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O medo se instala em Mariana

População agora teme que uma terceira barragem se rompa, em área já fragilizada

Empresa garante que está monitorando e não há riscos

Tragédia em Mariana
Homem trabalha no resgate em Bento Rodrigues. REUTERS

“Se ninguém nos avisou sobre o rompimento das primeiras duas barragens, fica difícil confiar na Samarco quando ela diz que a terceira não corre risco de estourar também. Não dá para ficar calma”, lamenta Maria Paulina Martins na saída do Clube Arena, em Mariana, onde estão sendo recebidos os desabrigados do rompimento das barragens. A moradora foi ao local encontrar a mãe resgatada em um helicóptero do distrito de Pedras, uma das localidades devastadas pelo tsunami de lama que assolou a região na última quinta-feira. “Graças a Deus tiraram ela de lá. Foram dias tensos, às vezes não sabíamos o que estava acontecendo. Mas não dá ainda para relaxar, se essa outra barragem estourar dizem que vai ser ainda pior”, diz.

O sentimento de angústia de Maria é comum entre dezenas de pessoas da região escutadas pela reportagem durante os dois últimos dias. A terceira barragem, a Germano, é ainda maior que as outras duas, a de Fundão e a de Santarém, que se romperam e causaram toda essa tragédia. E em caso de um novo rompimento, o estrago poderia ser ainda maior, o que preocupa parte dos moradores que já não confia na mineradora. A tensão e as informações desencontradas também não contribuem para tranquilizar os moradores. O próprio Corpo de Bombeiros não descarta o risco de rompimento da terceira barragem, ainda que o engenheiro Germano Lopes, responsável pelo plano de ação emergencial da Samarco, tenha garantido que não há esse risco. Ele informou ainda que a mineradora instalou equipamentos adequados na terceira estrutura e que nenhuma alteração foi notada até o momento.

Em visita à região de Mariana neste domingo, o senador Aécio Neves (PSDB) cobrou uma resposta da mineradora sobre a veracidade desses temores. O político tucano chegou a sobrevoar o local da barragem e disse que a olho nu parece não haver risco de uma nova ruptura, porém ressaltou que as outras duas afetadas também não deviam aparentar risco antes da tragédia. O ex-governador de Minas disse ainda que pedirá ao presidente da empresa que ele faça uma reunião com familiares de vítimas para esclarecer informações que ainda não foram divulgadas.

Sobre o modo em que a mineradora avisou aos moradores sobre o acidente no distrito de Bento Rodrigues, Aécio disse que mesmo que não houvesse uma obrigação, o “bom senso” indicava que a Samarco deveria ter instalado sinais sonoros de aviso para a população antes da tragédia e não dois dias depois. A mineradora afirma ter ligado para os moradores de Bento Rodrigues, ainda que a muitas pessoas dizem não terem recebido nenhuma ligação.

Aluvião do lama em Minas Gerais pulsa en la foto
Aluvião do lama em Minas Gerais

O Governador do Estado de Minas Gerais, Fernando Pimentel (PT), que também visitou a região neste domingo, destacou a necessidade de sinais sonoros de aviso, mas relativizou a necessidade do equipamento no caso da tragédia de Bentos Rodrigues. Em entrevista coletiva, ele afirmou que como o acidente aconteceu por volta das 16h da quinta, ele "não sabe se teria feito diferença" o equipamento. No entanto, o governador afirmou que se o acidente tivesse ocorrido de madrugada, o aparelho poderia ter ajudado.

Poucas chances de sobreviventes

Pimentel afirmou ainda que dificilmente os funcionários da Samarco desaparecidos serão encontrados vivos. "Os 13 trabalhadores que estavam em cima da barragem na hora do acidente, lamentavelmente, têm poucas chances de estarem vivo”. A respeito dos demais desaparecidos mostrou-se um pouco mais esperançoso. "Os outros 15 não sabemos. Quem sabe a gente ainda pode localizar alguém que escapou da tragédia, que ficou perdido em alguma localidade. Não quero tirar a esperança de ninguém, pode ser que consigamos achar alguém com vida, mas à medida que o tempo vai passando, a esperança vai diminuindo". Pimentel explicou também que uma grande equipe de veterinários está fazendo o resgate de animais em áreas isoladas.

Segundo nota divulgada pelo Corpo de Bombeiros neste domingo, foi contabilizada uma morte em decorrência de mal súbito após a tragédia, e foram encontrados corpos de três homens, ainda sem identificação -não há ainda confirmações se essas mortes têm relação com o acidente. Duas mulheres permanecem hospitalizadas no Hospital João XXIII em Belo Horizonte, porém estáveis. Duas crianças e uma mulher já foram liberadas. No final deste domingo, a prefeitura de Mariana informou que duas pessoas que eram consideradas desaparecidas foram localizadas em um hotel.  O número de pessoas não localizadas caiu, portanto, para 26 - 13 moradores e 13 funcionários da Samarco.

Já segundo o site G1, o delegado Rodrigo Bustamante confirmou na noite deste domingo que o corpo encontrado na área onde as barreiras se romperam é de Sileno Narkievicius de Lima de 47 anos. Ele trabalhava como motorista na empresa Integral Engenharia, terceirizada da Samarco. O nome de Sileno constava na lista de desaparecidos. As causas do rompimento das barragens ainda não foram esclarecidas.

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