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Petrobras é rebaixada e dólar sobe, os primeiros efeitos da decisão da S&P

Após Brasil perder grau de investimento, estatal também perde seu selo de bom pagador

Agência cortou notas de mais 30 empresas, entre elas Globo

Fachada da sede da Petrobras no Rio de Janeiro.
Fachada da sede da Petrobras no Rio de Janeiro.

Os primeiros efeitos do rebaixamento da nota de crédito do Brasil pela agência de classificação de risco Standard & Poor’s já foram percebidos nesta quinta-feira. O mercado foi o primeiro a reagir à retirada do grau de investimento do país, que perdeu o selo de bom pagador. O dólar comercial abriu em forte alta chegando a superar os 3,90 reais e fechou o dia cotado a 3,85. A Bolsa de Valores de São Paulo também fechou em queda. No fim da tarde, os desdobramentos aumentaram. A Standard & Poor's rebaixou o rating da Petrobras em dois níveis, retirando também o grau de investimento da petroleira. A agência anunciou ainda o corte das notas de mais 30 empresas brasileiras, 24 delas perderam o selo de bom pagador.

O rating da Petrobras foi rebaixado de BBB – para BB, em escala global. A mudança significa que a estatal não é considerada uma boa pagadora e tem mais riscos de calotes, o que dificulta ainda mais a situação da petroleira envolvida no escândalo da Operação Lava Jato. Com o rebaixamento, o acesso a financiamentos ficará ainda mais difícil. A agência Moody’s também já havia retirado o grau de investimento da Petrobras em fevereiro.

Na ausência do selo de bom pagador, o Brasil e essas empresas ficarão cada vez mais sujeitos ao humor dos investidores, que devem buscar países mais seguros para investir. “Hoje ficou claro, com a disparada do dólar, os efeitos que vamos sentir. Os investimentos devem sair do país, teremos menos demanda pelo real, o que fará a moeda desvalorizar. É bem provável que o dólar chegue a 4,10 reais até o ano que vem”, explica o economista Patrick Behr, da FGV. O especialista explica ainda que esse processo de desvalorização deve acelerar ainda mais caso os Estados Unidos confirmem um aumento na taxa de juros no país.

O custo de captação de investimentos das empresas deve ser uma das consequências mais visíveis, na opinião de Reginaldo Nogueira, doutor em economia e professor do Ibmec. “A grande maioria das empresas brasileiras não consegue ter um rating superior a da nota do país, o que significa que quase todas terão dificuldade de financiamento e de captação. Isso fará que o investimento privado que já é baixo se mantenha ainda mais baixo por um bom tempo”, afirma.

Nogueira ressalta ainda que os próprios custos de financiamento do Governo irão aumentar, dificultando ainda mais o equilíbrio fiscal buscado pela equipe econômica e a retomada do crescimento que devolveria a credibilidade do país. “O Banco Central também vai ter agora mais dificuldade de reduzir a taxa de juros. Ela terá que ser mantida em um patamar alto por mais tempo, retardando o consumo e mantendo essa situação de recessão por mais tempo.”

Na tarde desta quinta-feira Roberto Sifon-Arevalo, analista da S&P, explicou que a avaliação da agência leva em consideração a perspectiva futura da situação. Segundo ele, em 2008, quando o Brasil ganhou o selo de bom pagador da agência, alguns indicadores necessários não foram observados, mas que havia confiança de que seriam alcançados. “É importante dizer que o mesmo que valia em 2008 vale agora. O que olhamos é o plano”, afirmou em teleconferência.

Perda antecipada

Para Nogueira, foi a mudança constante de planos e a desorganização que dinamitaram a credibilidade do país. “Primeiro começaram com um plano ambicioso de ajuste, logo reduziram drasticamente a meta deste ajuste e para finalizar mandaram uma proposta de Orçamento para o próximo ano com um déficit de 30 bilhões de reais, foi a pá de cal”, explica.

Ainda segundo o especialista, o rebaixamento era esperado e já estava de certa forma precificado no mercado, mas a surpresa foi o fato dele acontecer em setembro. “O governo queimou a credibilidade em apenas 9 meses. Esperávamos esta perda de grau de investimento apenas em 2016, o Governo resolveu lavar as mãos e se queimou”, afirma.

A S&P foi a primeira, entre as maiores, a tirar o grau de investimento do Brasil. Na Moody´s, o país está no último degrau, antes do grau especulativo. Na Fitch, o Brasil segue dois degraus acima.

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