Medicina

Nobel premia tratamentos contra a malária e outros parasitas

William Campbell, Satoshi Omura e Tu Youyou receberam o prêmio de medicina por desenvolverem tratamentos contra doenças parasitárias

O irlandês William Campbell e o japonês Satoshi Omura ganharam o prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina por suas terapias contra doenças parasitárias causadas por vermes. O prêmio também reconheceu o trabalho da chinesa Tu Youyou no desenvolvimento de novos tratamentos contra a malária.

Campbell e Omura compartilham metade do prêmio. A outra metade vai para Tu Youyou, conforme anunciou nesta segunda-feira o Instituto Karolinska, que concede anualmente o prêmio outorgado pela Fundação Nobel.

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O fato de Tu receber metade do prêmio merece destaque. Só 3% dos laureados com prêmios Nobel de ciência são mulheres. Em toda sua história, o Nobel de Fisiologia ou Medicina reconheceu ao todo 207 pessoas. Só 11 delas são mulheres e apenas quatro foram premiadas na última década.

As doenças causadas por parasitas têm sido uma praga para os humanos durante milênios e constituem um grande problema para a saúde global, salienta o Karolinska em um comunicado. Os laureados deste ano fizeram descobertas que “revolucionaram” o tratamento de algumas dessas doenças parasitárias, acrescenta o texto.

Campbell e Omura descobriram a avermectina, cujos derivados reduziram de forma drástica a incidência de filariose linfática (elefantíase) e oncocercose. Tu descobriu a artemisinina, um composto que permitiu salvar a vida de muitos infectados por malária, também uma doença parasitária.

Essas doenças afetam centenas de milhões de pessoas em todo o mundo, especialmente em países pobres. O impacto dos tratamentos desenvolvidos pelo trio de pesquisadores na melhora da saúde global e na redução do sofrimento é simplesmente “incalculável”, segundo o comunicado da Assembleia. Os efeitos antiparasitários dos derivados da avermectina são tão potentes que permitem erradicar tanto a filariose linfática como a oncocercose, diz o Karolinska.

A escolhida de Mao

Como explicou a Assembleia do Nobel, a malária “acompanha a humanidade desde que temos memória”. Na atualidade, a doença continua sendo um dos grandes assassinos de pobres nas regiões mais desfavorecidas do planeta. Essa infecção parasitária transmitida pela picada de vários mosquitos mata mais de meio milhão de pessoas a cada ano.

No final da década de 1960, o Vietnã pediu ajuda à China comunista de Mao. A causa não era tanto a guerra contra os Estados Unidos, mas uma variante da malária que estava arrasando a população, pois o parasita tinha se tornado imune aos tratamentos convencionais com cloroquina ou quinina.

Em plena Revolução Cultural, Tu foi encarregada de dirigir o programa secreto em busca de um novo tratamento contra a malária. A pesquisadora repassou 2.000 receitas antigas de medicina chinesa e preparou 380 extratos de plantas que testou em animais, conforme explicou a própria Tu recentemente à New Scientist. O melhor composto analisado foi a artemisinina, extraída da cocção do absinto chinês (Artemisia annua). Tu foi a primeira voluntária a testar o composto e, depois de comprovar que era seguro, começou a administrá-lo em camponeses infectados. O resto é história, embora não muito conhecida. Em 1977 foi publicado seu primeiro estudo científico descrevendo os bons resultados. Seguindo a tradição comunista, o artigo não era assinado, o que contribuiu para que, até poucos anos atrás, seu nome e sua excepcional descoberta fossem pouco conhecidos mesmo entre os especialistas da área. Atualmente Tu é filiada à Academia Chinesa de Medicina Tradional.

Na atualidade, a artemisinina continua sendo extraída do absinto chinês e, combinada a outros fármacos, permite reduzir em 20% a mortalidade da malária em adultos e em até 30% em crianças, o que significa salvar 100.000 vidas por ano só na África, um dos continentes mais castigados por essa doença.

Se a descoberta de Tu estava em uma planta, a do japonês Satoshi Omura estava no solo. O microbiólogo se concentrou nas streptomyces, um grande grupo de bactérias de que já tinham sido extraídos potentes antibióticos como a estreptomicina. Omura, atualmente professor emérito da Universidade de Kitasato, no Japão, isolou novas bactérias de amostras de terra e entre elas selecionou as 50 variantes mais promissoras. William Campbell, um especialista em parasitas da Universidade Drew (Estados Unidos), tomou as amostras e comprovou a efetividade de vários compostos produzidos pelas bactérias de Omura. Assim se chegou à ivermectina, um derivado da avermectina que aniquila as larvas dos vermes causadores de doenças parasitárias.

O composto revelou-se especialmente útil contra as duas infecções ressaltadas pelo comitê do Nobel, ambas transmitidas pela picada de moscas e mosquitos. A elefantíase afeta o sistema linfático e produz graves deformações em algumas parte do corpo causando dor e incapacitação grave. Existem mais de 120 milhões de pessoas infectadas, 40 milhões estão desfiguradas e incapacitadas pela doença, segundo a Organização Mundial da Saúde. A oncocercose, conhecida como cegueira dos rios por comprometer a visão dos infectados, continua sendo um problema em 31 países tropicais da África, no Iêmen, e em quatro nações da América do Sul, onde ainda existem focos dispersos.

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