Crise na Venezuela

Bolívar venezuelano já vale só 1% do que diz o câmbio oficial

As empresas estrangeiras se verão forçadas a fazer novos ajustes em suas contas

Uma funcionária de limpeza na sede do Banco Central da Venezuela.
Uma funcionária de limpeza na sede do Banco Central da Venezuela.MIGUEL GUTIÉRREZ / EFE

O Governo de Nicolás Maduro mantém artificialmente como tipo de câmbio de referência oficial o de 6,3 bolívares fortes para cada dólar norte-americano. A Venezuela tem procurado evitar promover formalmente uma desvalorização, só que esta já ocorreu de forma mais ou menos dissimulada, mas inexorável. A perda de valor do bolívar em um país considerado hiperinflacionário se acelerou e o valor real da moeda venezuelana no mercado paralelo já é de apenas 1% de seu valor teórico pelo câmbio oficial.

A página dolartoday.com se transformou na referência extraoficial do mercado paralelo, que serve de referência para intercâmbios à margem dos mecanismos oficiais. Nesta quinta-feira, a página apontava um câmbio de 591,8 bolívares por dólar. Isso significa apenas 1% do câmbio oficial de 6,3 bolívares por dólar.

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Com essa referência, o valor da cédula de denominação mais alta, a de cem bolívares fortes, equivale a apenas 15 centavos de euro, ou 53 centavos de reais. A de dois bolívares quase não tem valor e as moedas desaparecem de circulação. Como o preço da gasolina de maior octanagem se mantém congelado em 0,097 bolívares por litro há anos pelo temor de protestos sociais em caso de aumento, a gasolina é praticamente grátis. Usando como referência o câmbio paralelo, com o equivalente a um centavo de euro, ou três centavos e meio de real, pode-se encher um tanque de 50 litros de gasolina.

Em sentido contrário, o contraste entre os tipos de câmbio oficiais e os do mercado paralelo é tão grande que se os preços forem calculados com base na cotação oficial, ocorrem absurdos como o de que um iPhone possa custar mais de 45 mil dólares (145 mil reais).

A perda de confiança na gestão monetária venezuelana, a drástica redução das reservas de divisas e também a da cotação do petróleo (a principal fonte de divisas para o país) aceleraram a queda do valor do bolívar. O dólar paralelo chegou nesta quinta-feira a seu valor mais alto depois da notícia de que a Venezuela voltou a retirar reservas – 1,5 bilhão de dólares (4,8 bilhões de reais) – do Fundo Monetário Internacional por causa de sua necessidade de liquidez.

Outros tipos de câmbio

O Governo venezuelano criou outros tipos de câmbio um pouco mais altos para fornecer dólares para algumas importações. Na atualidade, além do tipo de câmbio oficial, existem o chamado Sistema Complementar de Administração de Divisas (Sicad), com uma cotação de 12,80 bolívares por dólar, e o Sistema Marginal de Divisas (Simadi), a 200 bolívares por dólar. Foi abandonado um quarto tipo de câmbio, o Sicad II, que se situava em 52 bolívares por dólar.

Até o presidente do Peru, Ollanta Humala, alertou na quarta-feira em Madri ao Governo de Nicolás Maduro que o modelo de ter vários tipos de câmbio gera ineficiência e corrupção, assinalando que seu país já sofreu na própria carne com isso. “Já vivemos isso. Nos anos oitenta tivemos hiperinflação, que liquida a economia. Além disso, os vários tipos de câmbio abriram espaço para a corrupção. Aquela crise originou uma diáspora de dois milhões de peruanos. Não recomendamos isso”, afirmou Humala.

Para as empresas espanholas, por exemplo, com investimentos na Venezuela, a contínua desvalorização da moeda forçará a realização de novos ajustes – mesmo para aquelas que decidiram utilizar um tipo de câmbio mais conservador, como Mapfre, BBVA e Meliá. Estas adotaram o Simadi, mas os bolívares já valem entre um terço e metade do câmbio que as empresas utilizam em suas contas. O caso da Telefónica é pior ainda, pois ela adotou o Sicad II, com cotação de 50 bolívares por dólar, e terá de voltar a fazer um ajuste considerável.

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