Titica, a cantora transexual de kuduro que é sexy sem ser vulgar

Angolana, que conquista as crianças em seus shows, fala sobre luta contra o preconceito Ela diz que o Brasil é sua segunda casa e se declara a Alcione: "Ela esculacha os bofes"

Titica, em show em São Paulo no último dia 13.
Titica, em show em São Paulo no último dia 13.Fernando Cavalcanti

Em Angola, dançam o kuduro os homens, as mulheres e as crianças. Embora tenha as batidas e as reboladas do funk, o ritmo típico do país africano é democrático: as mulheres não descem até o chão enquanto os homens permanecem passivos, a olhar. Todos participam. Neste clima sexy sem ser vulgar, a cantora transexual Titica, 27, tenta romper diversas barreiras. A do preconceito é a maior delas.

"Eu sou Titica. Aquela que aguenta tudo e não tem medo de nada", apresentou-se a cantora no show realizado no centro de São Paulo em um domingo frio e chuvoso no início de setembro. "Essa é uma forma de eu dizer que estou pronta para o combate", disse ela após o show.

Nascida na periferia de Luanda, de onde vem também o ritmo kuduro, Titica tenta explicar, em palavras, o que faz no palco. "Kuduro é dança, alegria, movimento", diz. "As pessoas criticavam, diziam que o kuduro era música para bandido, para marginal, para drogado. Mas não é. O kuduro é uma forma de as pessoas afogarem suas mágoas, cantando com alegria."

Quando começou a cantar, há  sete anos, Titica não agradava o público. "O pessoal lá em Angola me chamava de rocha, que é aquela pessoa que não faz sucesso", conta. "Eu não tinha peito, era careca. Era um homem gay, na verdade". Ela decidiu então ficar amiga das cantoras angolanas, e assim, dançar nos shows delas. "Mas elas não aceitavam, porque eu não dançava com charme."

Levou algum tempo para que ela se aperfeiçoasse e começasse a fazer shows como dançarina. "Com o tempo, toda vez que as minhas amigas faziam shows, os contratantes exigiam a minha presença também", diz. Com o sucesso como dançarina, voltou a cantar. Hoje, é a dona do hit procura o brinco. "Meu brinco caiu na balada, eu fui procurar e os homens ficavam olhando para a minha bunda. Aí eu pensei: vou fazer uma música com isso". Tente não mexer nenhum ombrinho sequer com as batidas dessa música.

Os dois metros de altura calculadamente acomodados em um jeans preto justíssimo e um top meia-taça se equilibravam em um scarpin rosa durante o show. Dentro do top, um par de seios que ela implantou no Brasil em 2009. "Vim ao Brasil diversas vezes para participar de festas, shows e para operar", conta. As próteses foram colocadas no Brasil, mas ela não passou pela cirurgia de redesignação de gênero. "Aqui é a minha segunda casa", diz. Ela afirma gostar de vários cantores brasileiros, como Alexandre Pires e Belo. "E me inspiro muito na Alcione. Ela esculacha bem os bofes, e eu gosto disso", conta, rindo.

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Mas a realidade de Titica é um pouco mais dura do que suas piadas. "É difícil ser transexual em Angola", conta, no camarim improvisado montado para receber alguns dos shows do Mês da Cultura Independente, promovido pela secretaria de Cultura da cidade de São Paulo. "Lá não tem leis para transexuais". No meio da entrevista, ela sai para receber as crianças que estavam do lado de fora do camarim gritando seu nome. "Titica, cadê você? Eu vim aqui só pra te ver". Ela tira fotos, dá autógrafos e distribui CDs. E volta feliz.

"Eu gosto de ser sexy no palco, mas eu tenho todo o cuidado. E cuido também do palavreado para não machucar as crianças. Eles são meus anjos protetores". Ela diz que é por meio das crianças que consegue conquistar o respeito dos adultos. "As crianças gostam de mim e contam para os pais, os avós. E aí os adultos passam a me respeitar também".

Movimento por ativistas presos

Hoje, Titica consegue sobreviver como cantora. Mas não conhece outras transexuais em seu país na mesma condição. Ela afirma que o Governo do presidente José Eduardo Santos, no cargo desde 1979, não é "contra e nem a favor" do seu trabalho. "Dou entrevistas a todos os jornais e revistas de Angola. Algumas casas de show gostam de mim, outras não. E apenas um canal de TV não fala comigo. O resto, é normal", diz.  

Desde o dia 20 de junho, 15 ativistas do Movimento de Jovens Revolucionários Angolanos (MJRA) estão presos em Luanda, suspeitos de "preparar um golpe contra o Estado". No final de julho, um grupo de artistas de língua lusófona, entre eles, os escritores Mia Couto (Moçambique), José Eduardo Agualusa (Angola) e Lourenço Mutarelli (Brasil), o cantor brasileiro Chico César e a viúva do escritor José Saramago, Pilar del Río, se uniram a ativistas angolanos em três vídeos pedindo a libertação dos 15 detidos.

O assessor de Titica disse que os movimentos que pedem a libertação dos presos políticos são muito mais de fora do país. De dentro, poucas pessoas falam sobre isso, com medo de serem detidas também.Titica afirma que nunca foi censurada. Não pelo Governo. "Já fui apedrejada e espancada na rua. As minhas amigas é que me defendiam".