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Pinochet ordenou assassinato de ex-chanceler chileno em Washington

John Kerry entrega documentos que provam autoria de atentado contra Orlando Letelier

Pinochet
O general Augusto Pinochet, em uma foto de 1997.

O secretário de Estado norte-americano, John Kerry, entregou na segunda-feira à presidenta chilena, Michelle Bachelet, um pen-drive com quase 300 documentos, até recentemente protegidos por sigilo, relativos ao assassinato do ex-chanceler chileno Orlando Letelier, ocorrido em 1976 em Washington. De acordo com o ministro das Relações Exteriores do Chile, Heraldo Muñoz, a entrega oficial dessas novas informações ocorrem durante o encontro bilateral que Kerry e Bachelet mantiveram na cidade de Viña del Mar, a 120 quilômetros de Santiago, por ocasião da cúpula Nossos Oceanos. Por ordem da presidenta, Muñoz colocou os telegramas à disposição do Poder Judiciário chileno e do filho do ex-chanceler, Juan Pablo Letelier, senador pelo Partido Socialista, o mesmo de Bachelet.

Os telegramas também indicam que a DINA teria ordenado a morte da viúva de Allende, Hortensia Bussi

O parlamentar se disse surpreso com o gesto inédito dos EUA e observou que a maioria desses documentos foi elaborada no final dos anos oitenta, durante o Governo de Ronald Reagan. “Entre os telegramas existe uma comunicação entre o secretário de Estado George Shultz e a Presidência onde ele informa que há um documento concludente da CIA sobre a responsabilidade de Pinochet no assassinato do meu pai. Esta é a primeira vez que um documento com informação concreta evidencia que ele ordenou o crime, um fato que nós sempre intuímos”, sustentou Juan Pablo Letelier em entrevista à rádio T13 na quinta-feira.

O senador acrescentou que, entre os documentos que já pôde analisar – o volume total chega a cerca de 1.000 páginas –, um dos mais eloquentes diz respeito às manobras do ditador para “eliminar fisicamente” o chefe da sua polícia secreta, Manuel Contreras, com o objetivo de não delatá-lo. Contreras, chefe da Direção de Inteligência Nacional (DINA) entre 1973 e 1977, os anos mais selvagens da ditadura chilena, foi sentenciado em 1993 a sete anos da prisão como mentor do crime contra Letelier. Ele morreu no começo de agosto em Santiago, condenado a 526 anos de prisão por violações dos direitos humanos. “Talvez surjam antecedentes de pessoas que estão vivas e que tiveram participação no acobertamento”, disse Letelier.

O secretário de Estado John Kerry entregou um pen-drive com 300 documentos sobre o assassinato de Letelier

Em 21 de setembro de 1976, em pleno centro de Washington, uma bomba desintegrou o automóvel de Letelier e causou a morte do ex-chanceler e da sua secretária, a norte-americana Ronnie Moffit, além de ferimentos graves no marido dela. O ousado crime “teve um impacto dentro do regime cujos rastros não se apagariam”, segundo o livro A História Oculta do Regime Militar, dos jornalistas Ascanio Cavallo, Manuel Salazar e Oscar Sepúlveda. “Orlando Letelier, junto com Carlos Prats e Bernardo Leighton, eram precisamente as três pessoas às quais foi atribuída nos primeiros anos a verdadeira capacidade de organizar um Governo no exílio”, diz a investigação.

O assassinato marcou, segundo o livro de Cavallo, Salazar e Sepúlveda, os rumos da relação entre os Estados Unidos e a ditadura chilena: os serviços de inteligência iniciaram investigações, e o presidente seguinte, Jimmy Carter, adotou a bandeira dos direitos humanos.

O assassinato de Letelier definiu após a relação dos Estados Unidos com a ditadura chilena

Os documentos divulgados por Kerry contêm sobretudo informação a respeito desse assassinato, mas também outros capítulos desconhecidos da ditadura. De acordo com o site do Canal 13 da televisão chilena, os telegramas também indicam que a DINA teria ordenado a morte da viúva do presidente deposto Salvador Allende, Hortensia Bussi, e de outros políticos de esquerda – acusações que constam na ata da terceira sessão da Comissão Internacional de Investigação dos Crimes Cometidos pela Junta Militar do Chile, realizada no começo de 1975 na Cidade do México. A filha de Allende, a senadora Isabel Allende Bussi, afirmou que naquela época ela e a mãe foram alertadas sobre um possível atentado.

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