Os brasileiros que fizeram de seus problemas um negócio promissor

Alessandra criou app após o câncer e Fernanda passou a fazer brigadeiro após dieta estrita

Alessandra Pontes, sócia-fundadora da Haviso
Alessandra Pontes, sócia-fundadora da HavisoFernando Cavalcanti

Afastada por motivos de saúde de seu trabalho como enfermeira e professora universitária, Alessandra Pontes, que nunca conseguiu ficar sem trabalhar, viu no empreendedorismo uma possibilidade de se manter na ativa. Em tratamento contra um câncer de mama, começou a vivenciar na pele o que viu muitos de seus antigos pacientes enfrentar. Tomar as medicações regularmente e nos horários corretos se tornou rotina indispensável para garantir a melhor resposta possível à quimioterapia. “Muitos dos meus pacientes esqueciam de tomar um de seus milhares de comprimidos diários. Ou, por falta de planejamento, não repunham estoque antes de acabar com as caixas. Isso coloca em risco todo o tratamento, que precisa ser seguido à risca para ter mais chances de sucesso”, lembra.

Ao desabafar com a amiga (e atual sócia) Artemis Romano sobre as dificuldades de administrar todas as medicações diárias, soube que ela também estava passava por uma experiência semelhante com os pais, já idosos. Muitas vezes teve de sair às pressas atrás de farmácias para repor remédios que acabaram, pois eles simplesmente não lembraram de comprar novos a tempo.

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Percebendo que seus problemas pessoais, na verdade, eram iguais aos de muita gente, elas resolveram investir na criação de uma empresa que pudesse resolver a questão. Saíram de Maceió a caminho do Rio de Janeiro para tentar a sorte no Startup Weekend Change Makers, competição de empreendedorismo que já percorreu mais de 120 países. Este ano, a edição brasileira ocorreu em março, na comunidade Pavão-Pavãozinho. No evento, conseguiram reunir um grupo de empreendedores e, em um final de semana, desenvolveram a “Haviso”, uma plataforma que ajuda pacientes a administrar remédios de horários controlados.

“Com base na dosagem e tempo de uso, o aplicativo identifica quando o remédio está para acabar e avisa o paciente com cinco dias de antecedência. O cliente tem a opção de comprar online uma nova caixa, retirá-la na farmácia ou recebê-la em casa. Essa é uma forma de garantir que, quando ele precisar, o remédio estará disponível”, explica Alessandra. Por outra lado, a farmácia pode fidelizar o cliente e controlar melhor os seus estoques, com base em uma expectativa de demanda mais realista”, complementa. Quem adquire o aplicativo, inclusive, é a farmácia. Para o paciente, o acesso deve ser fornecido gratuitamente. Alessandra espera que, eventualmente, governos se interessem pela ferramenta também.

“Mesmo quando o remédio é distribuído de graça pelo Governo, a distância das farmácias conveniadas ou dos postos de saúde faz com que muitos pacientes desistam de retirar as caixas”, destaca. Com a ferramenta, é possível fazer uma gestão mais precisa dos estoques nos postos e nas farmácias populares, suprindo os estabelecimentos conforme a demanda real - e criar mecanismos de acompanhamento dos pacientes, para que eles não interrompam o tratamento.

A última edição da Pesquisa Nacional de Saúde, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2013, aponta que 57,4 milhões de brasileiros sofrem de alguma doença crônica não transmissível, como diabetes, hipertensão, insuficiência renal, câncer e enfermidades cardiovasculares e respiratórias. São doenças que demandam uso de medicamentos controlados e respondem por mais de 70% das causas de morte antes dos 70 anos no Brasil.

Ao se debruçar sobre o próprio problema, Alessandra encontrou uma solução que poderia ajudar milhares de outras pessoas. A ferramenta pode ser utilizada por qualquer um que precise administrar remédios com certa regularidade, como é o caso dos pacientes de doenças crônicas.

Doce salvação

Um problema de saúde também levou a jornalista Fernanda Couto a empreender, a princípio sem querer. Quinze dias após o nascimento de seu filho, Miguel, descobriu que a criança tinha alergia à proteína do leite de vaca. “Tive de mudar toda a minha alimentação, pois tudo o que eu comia chegava ao meu filho pelo leite materno. Infelizmente, não há quase opções no mercado de produtos sem leite”, conta. Amante de brigadeiro, alimento que mais sentia falta depois de dar à luz, Fernanda começou a pesquisar meios de produzir o doce em casa, utilizando matérias-primas orgânicas e livres de leite. Levou um ano para chegar à receita perfeita, à base de um leite condensado de coco que ela mesma inventou.

“Quando meu filho completou um ano, em abril, ele pode comer seu primeiro brigadeiro. Fiz uma festa com 200 deles, de diversos sabores, como chocolate, capim-limão e pistache. Foi um sucesso. Minhas amigas começaram a me pedir encomendas e passei a produzir para vender”, explica. Pouco tempo depois, fechou um contrato para produção de mais de 10 mil brigadeiros para uma padaria especializada em produtos artesanais sem leite e glúten nos Jardins, em São Paulo. Nasceu assim a Formiga Brigaderia sem Leite.“A produção, na cozinha da minha casa, era de mais de 13 mil doces por mês, de doze sabores”, estima. Para fazê-los, Fernanda tinha de escolher os fornecedores a dedo. Visitava um a um para descobrir insumos que eram produzidos “sem traços de contaminação por glúten”.

As vendas, feitas principalmente pelas redes sociais da empresa, ganharão escala com a inauguração da fábrica, esperada para o começo de 2016. “Acabei de fechar parceria com uma sócia, que entrará com investimento para a instalação da fábrica artesanal. Vamos começar com leite condensado de coco, um produto que permitirá aos alérgicos fazerem brigadeiros a um preço mais acessível”, afirma. A ideia é exportar o produto também, em um segundo momento.

Além de eu ter desenvolvido um produto com potencial de exportação, é um doce que pode chegar a públicos diferentes, não só os alérgicos. Fernanda recebe encomendas também de veganos e até de judeus, que seguem uma dieta kosher. “Comecei a produzir brigadeiros porque eu queria voltar a comer o doce que eu adoro. Só depois percebi que a minha invenção estava virando um negócio”, diz. "Nunca imaginei que um dia eu seria empreendedora. Os problemas que surgiram no caminho me fizeram descobrir minha paixão", complementa.