desastre em mariana

A dor de ver um povoado desaparecer

Sobrevivente relata a incerteza e o medo dos dias seguintes à ruptura da barragem

Lucinelia de Fátima Eusebio e a filha Ana Luíza.
Lucinelia de Fátima Eusebio e a filha Ana Luíza.H. M.

Lucinélia já não consegue mais dormir tranquila. Há quatro dias acorda pelas noites totalmente sobressaltada. Os gritos e a dor daquele dia em que viu um mar de lama invadir sua casa e seus sonhos na cidade de Bento Rodrigues não a deixam em paz. “Corre, corre! Que a barragem arrebentou, hoje é o fim do mundo!". Foi esse o grito que escutou de um dos moradores que passava em um caminhão levando um amontoado de gente. Funcionária da escola do povoado, Lucinélia de Fátima Eusebio estava no refeitório quando escutou um estrondo enorme. A partir daí sua vida mudou. Quando saiu do colégio o caos já estava instaurado. Gente correndo, crianças chorando, idosos sendo carregados e um olhar comum entre todos eles: de desespero. Saiu gritando querendo informações sobre as duas filhas, Letícia, de quatro anos, e Ana Luiza, de nove. Escutou de um dos conhecidos que elas já tinham sido levadas em um caminhão. O coração de mãe apertou, mas confiou que sua irmã teria levado elas a um lugar seguro. Agora lhe restava apenas correr para o ponto mais alto que conseguisse.

"Quando olhei para baixo não conseguia mais saber onde era a minha casa, não tinha mais nada, era um mar de lama. A única coisa que sobrou foi uma igreja. Eu já não sabia se continuava fugindo ou chorava de tanto medo de perder minhas filhas. Entrei em pânico", conta ela ao lado das duas crianças no refeitório do hotel em que está instalada na cidade de Mariana. O encontro das três aconteceu apenas em Santa Rita Durão, uma localidade vizinha a Bento Rodrigues.

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"Eu, minha irmã pequena e minha tia subimos em um caminhão pra Santa Rita depois que escutamos que a barragem tinha estourado. Minha escola afundou e eu vi um caminhão boiando igual um brinquedo. Sabe quando você coloca um brinquedo na água e ele tomba e fica boiando? Igualzinho”, conta Ana Luiza, que ainda parece não entender a nova vida.

A presença das barragens da mineradora Samarco, ali, tão perto da cidade, nunca agradou Lucinélia. "Sempre tivemos medo da barragem, quando chovia então muito a gente ficava com medo dela.". Para ela, não há dúvidas que faltaram avisos sobre o que estava acontecendo. “Não ligaram, não acionaram alarmes, só sei de uma moradora que recebeu o telefonema da mãe que trabalhava na empresa”.

O sentimento das três é um misto de alivio e tristeza, mas principalmente de alegria de serem sobreviventes. Lucinelia e as filhas passaram a primeira noite em um abrigo improvisado em um ginásio em Mariana, mas agora, assim como outras 601 pessoas que estão alocadas em hotéis da região, não têm qualquer perspectiva sobre o que acontecerá nos próximos dias. "A gente não sabe de nada. Estamos aqui na expectativa que a gente consiga algum cantinho pra gente morar, porque a vida da gente tem que continuar e lá não tem mais como voltar. Por enquanto, a Samarco está pagando as despesas, mas não sabemos até quando".

A solidariedade da população foi uma das surpresas que a tragédia revelou a Lucinélia. "Nunca pensei que receberíamos tanta ajuda e carinho. Chegamos a cidades onde pensei que ninguém se importaria com nós, desconhecidos, mas aconteceu tudo ao contrário".

Os bens materiais que foram enterrados na lama em Bento Rodrigues após o rompimento de duas barragens da mineradora Samarco já não importam muito. "A dor verdadeira é pensar que um lugar em que você viveu a vida inteira não existe mais. Uma cidade histórica. Todo mundo conhecia todo mundo", lamenta. Lucinelia já não tem um lar, emprego, e, para ela, cada um dos nomes citados nas listas de desaparecidos faziam parte de sua história e convívio. Uma das vítimas identificadas era um familiar. "Perder essa história da minha vida é o que dá mais tristeza. O meu passado ficou enterrado lá. O único lugar que minhas recordações vivem agora são na minha cabeça".

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