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Embate político faz mercado calcular as chances de impeachment

Os novos desdobramentos da crise entre o Governo e o Congresso fizeram algumas empresas de análise aumentarm o risco da presidenta não conseguir terminar mandato

Presidenta Dilma Rousseff.
Presidenta Dilma Rousseff. AP

Diante de mais um round na batalha política entre o Governo e o Congresso na semana que passou, algumas consultorias econômicas começam a elevar a possibilidade de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Ainda que não haja um risco imediato, as chances para alguns analistas já chegam a 40% e a tendência é aumentar. "Esse clima de incerteza só piora a preocupação sobre a execução do ajuste fiscal e geram preocupações para os investidores, que reduzem as posições em ativos", afirma Carlos Barenstein da consultoria Arko Advice. Ele avalia que o risco de um impeachment já chega a 40%.

Na madrugada da última quinta-feira, a Câmara dos Deputados votou a favor de um aumento de salário de algumas categorias de servidores, apesar das tentativas do Planalto de convencê-los do contrário. O Governo foi derrotado inclusive pelos deputados petistas, que engrossaram o placar de 445 a 16, deixando a sensação de que o país está à deriva diante dos deputados que aprovaram um aumento de gastos públicos em meio à crise.

No dia seguinte, empresários, por meio das federações das indústrias de São Paulo e do Rio (Fiesp e Firjan), decidiram se manifestar, usando como gancho o alerta do vice-presidente Michel Temer, que pouco antes da fatídica votação havia pedido que alguém assumisse o compromisso de unir o país para evitar o agravamento da crise. “O momento é de responsabilidade, diálogo e ação para preservar a estabilidade institucional do Brasil”, dizia a nota assinada pelas duas federações, afirmando que o Brasil não pode se permitir mais irresponsabilidades fiscais. “É hora de colocar de lado ambições pessoais ou partidárias e mirar o interesse maior do Brasil”, continuava a nota, cobrando dos representantes políticos eleitos a defesa de pleitos legítimos.

Os inimigos do Governo, porém, argumentam que essa estabilidade só viria com a saída da presidenta. O assunto fez a presidenta Dilma se manifestar nesta sexta, durante cerimônia em Boa Vista, e dizer “que ninguém vai tirar a legitimidade que o voto me deu”. A pressão dos últimos dias é que tem feito as consultorias projetarem cálculos sobre as chances reais de uma saída da presidenta. Segundo Maria Cristina de Barros, da consultoria MB Associados, o risco de impeachment imediato ainda é baixo, mas aumenta diante do cenário de crise político-econômica. "A questão é que as agendas pessoais de pemedebistas importantes como Eduardo Cunha e Renan Calheiros se sobrepõem e cresce a possibilidade de Cunha 'tocar fogo no Congresso', via pauta-bomba", diz Barros, citando a lista de projetos que oneram os cofres públicos em tempos de ajuste fiscal.

Em relatório divulgado nesta sexta, a consultoria de risco político Eurásia optou por manter a perspectiva de 30% de chance da presidenta não terminar o seu mandato, por ainda não ver um caminho claro para um impeachment. No entanto, a consultoria ressaltou que não vê uma solução rápida nem fácil para a crise política.

Há quem acredite que o caminho mais natural seria um pedido de renúncia da presidenta. "Um processo de impeachment não acalmaria o mercado, é um processo muito doloroso. O momento é tão tsunâmico que o melhor seria Dilma dizer que não pode seguir. Não seria uma decisão tomada porque ela não quer mais governar, mas porque ela já não tem condições", afirma Luis Paulo Rosemberg, da Rosemberg Associados. Ele admite que a economia acabou sendo escolhida pela oposição como alvo para atacar a presidenta prejudicando ainda mais a retomada do crescimento do país.

Enquanto isso, o clima de instabilidade contamina o mercado financeiro com a oscilação do câmbio. "As reações são várias. Na Bolsa, eles já estão saindo, e o movimento do dólar (que chegou a ser cotado a 3,53 reais, nesta quinta-feira) mostra a sinalização de desconforto do investidor. As empresas multinacionais observam oportunidades de aquisição pensando apenas no médio prazo, a partir de 2017", explica Barros, da MB.

Em entrevista ao jornal O Globo, o presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, lembrou que o Brasil ainda é um dos três destinos preferidos pelos investidores, citando uma pesquisa da KPMG sobre o assunto. Trabuco também abordou a necessidade de um ambiente sereno, lembrando que os problemas econômicos se resolvem pois são o resultado da matemática de certas variáveis que podem ser consertadas. “Mas os problemas políticos não. Eles são de ideias, de ideologia, de postura. É uma energia para provocar calor, e hoje o país precisa de energia para provocar luz.”

Além das pautas-bombas, o Governo ainda terá que enfrentar, nos próximos dias, a avaliação do (TCU) Tribunal de Contas da União da defesa de Dilma no caso das chamadas "pedaladas fiscais", as manifestações do dia 16 de agosto e o resultado da análise feita pelo TSE das contas de campanha da presidenta. "Nenhum desses três eventos tem força para sustentar um impeachment, porém a combinação de pelo menos dois deles aumenta bastante o risco", diz Barenstein.

A aprovação da prestação de contas dos ex-presidentes Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, na tarde desta quinta-feira, também sinalizou um movimento claro para votar de modo acelerado as contas de 2014 de Dilma. "É uma movimentação política clara para abrir novamente o tema e encontrar algum fator legítimo para o pedido de impeachment", lembra o economista da Tendências, Rafael Cortez.

A instabilidade política também ajuda a contribuir para a perda de grau de investimento. Segundo a MB Associados, o Brasil deve perder o selo de bom pagador no primeiro semestre do próximo ano. A expectativa é que nas próximas semanas, Moody´s e Fitch devem rebaixar a nota na categoria de grau de investimento e ficar na mesma situação da de último degrau nesta escala, assim como a S&P fez no último mês. As notas das agências internacionais de risco influenciam ainda mais nas decisões de investimentos estrangeiros no país, que já estão comprometidas com o cenário de incerteza atual.

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