PSDB ou não.

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