Entrevista

Jonathan Franzen: uma cruzada contra o Vale do Silício

Em ‘Purity’, escritor alerta para as ilusões vendidas pelas grandes corporações da Internet

O escritor norte-americano Jonathan Franzen.
O escritor norte-americano Jonathan Franzen.

Jonathan Franzen, romancista a quem se costuma atribuir a responsabilidade de carregar o rótulo de principal escritor norte-americano da atualidade e outras bajulações venenosas, costumava dividir seus dias entre o espaçoso apartamento no Upper East Side de Manhattan e Santa Cruz, uma cidade do Pacífico localizada entre as baías de San Francisco e Monterrey, onde o surfe é uma religião e as pessoas cultivam com afinco as suas excentricidades. Chegou a esse rico recanto pelas mãos de sua namorada de mais de uma década, Kathryn Chetkovich, escritora como ele; a “menina californiana” que aparece discretamente em A Zona do Desconforto, memórias fragmentárias do autor de Liberdade. A mãe de Kathryn está “bem mais idosa”, por isso, há três anos, o casal se instalou quase que permanentemente em uma casa da família em uma rua residencial. Um local absurdamente calmo com vista para um bosque dominado por eucaliptos. Aqui, os moradores deixam as portas de suas casas abertas e o escritor, um homem cheio de manias, vive razoavelmente isolado do mundo.

Mais informações

Dessa “decisão nem temporária nem definitiva”, tal como a descreveu Franzen em agosto passado em uma longa entrevista realizada na bem cuidada sala da casa, nasceu sua nova e aguardada obra: Pureza, que ele chama de seu “romance da Costa Leste”.

Seus leitores, que são muitos desde a publicação de As Correções (2001), estão habituados a histórias que se passam no Meio Oeste, cenário que, na literatura norte-americana, tem servido — de Willa Cather a Sherwood Anderson, de Jeffrey Eugenides a Saul Bellow — como uma metáfora equidistante para se atingir a alma de um país escorregadio. Um terreno muito vasto, mas familiar. Franzen nasceu há 56 anos em Chicago e passou a infância e a primeira juventude em um subúrbio de St. Louis, capital do Missouri que protagonizou seu primeiro e pós-moderno romance, The Twenty-Seventh City (não publicado no Brasil), de 1988, que lhe valeu ótimas críticas, mas baixíssima venda.

As quase 700 páginas de Pureza (ainda sem previsão de publicação no Brasil), são ocupadas, ao contrário, por okupas de Oakland, hippies esquivos que evitam fazer e responder perguntas, visionários do Vale do Silício e outras espécies que talvez só poderiam surgir mesmo em terras californianas. Franzen define o livro como uma história “contra as ilusões de liberdade que nos são vendidas pelas grandes corporações da Internet”, mas, ao escrevê-lo, seu autor parece ter saído em busca de outros objetivos de caráter mais político do que literário, com uma agenda marcada por assuntos da atualidade, como a preservação do meio ambiente, o fim da intimidade sob o império dos smartphones e o confronto entre o jornalismo tradicional e as novas regras do jogo estabelecidas por “vazadores” de informações como Julian Assange e Edward Snowden.

Em outras palavras, se em Liberdade e As Correções o escritor procurou abordar temas caros ao mundo contemporâneo e o modo de vida das sociedades ocidentais, Pureza pretende intervir no debate público. O lançamento do livro nos Estados Unidos e na Inglaterra, impulsionada por uma gigantesca onda de divulgação na mídia, digna mais de uma estreia cinematográfica de Hollywood do que de um evento editorial, demonstrou a capacidade do autor, bem além da maior parte de seus colegas de ofício, de monopolizar as discussões, embora os caminhos tortuosos que estas tomaram, como se verá mais adiante, acabaram por escapar do controle de Franzen.

Purity, o personagem com que a história começa, é uma advogada demitida recentemente por causa de uma dívida de 130.000 dólares contraída para pagar a Universidade, prática tão comum entre os estudantes dos Estados Unidos que se tornou objeto de debate nacional em uma sociedade na qual a desigualdade vem ganhando terreno sem parar. Todos a chamam de Pip, como o protagonista de Grandes Esperanças, de Charles Dickens, com o qual a moça, que ignora a identidade do pai, compartilha um passado nebuloso e um futuro espinhoso. Franzen, aqui, não rende homenagem ao romancista inglês (“eu me volto mais para Austen e Dostoiévski do que para Dickens”) e, a partir daí, à narrativa de estilo clássico da qual se tornou defensor, sobretudo depois da publicação de Liberdade, um romanção que utiliza técnicas do século 19 para tratar das inquietações do nosso século.

Em sua nova obra, ele investe na construção de personagens que deu tão certo em seus dois romances anteriores, que abrigavam (no caso de Liberdade) Patty Berglund, sempre empenhada em se desmerecer, e o lacônico roqueiro Richard Katz, ou (em As correções) a memorável e paranoica família Lambert. Em uma trama cheia de arabescos e de localizações pouco fixas para os seus padrões, (o leitor viaja para Denver, para a Bolívia e para a Berlim Oriental anterior à queda do muro), o autor nos apresenta, entre outros, Andreas Wolf, um dissidente, por acaso, nos últimos dias da RDA, homem obcecado pelas mulheres (ou melhor, com uma concepção muito especial a respeito das mulheres) que o mundo acabará por transformar em um vazador de segredos à frente de um exército de voluntários em um tal The Sunlight Project; uma versão “iluminada” do Wikileaks, cujo fundador, Julian Assange, é tratado no livro como “um megalomaníaco autista com perturbações sexuais”.

Nesse debate entre as revelações maciças de dados sem filtragem e o jornalismo tradicional, com o cultivo paciente de fontes e a presença no terreno dos fatos, opõe-se a Wolf o casal formado por Tom Aberant, editor de um site de investigação à moda antiga sustentado por uma verba de origem filantrópica, e Leila Hedou, sua melhor repórter. É na boca dela que Franzen coloca, por exemplo, reflexões sobre o ofício como esta: “A investigação jornalística era um sucedâneo da vida; dominar um assunto apenas para depois esquecer dele; travar amizade com outras pessoas apenas para abandoná-las logo depois. E no entanto, como tantos outros sucedâneos prazerosos, era altamente viciante”.

A lista de personagens inclui também Annagret, que faz proselitismo para Wolf, e o professor ressentido Charles Blenheim, um homem de letras que fora considerado pela crítica o herdeiro de John Bart, mas que deixou de sê-lo. A certa altura, ele pronuncia uma das frases mais elogiadas pelos primeiros resenhistas de Pureza: “Há muitos Jonathans. Uma verdadeira praga de Jonathans literários. Se você lesse apenas o suplemento literário do The New York Times, certamente acharia que se trata do nome masculino mais comum nos Estados Unidos. Sinônimo de talento, grandeza. Ambição, vitalidade”. Franzen se apoia em lances como esse, que mistura a autorreferência irônica com a alusão a outros Jonathans de sucesso, como Safran Foer ou Lethem, para considerar Pureza como uma “comédia obscura”, que, diz ele, “não pretende ser engraçada o tempo todo, mas ousa querer ser hilariante em alguns momentos”.

O pai de toda essa invenção compartilha diversas opiniões com alguns de seus filhos. Como Leila, ele acredita que “a Internet está matando o jornalismo”. “Aqueles que dizem que o exercício da profissão à moda antiga, essa coisa de dinossauros, não é mais necessário, são incapazes de explicar como conseguirão extrair algum significado de uma tonelada de mensagens diplomáticas sem a ajuda de profissionais”, afirma o escritor na entrevista. “E então lhe dizem: ‘Um grupo de voluntários fará o trabalho’. Voluntários! Jamais pessoas pagas! Tais voluntários têm alguma experiência no trato dos assuntos abordados pelas mensagens? Escrevem há 20 anos sobre isso? Não! A prova disso é que os vazamentos do Wikileaks são totalmente irrelevantes se não forem trabalhados pelos grandes veículos de comunicação. Toda essa lengalenga da democracia digital é ofensiva e estúpida e só tem conseguido tornar cada vez mais difícil que se paguem repórteres para exercer o seu trabalho. A riqueza obscena das grandes plataformas da Internet é sustentada pela geração gratuita de conteúdo por seus próprios usuários. Por que o Google e o Facebook passariam a pagar por ele? Eles gostam de que as pessoas trabalhem para eles de graça. Há lugar para o velho jornalismo? Claro que sim. As pessoas deveriam ser pagas por ele? Sem dúvida. Se não temos um modelo que possibilite que os jornalistas trabalhem com uma remuneração decente, a democracia é que será afetada. Não estou tão convencido de que os hackers sejam tão indispensáveis assim”.

Jonathan Franzen em sua casa de Santa Cruz (Califórnia).
Jonathan Franzen em sua casa de Santa Cruz (Califórnia).Carlos Chavarría

Mesmo que, como no caso de Snowden, ajudem a revelar uma reunião maciça de dados feita pela espionagem norte-americana, que viola o direito à privacidade? “Na minha opinião, é bom que haja segredos. Basta saber que ao escrever um correio eletrônico alguém poderá lê-lo. Acho extremamente exagerada essa preocupação com a vigilância dos Governos. Se eu tivesse alguma coisa para esconder, eu a levaria, suponho, bem mais a sério”.

Franzen também poderia claramente assinar embaixo a longa reflexão feita por Wolf — o vazador que viveu duas revoluções, a comunista e a da Internet — ao final de Pureza, que se inicia traçando o seguinte paralelo: “[Na RDA] você podia colaborar com o sistema ou se opor a ele, mas a única coisa que não podia fazer, de modo algum, tanto se você gozava de uma vida agradável e protegida quanto se vivia numa prisão, era não ter nenhuma relação com ele. A resposta para qualquer pergunta, relevante ou banal, era o socialismo. Se você substituísse a palavra ‘socialismo’ por ‘redes’, chegaria á internet”. À luz da leitura desse parágrafo, o autor acrescentou, na entrevista, com uma forma tipicamente sua de falar de seus personagens como se fossem pessoas de verdade: “Andreas está se referindo a um sistema, o das redes sociais, do qual é impossível escapar. Se você se retira dele, você se transforma automaticamente em um dissidente. Além disso, através dos smartphones, esse sistema se introduz na sua intimidade 24 horas por dia. A coisa é pior ainda se você é uma pessoa pública. Automaticamente, acaba desenvolvendo uma personalidade online, de cuja construção você se vê obrigado a participar. Se não fizer isso, outros o farão por você, e garanto que o resultado não será exatamente lisonjeiro. É uma chantagem. Ou você participa, ou será punido. Nesse aspecto, o mundo atual se parece bastante com a vida na RDA”.

Mesmo sem que tenha havido tempo para que se lessem as críticas contidas no livro ao statu quo digital, a chegada do livro às livrarias anglo-saxônicas detonou uma enxurrada de opiniões no Twitter, a rede social para a qual se volta especialmente o olímpico desprezo de Franzen pelas novas formas de comunicação virtual. Em entrevista ao EL PAÍS em 2012, por ocasião do lançamento, em espanhol, de sua coletânea de ensaios Farther Away, o escritor afirmou que o Twitter lhe parecia “supervalorizado” e atacou a brevidade do discurso tuiteiro como sendo um dos grandes males da civilização ocidental. Meses depois, ele publicou no jornal londrino The Guardian um ensaio com 5.600 palavras sob o título provocador e nada modesto de O Que Vai Mal no Mundo Moderno, em que fazia soarem as trombetas do Apocalipse em “um momento histórico saturado de mídia e entregue à tecnologia”.

Esses seus temores estão, evidentemente, na raiz de Pureza.

Para esse livro foi determinante, também, a produção de The Kraus Project, um estranho objeto literário composto por dois textos de Karl Kraus. O cáustico escritor e jornalista vienense entrou na história da literatura da Europa Central do século XX como editor, durante 37 anos, da Die Fackel (O archote), revista que ele próprio, quase que solitariamente, recheou de críticas ferozes à degradação da sociedade e da imprensa austríacas. Os textos de The Kraus Project, redigidos originalmente em alemão e traduzidos para o inglês pelo próprio Franzen, são complementados com notas de rodapé prolixas, nas quais se misturam comentários histórico-literários com recordações sobre o “infeliz ano passado em Berlim nos anos oitenta”, que foi quando o autor de Liberdade descobriu a obra de Kraus. Às diatribes anti-tecnologia (que chegam a equiparar a negativa de adquirir um computador da Apple a uma decisão de ordem ética), seguem-se as confissões autobiográficas — “Não nasci irritado. (...) Só conheci a raiva a partir dos 22 anos” —. “Enquanto eu escrevia esse livro”, conta Franzen, “a publicidade messiânica do Vale do Silício estava no seu auge. Percebi, então, que um século atrás Kraus já criticava a espinhosa relação entre comunicação de massa e tecnologia, e que os seus alertas continuam atuais”.

Torna-se inevitável estabelecer um paralelo entre Kraus, O Grande Abominador, e a tendência do nosso homem a se envolver, voluntariamente ou não, em polêmicas desagradáveis. Quando o escritor recebeu o El País Semanal em mais uma tarde incrivelmente seca com que a população da Califórnia tem aprendido a conviver, o romance ainda não tinha sido lançado, mas seu autor já estava bem preparado para os embates. “Sei que sou um alvo fácil, um inimigo que é muito divertido se odiar, Mas não posso culpar ninguém por criticar sem se incomodar de pelo menos me ler. Suponho que fazer isso acabaria com toda a diversão deles”, disse Franzen, com seu jeito estranhamente juvenil de moralista abnegado. “Não penso em entrar no Twitter. As pessoas sempre me convidam a fazê-lo, dizem que deveria estar ali, me defender. Mas eu odeio esse meio de comunicação. A qualidade do discurso tuitado. As redes sociais são como as espécies invasoras, simplesmente assumem o controle. Você pode fumigá-las, mas não adianta nada. É como essa terra aí fora. Era um terreno úmido valioso, mas agora está todo tomado de erva-doce e mostarda. Se você não tirar as espécies invasoras com muito cuidado, acabará espalhando as sementes delas e agravando o problema”.

O leque de comentários sobre a obra nos Estados Unidos e na Inglaterra vai das críticas abertamente positivas às que elogiam apenas a sua maestria como romancista, passando pelos ataques declaradamente hostis, para ficar em termos educados. “Pureza é uma merda irrelevante”, diz o título do Gawker, um web-tabloide cujo lema é: “As fofocas de hoje são as notícias de amanhã”.

Para além dos ataques que levam a considerar que o ódio contra Franzen também pode ser um negócio rentável, deu-se uma outra polêmica, esta mais recorrente, que não quis deixar de aproveitar o evento literário. Quando, a partir da publicação de Liberdade, o escritor se tornou o primeiro em dez anos a ser capa da revista semanal Time (sob o título de “O grande romancista norte-americano”), acumularam-se as críticas elogiosas, inclusive a de Michiko Kakutani, do The New York Times, e se lançou um movimento de escritoras encabeçado por Jodi Picoult (que se apresenta em sua conta no Twitter como “autora, mãe e wonderwoman”) que se queixava da atenção excessiva dada pelo jornal nova-iorquino aos escritores brancos e, em especial, a Franzen. As leituras feministas de Pureza enfatizaram negativamente a imagem que a obra transmite das ansiedades da mulher madura (Elaine Blair, Harper’s), bem como “os estereótipos entediantes dos personagens femininos: mães loucas, mulheres de meia-idade atormentadas pelo dilema entre ter filhos ou renunciar à maternidade, esposas e namoradas que preferem discutir incansavelmente sobre os seus sentimentos antes das relações sexuais” (Curtis Sittenfeld, The Guardian).

Na entrevista, Franzen fez questão de destacar que não lê nada do que se escreve, de bom ou de mau, sobre ele, comentário que voltou a repetir quando, depois de várias semanas do nosso encontro, eu lhe escrevi por correio eletrônico pedindo uma resposta às críticas que o pintavam como um misógino irremediável. “Como eu não as li, não sei em que essas acusações se baseiam. É no fato de que um personagem masculino que não sou eu se comporta de modo misógino? Em que meus personagens femininos são seres humanos que nem sempre agem de modo brilhante? Desconfio que essas acusações provenham de alguém que não sabe o que significa ler uma ficção”.

Perguntei também a Franzen como ele reagia diante de um texto do tradutor para o espanhol de As correções, Ramón Buenaventura, que registrou suas lembranças durante o trabalho em uma série divulgada pela rede no final de 2003 e começo de 2004. Poucos dias antes do lançamento de Pureza nos Estados Unidos, o jornal El Mundo divulgou trechos em que o também romancista e poeta destacava as intervenções de Franzen na tradução: “Tive de perder tempo com bobagens como convencer o autor de que em espanhol não está errado, sintaticamente, colocar um adjetivo antes do nome”, escreveu Buenaventura. “Uma amiga que fala espanhol leu o primeiro capítulo de As correções e encontrou sete possíveis erros”, lembra Franzen. “A resposta do meu editor na época [Seix Barral] e de Buenaventura foi raivosa. O primeiro chegou a dizer que eu, nativo inglês, não entendia a variante norte-americana da língua. Esses sete pontos foram os únicos que apontei em toda a tradução”.

Detalhe da sala de Jonathan Franzen em Santa Cruz.
Detalhe da sala de Jonathan Franzen em Santa Cruz.Carlos Chavarría

Indagado sobre esse “diário”, Buenaventura disse não ter “o menor interesse” em falar sobre o assunto.

O terceiro item do correio eletrônico de Franzen não foi uma resposta a alguma pergunta, mas uma ponderação a respeito de um dos temas abordados na entrevista. Mais uma vez, uma conversa difícil. O escritor publicou em abril, na The New Yorker, um ensaio em que lamentava que todos os esforços feitos pelo combate em defesa do meio ambiente focassem unicamente a questão da mudança climática, deixando de lado o conservacionismo.

“Propus somente que uma pequena parte desse valioso trabalho, que tal 10%?, enfocasse ações como a preservação da flora e da fauna ou da paisagem. Algo que dê resultados reais e não uma guerra perdida como a do aquecimento do planeta. Nada do que fizermos poderá impedir a temperatura global de superar a barreira do realmente preocupante muito antes do fim do século. Contaram-me que a reação nas redes foi extremamente violenta, mas sinto muito, não me interessam as ações cujos resultados demoram 100 anos para serem notadas”.

Indagado se esse ponto de vista de curto prazo nascia de sua condição de homem sem descendência, o escritor respondeu com uma vaga dissertação que logo aterrissaria por correio eletrônico: “Na perspectiva da mudança climática, o pior que um indivíduo pode fazer pelo planeta é reproduzir-se”.

Franzen é, muito provavelmente, o observador de pássaros mais famoso do mundo, como voltou a demonstrar ao recitar na varanda nos fundos de sua casa todas as espécies que frequentam o lugar, um terreno baixo entre duas colinas que desemboca no Pacífico. A preocupação com o meio ambiente é um dos temas centrais de sua obra. Em sua cozinha, como no cubículo em que a protagonista de Pureza trabalha para uma empresa de energia renovável, uma inscrição sob a escultura de ferro forjado de uma câmara de vigilância de ruas diz: “Pelo menos a guerra contra o meio ambiente vai bem”.

A combativa ironia da inscrição se ajusta ao espírito que se respira nas ruas de Santa Cruz, que foi fundamental durante o movimento hippie, uma revolução que, se se atentar para a quantidade de chapados de todas as idades que povoam suas calçadas, é mais um estado mental que uma opção geracional. Cinquenta anos depois, seus habitantes se reafirmam eleição após eleição em seu romance com o Partido Democrata. Como demonstração do compromisso com essa comunidade, Franzen escolheu para a primeira apresentação pública do romance mais esperado da rentrée anglo-saxã a Bookshop Santa Cruz, uma dessas formidáveis livrarias independentes que, espalhadas por cidades de tamanho meio de todo o país, desmentem muitos dos tópicos que circulam sobre a pobreza intelectual do norte-americano médio. Um de seus encarregados, Patrick Ou'Connell, conta que o escritor é um cliente assíduo do estabelecimento. “É bom leitor e um homem próximo. Tem amigos entre os funcionários”.

A livraria poderia ser o ponto de partida de um desses tours literários que reproduzem em três dimensões os cenários de um romance. A estrada que é preciso tomar para chegar a Santa Cruz do aeroporto de São Francisco passa por topônimos familiares como Palo Alto, Cupertino ou Mountain View, cenários da revolução digital contra a qual se alerta em Pureza. A confluência de ambos os mundos não é, para Franzen, inocente: “Parte do problema com o Vale do Silício é que incorporam algo desse ethos hippie californiano. E é exatamente por isso que se diferenciam de outras corporações dedicadas a acumular dinheiro, que os vemos como caras legais que só querem mudar o mundo, como nos anos sessenta, quando na realidade exibem ideias libertarianistas das mais reacionárias”.

A mesma estrada que atravessa o tecnológico vale comunica Santa Cruz com as montanhas. Ali, em uma cabana na pequena localidade de Felton, cruzamento de caminhos entre bosques de sequoias como edifícios de 20 andares, pipilos e outras aves passeriformes, vive e trabalha (como caixa de um supermercado orgânico) a misteriosa mãe da protagonista. Uma visita ao povoado, com sua igreja ortodoxa, suas lojas de chá ecológico e seus salões de acupuntura serve para comprovar que, pelo menos nisso, o romance está baseado em fatos reais.

Detalhe da sala de Jonathan Franzen em Santa Cruz, Califórnia.
Detalhe da sala de Jonathan Franzen em Santa Cruz, Califórnia.Carlos Chavarría

No início da relação, Franzen vinha ao povoado do lado, Boulder Creek, para ver sua namorada, Kathy, mais ou menos na época em que ela publicou na revista Granta um ensaio intitulado Inveja sobre uma escritora frustrada que convivia com um autor premiado. Mais tarde chegaria a decisão dele de alugar um escritório para escrever no campus universitário de Santa Cruz, onde, conta a lenda, Liberdade foi gerada em um quarto com janelas cegas e sem acesso à Internet para fugir das distrações. E a lenda, como boa lenda, não é toda a verdade. “Não é que tenha passado nove anos trancado em um quarto escuro escrevendo. Houve certa luta, mas não tanta para ser descrita como um bloqueio. Incomoda-me essa imagem de escritor bloqueado, porque implica que nosso estado natural se assemelha a uma torneira sempre aberta que jorra aos borbotões, exceto quando entope”.

Terminou Liberdade no ano seguinte ao suicídio de seu amigo David Foster Wallace (1962-2008), autor de Graça Infinita (1996), grande romance sobre a perplexidade contemporânea. Com seu trágico desaparecimento evaporou também a saudável competição que existia entre ambos. “Depois de sua morte, só ficou a raiva. Trabalhar obsessivamente em Liberdade me pareceu a maneira de mantê-lo vivo”.

Na semana antes da entrevista estreou nos Estados Unidos, incensado pela crítica, o filme The End of the Tour. O filme se baseia no Although of Course You End up Becoming Yourself, reportagem em forma de livro que narra os cinco dias em que o jornalista David Lipsky acompanhou Foster Wallace na parte final de uma viagem para promover Graça Infinita. A encomenda da revista Rolling Stone, que nunca publicou o texto, traduziu-se em 15 horas de entrevista que servem de base para o roteiro do filme. Karen Green, viúva de Foster Wallace, tentou sem sucesso impedir a adaptação para o cinema. “Não li o livro”, diz Franzen. “E não, não penso em ver o filme; não preciso ver um ator disfarçado de David para saber como era meu amigo”.

Nos quatro anos que bastaram a Franzen para completar Pureza, o autor publicou, além do livro sobre Kraus, um volume de ensaios intitulado Farther Away, como a reportagem em que conta a viagem para espalhar as cinzas de Foster Wallace na ilha chilena Alejandro Selkirk, onde Daniel Defoe situou Robinson Crusoe. Também foram os anos da infrutífera incursão televisiva de um admirador da nova narrativa das séries (sua favorita é Breaking Bad e acredita que The Wire naufraga em um excesso de ambição). A rede de TV a cabo HBO comprou os direitos para adaptar As Correções, mas não passaram do episódio piloto. A experiência o deixou “com um gosto ruim na boca”, explica.

Depois, quando o sol começa a cair e a conversa chega a seu fim, Franzen levará o bate-papo para seu terreno: a vigência da ficção literária: “Os romances são fontes de experiências. Quando alguém diz que não gosta de ficção, interpreto que prefere manter as emoções à distância. O público para o qual significo algo envelhecerá comigo e então terá que ver se as pessoas continuarão precisando de romances. Um dia, por falhas na educação ou porque a destruição total da tecnologia terá terminado seu trabalho, a ficção provavelmente deixará de interessar”, acrescenta antes de despedir-se e fechar a porta que separa sua casa da realidade lá fora. Esse lugar cheio de telefones conectados, redes sem fio e cambiantes status do Facebook que há algum tempo conhecemos como o mundo real.

Pureza (ainda sem previsão de publicação no Brasil)