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Corinthians construiu o título de campeão brasileiro no divã de Tite

Técnico soube administrar crise financeira de 2015 e tirou o máximo de cada jogador

Tite é levantado pelos jogadores após o título.
Tite é levantado pelos jogadores após o título.A. L. (EFE)

O Corinthians conquistou nesta quinta-feira seu sexto título do Campeonato Brasileiro. E o fez sem uma liderança fixa em campo, sem um grande artilheiro e depois de perder no meio do ano aquela que era considerada a melhor dupla de ataque do Brasil: Sheik e Guerrero. Ah, sim, e com salários atrasados. Muito atrasados. Foram oito meses de conversas constantes entre dirigentes, comissão técnica e atletas para que a falta de dinheiro não atrapalhasse o desempenho do time. Para conseguir cumprir com as obrigações financeiras, a diretoria se recusou a pagar cerca de 14 milhões de reais a Guerrero e abriu mão do artilheiro no meio da temporada. Mas só pôde fazer isso porque tinha confiança no único responsável por transformar todos esses problemas em vitórias: o técnico Tite. E assim ele fez.

"O segredo é o Tite, não tem muito o que falar. Pelo fato de ele fazer todos os jogadores acreditarem que são importantes, porque são mesmo", revela o goleiro Cássio. Mais do que dinheiro, Tite deu aos atletas o reconhecimento que eles tanto queriam. E a forma que arrumou para valorizar grande parte dos jogadores do elenco, apesar dos salários atrasados, é, no mínimo, curiosa: ele fez um revezamento entre os capitães do time. Só no Brasileirão, 11 jogadores usaram a faixa no braço. Todos puderam ser líderes, dividindo as responsabilidades que o cargo exige.

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Ainda assim, quando for a hora de levantar a taça de campeão brasileiro, o treinador deve deixar o elenco eleger quem deverá erguer o troféu. E o escolhido, provavelmente, será o volante Ralf, que passou parte do Brasileirão na reserva. "O capitão é o Ralf. Pode haver um revezamento da faixa, mas ele é o nosso capitão. Acho que, se a taça vier, ele merece levantar", falou ao Lance! o meia Renato Augusto. Não se sabe ainda quando a taça será erguida, mas a declaração do camisa 8 mostra um traço raro quando se trata de um time de futebol: a total ausência de vaidade entre os jogadores.

Prova dos benefícios desse ambiente saudável construído por Tite pode ser vista na evolução do atacante Vagner Love na temporada. Criticado pela torcida durante os primeiros meses no clube e com a difícil missão de substituir o ídolo Guerrero na função de artilheiro da equipe, o atacante ganhou nova oportunidade depois da lesão de Luciano, em agosto. A consagração veio contra o Atlético-MG, naquela que foi considerada a 'final' do Brasileiro. Na arrancada que deu para superar na velocidade (com extrema facilidade) o zagueiro Edcarlos e marcar o segundo gol da vitória por 3 a 0, Love deixou para trás toda a desconfiança que ainda pairava sobre ele. Não só se tornou o goleador da equipe no campeonato, ao lado de Jadson, com 13 gols, como se destacou na marcação, aspecto pouco comum para um atacante.

"Tite é um cara que tem total condição de assumir a seleção e fazê-la jogar o que jogava há alguns anos", diz Love

"Nunca desaprendi a jogar futebol, mas o que ele (Tite) faz não só comigo, mas com todos os jogadores, é uma coisa diferente. Nos trata como filhos, sabe das nossas necessidades, o que podemos melhorar. Procurar tirar o máximo de cada jogador. Ele sabe do meu valor e do meu potencial e tirou tudo que eu podia tirar de mim dentro do campo. Agora, os resultados tão saindo. Tite é peça fundamental para todos nós, ele consegue nos conquistar de uma tal forma que vamos trabalhar e correr por ele", diz Love.

Três anos antes de promover essa revolução no aspecto coletivo da equipe, Tite já havia livrado o Alvinegro de seu maior trauma. Foi campeão da Libertadores e Mundial em 2012, dando fim à sina de perdedor que perseguiu o clube em 101 anos de história quando se falava de torneios internacionais. O que Tite não esperava, porém, é que toda essa identificação com o Corinthians fosse afastá-lo do cargo mais cobiçado do futebol brasileiro, o de técnico da seleção.

Depois de ver Felipão assumir o lugar de Mano Menezes em 2012, quando já estava entre os favoritos para comandar a equipe na Copa de 2014, Tite levou o maior golpe de sua carreira em julho do ano passado. Pouco depois do fiasco histórico do Brasil no Mundial e da demissão de Scolari, ele aparecia como o candidato mais qualificado para o emprego. Estava desempregado (por opção), tinha acabado de fazer uma reciclagem em grandes clubes da Europa e já gozava da condição de melhor técnico do futebol brasileiro. No entanto, viu a CBF escolher Dunga para o comando da seleção, em uma atitude que contrariou todos os aspectos do jogo, menos o político.

Como técnico do Corinthians durante os dois anos anteriores, Tite se aproximou de Andrés Sanchez, histórico rival político de José Maria Marín e Marco Polo del Nero, respectivamente ex e atual presidentes da CBF. Além disso, conforme mostrou o jornal O Estado de S. Paulo no ano passado, a convocação da seleção brasileira nem sempre depende só de qualidade técnica, mas também de critérios como valor de marketing de cada jogador. Ou seja, ainda que o técnico queira chamar um atleta, ele só pode fazê-lo diante da aprovação de empresas responsáveis por negociar os direitos comerciais dos amistoso da seleção brasileira.

Nesse quadro, se fez necessária a contratação de um treinador aliado de Del Nero e que soubesse muito bem a maneira como funciona a CBF. Dunga foi o escolhido, auxiliado por Gilmar Rinaldi, ex-empresário de jogadores, na condição de coordenador de seleções. A sobreposição dos critérios técnicos por políticos, porém, não vem dando resultados, como era de se esperar. A seleção brasileira caiu de forma vergonhosa na Copa América e hoje ainda depende muito de um jogador, Neymar, para resolver os jogos dentro de campo e também fora, já que foi ele o eleito por Dunga para ser o capitão da equipe. Exatamente o contrário de tudo o que prega o treinador corintiano.

Hoje, a comoção para que Tite assuma o lugar de Dunga é tão grande que até os jogadores do Corinthians fazem coro para que o treinador vá para o comando da seleção. "Tite é excelente treinador, que evoluiu muito nos últimos anos. Temos que respeitar o treinador que está lá, foi uma escolha da CBF. Mas caso Dunga venha a sair, Tite é um cara que tem total condição de assumir a seleção e fazê-la jogar o que jogava há alguns anos", diz Vagner Love.

O técnico, porém, ainda não se vê no cargo. Diz que só quer concorrer à vaga depois do Mundial de 2018, na Rússia. "Torço, peço e coloco de maneira muito clara que deem todas as condições à essa comissão técnica de trabalhar, porque o ciclo no futebol deve ser respeitado. É o ciclo do Dunga na seleção até o final. Em um outro momento, após a próxima Copa do Mundo, vou estar postulante ao cargo e que se dê todas as condições ao profissional que ali estiver", falou Tite ao Sportv.

O Corinthians fez um estudo desses últimos anos recheados de títulos para definir qual é a 'forma Corinthians' de jogar futebol, segundo o jornalista André Rizek, do Sportv. Toda a formação da base está voltada para revelar jogadores que se enquadrem no método de jogo eficaz que foi formado por Mano Menezes e lapidado em sua forma final por Tite. Ou seja, o maior treinador da história do Alvinegro já está cravado no DNA do clube e de todos os jogadores que serão formados pelo Timão. Neste momento, logo após a conquista de seu sexto título no comando do Alvinegro, vale a reflexão: parece que a moribunda seleção brasileira precisa mais de Tite do que o Corinthians.