crise política

Um PSDB hesitante quer usar crise do Governo e PT para filiar militantes

Sigla lança campanha de filiação e até Alckmin subiu o tom ao chamar petistas de "praga"

Aécio Neves durante a campanha do PSDB de filiação.
Aécio Neves durante a campanha do PSDB de filiação.DIVULGAÇÃO

O empresário do ramo da construção civil Mário Marroquin, 48, tomou uma decisão no dia 14 de agosto. “Eu só vejo duas saídas para mim: ou eu vendo tudo e saio do país, ou eu luto por ele. E optei por lutar por ele”, afirma o morador de Maceió. O caminho encontrado foi se filiar ao PSDB, o maior partido de oposição do país. Desde o início do mês os diretórios estaduais e municipais da legenda começaram uma campanha para aumentar o número de filiados. O senador Aécio Neves (PSDB-MG), um dos expoentes do partido, esteve na capital alagoana para participar do lançamento da iniciativa.

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A ideia, além de preparar o terreno para as eleições municipais de 2016, é aproveitar o péssimo momento do Governo de Dilma Rousseff e do PT para capitalizar para o partido. Recentemente o PSDB foi alvo de críticas de alguns medalhões tucanos, que afirmam que a legenda não estava conseguindo ganhar músculo com a crise petista devido às suas lutas internas. Nomes da sigla vem oscilando sobre que rumos tomar: hora mais incisivo e pró-impeachment, ora tentando conter os ânimos dos integrantes mais radicais, hoje na Câmara. Até Fernando Henrique Cardoso, que cogitou a renúncia de Dilma como "ato de grandeza" há algumas semanas, agora diz ter sido mal interpretado. Para contornar a situação, a palavra de ordem entre os líderes da legenda agora é "convergência", mas a mensagem ainda é difícil num meio com tantas intenções políticas conflitantes e dúvidas sobre a identidade do partido, se social-democrata, como nas origens, ou mais à direita e antipetista, em sintonia com os manifestantes anti-Dilma.

Durante cerimônia de filiação do governador do Mato Grosso, Pedro Taques, à legenda, neste sábado, até o então ponderado Geraldo Alckmin, o governador de São Paulo cotado para disputar a vaga de  candidato a presidente em 2018 contra o senador Aécio Neves e José Serra, mostrou um discurso mais alinhado com os antipetistas. Surpreendeu dizendo que era preciso se livrar da "praga" do PT. Foi o discurso mais duro do governador paulista contra o Governo desde o início da crise.

Aécio Neves, livre de cargos no Executivo e, portanto, e não dependente de repasses federais como Alckmin, busca emplacar crítica mais incisiva. A desta segunda foi sobre o Orçamento de 2016, com deficit: "Hoje, nós estamos assistindo a um definitivo atestado de incompetência desse governo que, ao gastar de forma perdulária, irresponsável, para vencer as eleições, não consegue agora fazer o que é essencial", disse o senador, em evento do diretório estadual do PSDB em Belo Horizonte.

A saída de Taques do PDT - partido que deixou a base do Governo mas não age como oposicionista - deu ao PSDB seu sexto governador. Com a proximidade do pleito municipal de 2016, o partido de Dilma têm perdido vários prefeitos de São Paulo para o PSB, o que motiva ainda mais a ofensiva do PSDB. O vice-governador do Estado, Márcio França, tem agido nos bastidores para desidratar o PT no Estado.

O partido ainda não divulgou um balanço com o número de novos filiados à legenda, mas os políticos estão otimistas com os resultados. “Esse ano houve uma procura grande com relação ao PSDB, tem havido uma adesão maior”, afirma o deputado federal Silvio Torres (PSDB-SP), secretario geral nacional tucano. Ele é um dos responsáveis por coordenar a campanha, e afirma que a escolha de um Estado do Nordeste para iniciar as atividades de filiação não foi aleatória. “É uma área onde queremos crescer mais, é nosso objetivo. Queremos ampliar a votação lá onde Dilma teve milhões de votos de vantagem”, explica.

O cenário de crise, segundo Torres, estimula a militância política. “As pessoas vão para as ruas, participam pelas redes, e muito se sentem motivados pare entrar em partidos”, diz. Para ele, se por um lado os escândalos como a Lava Jato provocam desencanto com a política, por outro “há uma adesão grande à vida política. O PSDB vive um bom momento, está sendo visto como uma alternativa mais viável”.

Sem militância e vácuo de poder

A socióloga Fátima Pacheco Jordão acredita que a campanha busca sanar uma deficiência do partido. “O PSDB, ao contrário do PT, não tem grande penetração na sociedade, não tem um corpo de filiados muito grande, nunca teve”, afirma. Segundo ela, “é um partido de lideranças, caciques e não bases”. Soma-se a isso, de acordo com a professora, uma queda do PT nas pesquisas. “Esses elementos todos criaram condições para que o partido procurasse arregimentar filiados dentro de um perfil mais amplo”, explica, citando também as deserções de petistas para outros partidos.

Segundo o Datafolha, em 2013 o PT era o preferido por 29% dos eleitores, um recorde. Agora, apenas 9% citam a sigla. Já o PSDB se manteve na média histórica de 6% de preferência, mas tem crescido na identificação dos eleitores: superou o PT em voto de legenda para a Câmara pela primeira vez no ano passado. Para piorar para os petistas, levantamento Ibope divulgado nesta semana mostra que o ex-presidente Lula, virtual candidato petista em 2018, seria derrotado pelo trio de ferro tucano: Aécio, Geraldo Alckmin e José Serra.

"É óbvio que isso [a última pesquisa Ibope] é um reflexo do momento, não pode ser projetado para as próximas eleições presidenciais", afirma a socióloga. O deputado federal Marcus Pestana (PSDB-MG), um dos mais próximos de Aécio Neves, concorda: “O momento é favorável para nós, o destino está sorrindo para o PSDB”, afirma. Ele cita a crise econômica, a Lava Jato e a sensação de que “houve estelionato eleitoral” por parte da presidenta para justificar a afirmação. Mas faz uma ressalva: “Não há um decreto celestial garantindo que na próxima eleição, seja quando for, o PSDB será o estuário das esperanças. O partido tem que fortalecer suas estruturas, sofisticar e inovar seus métodos”. Segundo o parlamentar, “se o PSDB não ocupar este espaço, outros ocuparão”.