Opinião
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Não nos esqueceremos, Amy Winehouse

Fernando Neira, crítico musical do EL PAÍS, relembra a perda da cantora de 'soul'

Amy Winehouse no festival Rock in Rio Lisboa, em 2008.
Amy Winehouse no festival Rock in Rio Lisboa, em 2008.ASSOCIATED PRESS

Entre as perdas de grandes artistas acontecidas nos últimos 20 anos só me lembro de ter chorado, literalmente, duas vezes: na de Jeff Buckley em 1997 e na de Amy Winehouse em 2011. Em ambos os casos me perturba conjugar o trinômio entre seu imenso talento, uma juventude deslumbrante e o completo infortúnio. O primeiro se afogou aos 30 anos no mesmo dia em que começava a gravação de seu segundo álbum; a segunda não chegou a ser capaz de assentar a cabeça para compor o terceiro. Aos dois sobrevivem, e sobreviverão, algumas canções sensacionais, mas é triste saber que jamais poderemos saber o que teria acontecido com eles, quanto de capacidade criativa teriam sido capazes de fazer, se teriam errado uma ou outra vez ou se os próximos trabalhos deixariam menores títulos anteriores como Grace, Last Goodbye, Lover, You Should´ve Come Over, Back to Black, You Know I´m Not Good e Addicted.

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Quatro anos atrás, em um dia como hoje me vem à memória aquele fatídico sábado de verão, aquela janela da página online de um jornal britânico pela qual soube que “ainda sem confirmação oficial”, Amy já não fazia mais parte do mundo dos vivos. Hoje lembrarei dela da melhor maneira que existe e sempre existirá para lembrá-la, escutando seus dois álbuns oficiais e talvez também esse terceiro, póstumo (Lioness), no qual foram recopilados fragmentos incompletos pelos quais quase qualquer outro artista venderia ao diabo um pedaço significativo de sua alma. Não me vem à cabeça uma voz no século XXI tão poderosa como a de Amy: descarnada, voluptuosa, imprevisível, profundamente sensorial. E não suporto bem a frustração pelo fato de que ninguém conseguiu retirá-la do lodaçal: esse namorado/marido/ex que foi debilidade e perdição, um pai sem escrúpulos que transformou a própria filha na protagonista indesejável de um reality, os malditos transtornos alimentares. O assédio daqueles que, longe de preservar um gênio deslumbrante, exploraram suas fragilidades e as transformaram em carniça.

Talvez não merecêssemos Amy, uma Ella Fitzgerald do novo século capaz de escrever, por exemplo: Over futile odds / And laughed at by the gods / And now the final frame / Love is a losing game. Mas é certo que Amy não merecia engrossar o funesto Clube dos 27. Só podemos prometer uma coisa, como desagravo: enquanto a memória não nos faltar, tenha certeza de que jamais a esqueceremos.

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