Estados Unidos

Criminalidade aumenta em cidades dos Estados Unidos

Causa estaria ligada à proliferação de armas e drogas e a maior controle da ação da polícia

Um policial na cena de um crime em Houston, em 9 de agosto.
Um policial na cena de um crime em Houston, em 9 de agosto.AP

O aumento da criminalidade nas grandes cidades dos Estados Unidos preocupa a polícia. A onda de mortes violentas desde o início deste ano freia a tendência de queda registrada nos últimos 25 anos. As autoridades não encontram uma explicação. Citam, como possíveis razões, a proliferação de armas de fogo e das drogas e maiores limites à ação policial, devido ao impacto do caso Ferguson.

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A morte há um ano de Michael Brown nessa cidade, um jovem negro desarmado que foi baleado por um policial branco, levou a um debate nacional sobre o tratamento das forças de segurança em relação aos afro-americanos. A confiança na polícia dos EUA caiu em junho para o nível mais baixo desde 1993, de acordo com uma pesquisa Gallup.

Os números são preocupantes. Em Milwaukee, o total de mortes violentas no primeiro semestre deste ano dobrou em relação ao mesmo período de 2014. Em St. Louis, o aumento foi de 60%; em Nova Orleans, 30%; e, em Nova York, alta foi de 11%, de acordo com dados compilados pela revista The Economist.

As cifras estão longe dos números da onda de violência no final dos anos oitenta nos EUA. Entre 1990 e 2012, o total de mortes violentas caiu 45%

Em Baltimore, houve 45 crimes fatais em julho, o mês mais violento na cidade desde 1972, quando a população era quase o dobro. Em Washington, até o último domingo, a taxa de homicídios tinha aumentado em 29% em comparação com 2014, e o mais preocupante é que não se restringem a uma área ou bairro da capital norte-americana.

Algumas dessas cidades carregam um legado de tensão racial e alta criminalidade que parecia ter sido controlado. Washington era um modelo de sucesso de abordagem da polícia em relação aos cidadãos. St. Louis — cuja área metropolitana abriga Ferguson — e Baltimore foram palco de protestos no último ano depois das mortes de jovens negros desarmados nas mãos da polícia. Em Baltimore, existem indícios de que a morte de Freddie Gray em maio, devido a uma lesão cervical depois de ser preso, resultou em uma maior cautela por parte da polícia: o número de detenções despencou desde então.

A paisagem não é uniforme. Outras grandes cidades, incluindo Los Angeles, Phoenix e San Diego, registraram queda da criminalidade no primeiro semestre de 2015. É cedo para avaliar se o problema é nacional ou local. Os números estão longe das cifras durante a onda de violência do final dos anos oitenta nos EUA, causada pelo surgimento do crack. Entre 1990 e 2012, o total de mortes violentas caiu 45% no país, de acordo com dados da Brookings Institution. Ainda assim, entre as nações desenvolvidas, em 2013 os EUA eram o quarto país com o maior índice (3,82) de homicídios por 100.000 pessoas, segundo a ONU.

Após o aumento da criminalidade na década de oitenta, o mantra da lei e ordem ganhou força com uma ação mais rígida em relação aos criminosos, o que fez a população carcerária disparar. Essa abordagem tem sido questionada há alguns anos, devido às consequências destrutivas dos núcleos familiares. Não há um consenso claro sobre o que levou à queda da criminalidade. Entre as causas estariam desde o impacto da imigração, o envelhecimento da população, até uma mescla socioeconômica e racial mais heterogênea nas cidades.

Também ainda não há consenso para explicar as raízes da ascensão do crime. Em uma cúpula de chefes de polícia das grandes cidades, realizada no início de agosto em Washington, não se chegou a nenhuma conclusão concreta, apenas a recomendação de um maior controle sobre a venda de armas de fogo e drogas.

Eugene O'Donnell, professor da Escola de Justiça Criminal John Jay, de Nova York, atribui o aumento da criminalidade a três possíveis causas: a proliferação de armas nos EUA (há 270 milhões de uso privado em um país com 321 milhões de habitantes ); a presença de "jovens muito alienados" que buscam uma forma de reconhecimento social na violência; e um maior controle das práticas policiais, sob o impacto do caso Ferguson e a repetição de casos semelhantes.

Das três causas, a última, diz o professor, é a única novidade em relação aos anos anteriores. "Existe a sensação agora de que a polícia tem de ser extremamente cautelosa, porque corre o risco de ser severamente criticada se algo acabar mal, mesmo não tendo feito nada de errado", disse O'Donnell em uma entrevista por telefone. "Pode haver uma certa sensação de que a polícia tem menos controle das ruas, que abriu espaço para os criminosos."

Essa possibilidade, acrescenta, é apoiada pelo fato de que alguns dos crimes nas cidades afetadas destacam-se por sua crueldade. O'Donnell alerta que "há sinais preocupantes", mas argumenta que é cedo para saber se o aumento da criminalidade é temporário ou uma tendência de longo prazo.

Não há dúvidas de que, desde o caso Ferguson em agosto de 2014, os métodos policiais são objeto de maior controle da opinião pública, políticos e promotores. Os sindicatos da polícia confirmam a mudança. Uma pesquisa divulgada em junho pela polícia de Nova York revelou que quase metade dos agentes tem um sentimento negativo sobre seu trabalho por receio da opinião pública, e que 85% deles temem ser muito proativos nas ruas diante de possíveis queixas.

A tensão entre a polícia e o prefeito da cidade aumentou depois da morte de dois policiais baleados por um civil, no final do ano passado. Em Ferguson, os agentes de polícia exigem o mesmo rigor para apurar as mortes de agentes.

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