Esse é o homem mais em forma do mundo

Ele acaba de ganhar os ‘jogos olímpicos do crossfit’, com provas extremas. Encontramos com ele em Los Angeles, onde os atletas são semideuses

Ben Smith, ganhador do Reebok Crossfit Games 2015.
Ben Smith, ganhador do Reebok Crossfit Games 2015.progenexusa.com

Ben Smith come todos os dias no café da manhã quatro peças de bacon e cinco ovos mexidos. Algum pedaço de bacon sempre acaba na boca de seu cachorro, que espera babando nos pés do dono até que caia sua saborosa recompensa. Para almoçar, esse homem musculoso se derrete por guacamole com carne. No jantar, degusta “um bom entrecot”. Ainda que pareça o contrário por esse menu contundente, Smith se cuida. E muito. “É inevitável quando você entrega o controle da sua vida ao crossfit”, afirma esse jovem norte-americano, de 25 anos, que acaba de ser proclamado o “homem mais em forma do mundo”, como são designados aqueles que alcançam a sofrida vitória nos Reebok Crossfit Games, os jogos olímpicos de uma modalidade esportiva que causa furor extremo nos EUA e se espalhou para muitos países da Europa, especialmente a Espanha, e também para o Brasil.

Quando se entra em um nível de competição alto é preciso muito apoio. Isso também afeta as pessoas que te cercam. É um estilo de vida muito egoísta. Tudo se centra em você. Minha mulher teve que fazer muito da parte dela para suportar aquela etapa”, diz Chris Spealler, lenda do ‘crossfit’

Antes de continuar com o campeão é preciso definir o que é o crossfit. Sem entrar em detalhes, pode se dizer que é uma combinação de exercícios físicos variados muito exigentes executados em alta intensidade: ginástica, halterofilismo, corrida, natação… Smith fala do crossfit com uma devoção sem hipocrisia. Estamos quase que diante de uma religião. “Para praticar, a família é tão importante ou até mais que a alimentação: quanto mais abundante e sem hidratos de carbono, melhor. Sem trabalho em equipe não existe resultado. É uma das primeiras normas que você precisa memorizar quando entrega ao crossfit a hegemonia do seu corpo”, acrescentou ao crossfit.com Smith, que treina sempre com seu irmão Ben, seu primo Brock e o amigo Ryan.

Todos moram em Chesapeake, que com 230.000 habitantes (62% deles brancos) é uma das maiores cidades da Virginia. Chesapeake é um lugar peculiar. Graças a sua baía, tem um microclima quase tropical invejável na região, caracterizada por invernos rigorosos. Faz parte da Virginia, esse Estado onde fica a sede da CIA (a agência de inteligência dos Estados Unidos) e onde acontece parte da popular série Homeland. Na série, o militar Nick Brody não pratica crossfit, mas bem que poderia, uma vez que seu perfil se encaixa bem com o de Smith e seus colegas: rapazes brancos, musculosos e de família. Todos (exceto Brody) treinam em uma garagem que Ben montou em sua própria casa.

Foto do Reebok Crossfit Games 2015.
Foto do Reebok Crossfit Games 2015.

O que ele fez foi construir um box, como se chamam as academias de crossfit. Treina cinco dias por semana, cerca de três horas a cada jornada. Smith conta de onde vem a obsessão por estar em forma: “Na minha família sempre praticamos esporte. Meu irmão do meio fazia musculação, e meu irmão mais novo e eu jogávamos beisebol. Sempre fomos muito competitivos com tudo. Nós gostamos de nos superar no que fazemos, seja o que for. É um pouco a nossa forma de nos divertir”. Até sua mãe faz parte desse estilo de vida que transforma tudo. “Quando parou de jogar beisebol chegou em casa e essa foi a primeira vez que falou do crossfit. Me mostrou um vídeo no computador e disse que ia ganhar essa competição. Desde então, ele me treina e me ensina as posturas que tenho que fazer para não me machucar com o peso”, contou sua mãe. Quando se acessa o Twitter do homem mais em forma do mundo a primeira coisa que se encontra é a foto de seu casamento. Noelle Rodgers, companheira de Ben desde a faculdade e sua atual mulher, compartilha a aspiração de seu marido desde as aulas e os intervalos.

Ben Smith no dia de seu casamento, com Noelle Rodgers. Essa é a foto de seu perfil de Twitter.
Ben Smith no dia de seu casamento, com Noelle Rodgers. Essa é a foto de seu perfil de Twitter.

“Conheço Ben antes de ele conhecer o crossfit. Ele descobriu na faculdade e ficou absolutamente deslumbrado. Desde então vivemos em uma espécie de comunidade. É como uma família… Vejo que ele fica tão bem nesse ambiente de comunidade que isso também me faz feliz. Sempre tentamos pensar primeiro no que é que ele precisa. Tudo esta concentrado nele. Seus irmãos, amigos e eu estamos com ele para o que for preciso: comida, descanso, tranquilidade”, disse a esposa devota do campeão. Todos esses mimos deram frutos: depois de participar sete vezes dos Reebok Crossfit Games, na oitava ocasião ele conquistou o grande prêmio.

Tudo aconteceu em Los Angeles, no estádio StubHub Center, em Carson, de 21 a 26 de julho, onde foram realizados os Reebok Crossfit Games, que determinam o homem e a mulher melhor preparados fisicamente do planeta. Lá, 20.000 pessoas compareceram a cada jornada para ver as provas. Como funciona essa competição? Dave Castro, um dos chefes da empresa Crossfit, é o responsável por projetar e anunciar horas antes do início das provas no que vão consistir os exercícios para se chegar ao título.

Ben Smith, depois de ganhar uma prova no último Reebok Crossfit Games.
Ben Smith, depois de ganhar uma prova no último Reebok Crossfit Games.

Até o próprio dia da competição nenhum atleta sabe o que terá de enfrentar. Nessa edição dos Reebok Crossfit Games, os atletas tiveram que sortear os exercícios extremos. Como o middle madness (meia loucura): correr 400 metros, levantar pesos de 135 kg e correr novamente, e assim por seis rodadas sem descanso. Ou como os 100 metros de pig flip (virar o porco): uma corrida de 100 metros levantando e abaixando um peso de 250 kg (180 kg para as mulheres). São exercícios que buscam levar o corpo ao limite, como agachamentos (em séries de 500 repetições), escalada de corda sem a ajuda das pernas (até quatro repetições consecutivas) e abdominais até o esgotamento. Provas, como se pode ver, que só podem ser enfrentadas por atletas altamente qualificados.

Ben Smith (à esq.), preparando o café da manhã com seu irmão e um amigo, em sua casa de Chesapeake (Virgínia).
Ben Smith (à esq.), preparando o café da manhã com seu irmão e um amigo, em sua casa de Chesapeake (Virgínia).Youtube/Crossfit.com

Olhando da arquibancada do estádio enquanto acontecia a competição se via um mar de músculos, tanto deles como delas. Na verdade, é uma fábrica de produção de super-heróis: se algum dia o Capitão América perder a forma, com uma semana em um box volta ao seu ápice. O crossfit ganhou adeptos ao redor do mundo com uma velocidade incomum. A Espanha é o segundo país europeu, atrás da Inglaterra, no número de seguidores, com mais de 30.000 praticantes em apenas cinco anos. Essa especialidade parece ter se encaixado com uma sociedade com pouco tempo para investir em processos, mas com muita vontade de exigir resultados.

O crossfit oferece efeitos rápidos em um ambiente de comunidade unida, onde compete-se contra si mesmo. Há pessoas que inclusive têm técnicos particulares. “A tarefa do coach é saber como se aproximar dessa pessoa e tirar o potencial máximo, o que ela tem por dentro. Além de treinadores somos amigos, às vezes família, e também psicólogo. Devemos estar cientes do que os afeta”, conta Jorge Cadena Aguilar, fundador da revista mexicana especializada em crossfit, líder em espanhol, Rx Magazine, e proprietário de um box em Acapulco.

Mas quem é o cérebro (e não músculo) disso tudo? Chama Greg Glassman, o criador do crossfit e guru absoluto à frente de uma empresa milionária. Glassman abriu em 1995 seu primeiro box de trabalho na Califórnia. Atualmente existem cerca de 12.000 academias de crossfit no mundo todo, um jornal (CrossFit Journal), uma fundação (CrossFit Kids Foundation) e os Reebok Crossfit Games, que são realizados, anualmente, desde 2007. Para que um box possa fazer uso do nome crossfit e tenha direito de estar incluído no mapa internacional da rede de Glassman é preciso desembolsar anualmente 3.000 dólares (10.267 reais) para a organização. O crossfit, além disso, desenvolveu sua própria roupa de treinamento, com pegadores específicos na mão, da marca Reebok, e faz recomendações alimentícias, como a dieta paleo (de paleolítico).

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“Quando se entra em um nível de competição alto é preciso muito apoio e falar com pessoas que te ajudem. Isso também afeta as pessoas que te cercam e te querem bem. É um estilo de vida muito egoísta. Tudo se centra em você, em seus treinamentos e na sua evolução. Minha mulher teve que fazer muito da parte dela para suportar aquela época”, diz Chris Spealler, atleta que mais vezes participou dos Reebok Crossfit Games e uma verdadeira lenda dessa modalidade.

Aqui, em Los Angeles, os atletas de crossfit são tão estrelas como as que passeiam diariamente pela Hollywood Boulevard. São semideuses, exemplos de uma determinação sem precedentes e de um corpo sobrenatural. “Você entra sem se dar conta muito bem. Começa e vai uma vez por dia treinar. Depois volta duas vezes por dia para o box e isso pouco a pouco vai se transformando em seis horas por jornada. Quando muito, descansa quatro dias por mês. Quando você levanta e o corpo te diz que hoje você não vai fazer um bom treinamento, é hora de descansar”, diz Spealler.

Ben Smith come todos os dias quatro peças de bacon e cinco ovos mexidos. Treina cinco dias na semana. “O ‘crossfit’ tem o controle da minha vida”, afirma

Mas, sem dúvida, a lenda acima dos semideuses na história dos Reebok Crossfit Games se chama Rich Froning: durante quatro anos consecutivos ele alcançou o título de homem mais em forma do mundo (2011 a 2014). Um ídolo para os crossfiters de todo o mundo, que em sua conta no Twitter se declara “servo de Deus, pai de seus filhos e marido de sua mulher”.

Quem ocupou o título no lugar de Froning é Ben Smith. Esse homem, que vive do crossfit (participando de competições e com os ganhos que obtém em seu próprio box) só se permite um descanso: quando joga com seus amigos Mario Kart, sua segunda paixão. Nem tudo é crossfit.

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