A família invisível da BMW

Morte da matriarca do poderoso clã alemão deixa a empresa nas mãos de seus filhos

Johanna Quandt, ao centro, ladeada por seus filhos, Stefan e Susanne, em agosto de 2009.
Johanna Quandt, ao centro, ladeada por seus filhos, Stefan e Susanne, em agosto de 2009.FRANK RUMPENHORST (AFP-Getty Images)

Até o dia de sua morte, ocorrida no dia 3 de agosto, Johanna Quandt gozava do raro privilégio de ser a matriarca da família mais rica da Alemanha, um pequeno clã integrado por ela e seus filhos, Stefan e Susanne, detentor de uma fortuna estimada em 31 bilhões de euros (120 bilhões de reais) pela revista Manager Magazin. Mas a maior riqueza da “grande dama da BMW”, como Johanna Quandt foi apelidada pela imprensa alemã, era uma virtude que ela cultivou durante toda a vida: transformar os donos de 46,7% das ações da empresa automobilística numa família quase invisível, distante do espalhafato mundano dos ricos e defensora ao extremo de um bem que não pode ser medido em dinheiro: a privacidade.

Quando a Manager Magazin publicou seu levantamento anual sobre as 500 maiores fortunas da Alemanha, no final de 2014, não surpreendeu ninguém que os Quandt estivessem no primeiro lugar da lista. “Tornaram-se um exemplo para outros clãs. Qual é seu segredo?”, perguntava a revista numa longa reportagem intitulada “Uma poderosa união”. A resposta para aquela pergunta foi resumida em uma frase: “A discrição está para a vida dos Quandt assim como a fanfarronice está para a dos oligarcas russos”.

Uma história nunca desmentida conta que a balconista de um mercado perguntou a Johanna, depois que ela pagou a conta: “A senhora é a sra. Quandt?”. “Queria ser”, respondeu a chefe do clã mais rico do país, mostrando uma discrição que com o tempo se tornou a marca da família, traço que manteve a matriarca e seus filhos longe dos holofotes.

Cem anos de história

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Mesmo assim, a saga da família e da ampla rede de investimentos de suas empresas é quase tão emocionante quanto um bom livro de suspense. A lenda começou a ser escrita há mais de cem anos, quando Emil Quandt fundou, em 1883, uma tecelagem em Pritzwalk, cidadezinha em Brandeburgo, não muito longe de Berlim.

Em 1890, o empresário obteve um contrato de exclusividade no fornecimento de tecido para confeccionar os uniformes do exército imperial da Prússia. Seu filho Günther Quandt, nascido em 1881, encarregou-se de construir os alicerces que transformariam a empresa familiar num poderoso conglomerado industrial que englobava o setor têxtil, usinas de geração de energia e uma grande fábrica de baterias, que foram usadas pela marinha de Hitler para acionar motores de submarinos.

A relação de Günther Quandt com a ditadura nazista, o capítulo mais sombrio da saga, foi mostrado ao público em 2011, quando o historiador Joachim Scholtyseck publicou uma análise sobre a família de mais de 800 páginas com o título A Ascensão dos Quandt: uma Dinastia Empresarial Alemã. A família tinha decidido divulgar o passado nazista dos Quandt e franqueou seu arquivo privado ao historiador. “Günther Quandt foi um oportunista inteligente, e os Quandt foram parte do regime”, declarou o historiador ao apresentar à imprensa seu livro.

De fato, Günther, além de ser parte do regime, enriqueceu com a ditadura. Utilizou milhares de trabalhadores escravos em suas fábricas e se apropriou de indústrias que pertenciam a empresários judeus, graças à infame lei de arianização. Depois do fim da guerra, as potências aliadas não perseguiram o patriarca –ao contrário de outros oligarcas, Quandt não foi considerado um nazista, e sim um “companheiro de viagem” do regime- e, quando morreu, em 1954, seus dois filhos, Harald e Herbert, herdaram mais de 200 empresas.

Foi o começo da escalada meteórica de Herbert Quandt, que teve uma visão genial em 1959. A BMW, a ponto de quebrar, estava a um passo de passar para o controle da Daimler Benz. O empresário, dono de um grande pacote de ações da empresa automobilística bávara, no lugar de seguir o conselho de seus assessores –que recomendaram a venda das ações— decidiu injetar grande parte de sua fortuna na firma, decisão que marcou o início da espetacular subida da BMW.

Os herdeiros

Quando Herbert morreu, em 1972, sua viúva, Johanna, e seus filhos, Stefan e Susanne, herdaram um império que provoca inveja em seu país. Johanna recebeu 16,7% das ações da BMW, Stefan, 17,4%, e Susanne, 12,6%, além de participação em várias empresas. A recente morte da matriarca transformou seus filhos nos maiores acionistas da firma bávara.

Susanne, que usa o sobrenome de seu marido, Jan Klatten, ostenta agora o título de mulher mais rica do país. Nascida em 1962, herdou uma grande habilidade para os negócios, e logo começou a ver sua fortuna crescer. Aos 19 anos já era dona da empresa farmacêutica Altana, que ajudou a fazer crescer até deixá-la entre as 30 principais firmas do país. Em 2013 assumiu a presidência do conselho da SGL Carbon, empresa chave no futuro da indústria automobilística – produz fibra de carbono, material usado em vários modelos da BMW.

Assim como sua mãe, Susanne Klatten defende ferozmente sua privacidade. Só que cometeu um erro que deixou marcas em sua vida privada e mostrou que ninguém está a salvo da imprudência. Há sete anos não resistiu aos encantos de um vigarista suíço, que tentou extorquir-lhe 200 milhões de reais. O amante secreto tinha filmado seus encontros amorosos, e depois de conseguir perto de 30 milhões de reais em dinheiro vivo ameaçou divulgar os vídeos à imprensa se não recebesse mais 160 milhões de reais. A mulher tomou coragem e denunciou à polícia a extorsão.

O escândalo já foi esquecido, e Kletten se tornou uma bem-sucedida empresária, que, junto com seu irmão, continua a multiplicar a riqueza familiar como no milagre bíblico. Só que, diferentemente de seu avô Günther Quandt, que enriqueceu graças aos favores recebidos do regime nazista, a neta contribui para vários projetos beneficentes e voltou a cultivar o bem mais valorizado pela família: a privacidade.

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