Venezuela

Venezuela endurece o controle do mercado de alimentos

A oposição diz que medida aumentará o preço dos produtos

Uma família em um supermercado de Caracas.
Uma família em um supermercado de Caracas.Jorge Silva / REUTERS

Uma ordem administrativa da Superintendência Nacional de Gestão Agroalimentar da Venezuela busca encher as prateleiras vazias da rede estatal. A medida é parte da estratégia eleitoral devido às eleições parlamentares de dezembro. A criação de toda essa burocracia administrativa responde à ideia de garantir o que o chavismo chama de “soberania agroalimentar” mediante a planificação centralizada da economia. Economistas da oposição afirmam que a medida fará com que os preços dos produtos aumentem.

Impelido pelo descontentamento dos venezuelanos, o governo do presidente Nicolás Maduro está tentando evitar uma derrota que entregue o controle do poder legislativo à oposição em dezembro. A última decisão que busca restaurar a confiança perdida entre o eleitorado que o apoiou vem da Superintendência Nacional de Gestão Agroalimentar (SUNAGRO), que emitiu uma ordem às companhias filiadas à Câmara Venezuelana da Indústria de Alimentos (Cavidea) para que destinem uma porcentagem de sua produção de alimentos básicos aos supermercados do Estado.

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Sucessivamente, os carregamentos de leite, arroz, açúcar, massa, farinha de pão, farinha pré-cozida de milho e azeite irão parar nas prateleiras vazias das redes estatais em uma porcentagem que, segundo a ordem administrativa, oscila entre 30% e 100%. A medida implica o reforço dos controles de uma indústria que já é muito supervisionada pelo governo. Há vários anos os alimentos básicos não podem ser distribuídos pelo país sem a autorização do Sistema Integral de Controle Agroalimentar (Sica), que vigia e controla mediante a emissão de uma guia de mobilização de armazenagem e distribuição. Todos os transportadores devem ter esse documento em mãos, o que inclui também a rota que seguem ao seu destino final, um seguro contra as férreas inspeções das autoridades em seu caminho.

Esse modelo já deu mostras de seu esgotamento. O Estado, que conta com poucas divisas em espécie para importar alimentos com a queda dos preços do petróleo, não pode importar os insumos finalizados que destina às redes públicas, e pretende encher as prateleiras com a produção privada.

Mais restrições

O modelo econômico defendido com unhas e dentes pelo presidente Maduro se recusa a entregar à indústria de alimentos os dólares necessários para que paguem a dívida de 1,4 bilhão de dólares (4,57 bilhões de reais) com seus fornecedores, que lhes permitiria produzir à plena capacidade.

É lícito supor que nos próximos dias haverá menor capacidade de alimentos nas redes privadas de supermercados, que são maioria e, portanto, as longas filas nos mercados privados aumentarão. A Cavidea afirma que na rede privada existem 113.859 estabelecimentos comerciais enquanto a rede pública possui 7.245 locais. Agora acontece o contrário: longas filas nos locais geridos pelo Estado e aglomerações menores de clientes nos supermercados privados. Mas em uma entrevista concedida ao jornal local 2001 o ministro da Alimentação, Carlos Osorio, negou que a decisão pretenda favorecer uma rede em detrimento da outra. Em sua opinião, o Governo busca uma “distribuição equilibrada” dos alimentos, de acordo com a capacidade e níveis de consumo das regiões.

Os economistas ligados à oposição afirmaram que com essa decisão os produtos irão encarecer ainda mais. Sem cifras oficiais que confirmem, a Venezuela está imersa em um processo que caminha à hiperinflação pela insistência de Maduro em manter o roteiro traçado por seu antecessor Hugo Chávez em seu programa de governo chamado Plano da Pátria.

Essa medida é também uma tentativa de tentar retirar a desvantagem que o Governo tem nas pesquisas. Em dezembro serão eleitos 165 novos deputados e tudo leva a crer que, se os números atuais se mantiverem, pela primeira vez em 16 anos o regime perderá o controle de um dos poderes públicos.

A guerra econômica

O economista espanhol Alfredo Serrano é o novo assessor do presidente Nicolás Maduro em assuntos econômicos. Essa nomeação confirma a intenção de Maduro em aprofundar a experiência do socialismo real na Venezuela, e de não contatar os órgãos multilaterais em busca de auxílio financeiro. O jornal El Nacional afirma que Serrano acredita no conceito de "guerra econômica" que explica, de acordo com o chavismo, que a escassez e o desabastecimento são consequência da maneira como a classe empresarial se relaciona com o governo.

Para produzir em épocas de controle de câmbio, o Estado entrega dólares subsidiados aos empresários para que importem matéria prima e produtos que depois oferecerão ao varejo. Para repor essa mercadoria o empresariado calcula seus custos de reposição na cotação do mercado negro. A diferença entre um valor e outro gera lucros rápidos que nenhum outro negócio pode dar.

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