México espera ‘El Chapo’

Nem militares nem civis podem tem certeza de que algum mecanismo estatal irá funcionar

'El Chapo' Guzmán em fevereiro de 2014, quando foi capturado.
'El Chapo' Guzmán em fevereiro de 2014, quando foi capturado.Susana Gonzalez / Bloomberg

As sociedades americanas, como a mexicana, convivem historicamente com dois grandes fenômenos mortais: a corrupção e o tráfico de drogas. Ao contrário de Pablo Escobar na Colômbia, El Chapo Guzmán não é o típico narcotraficante ultraviolento, capaz de abater aviões ou enviar inimigos e inocentes para a outra vida. A origem, a extensão e a estrutura de seus negócios são os mesmos, mas são diferentes na perfeição e no comportamento do homem que, pela segunda vez, demonstrou mais habilidade ou uma capacidade infinita para corromper o Estado mexicano.

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Estados Unidos e México, tão unidos e tão distantes em tantos aspectos, têm no problema dos senhores da droga um ponto de tensão comum durante este governo. A liberdade de Rafael Caro Quintero, o traficante acusado de assassinar o agente da DEA Enrique Camarena Salazar, e esta segunda fuga de El Chapo criam um grave conflito político entre os dois Governos.

E assim, entre os que olham para o outro lado e os que fizeram disso um negócio, foi se criando um monstro com muitos aspectos perigosos. Como a confusão, o pior de todos. Por exemplo, Escobar, que construía hospitais e campos de futebol para os pobres em Medellín, achou que também podia ter seu próprio exército. Nunca entendeu o que significa colocar para ferver na mesma panela bandidos e militares. Os políticos se limitam a receber o dinheiro com a mão direita para, em seguida, negar com a esquerda.

O problema da corrupção é que se tornou a bactéria que alimenta a epidemia de tráfico de drogas. A segunda fuga de El Chapo —“inacreditável e imperdoável”, nas palavras do presidente Peña Nieto— é um gesto que humilha e destrói a credibilidade do Estado, deixando em evidência vários aspectos.

O primeiro foi que, desde o início —como Peña Nieto disse em Univisión—, estavam conscientes de que isso poderia acontecer. Desde sua primeira noite na prisão de segurança máxima, Guzmán tinha certeza que, como Houdini, ninguém iria mantê-lo preso. O segundo, por que não colocar um chip no inimigo público número um para poder localizá-lo?

A segunda fuga de El Chapo é um gesto que humilha e destrói a credibilidade do Estado

O terceiro, tirando a piada da câmera com pontos cegos para preservar a integridade do preso e seus direitos humanos, onde está o resto das medidas de inspeção? Ou por acaso essa câmera mágica detectava qualquer anomalia e, portanto, substituía as inspeções oculares para os criminosos mais perigosos, obrigatórias em todos os sistemas penitenciários?

E o quarto é que se chegou a um ponto final com as Forças Armadas mexicanas que o prenderam em colaboração com os Estados Unidos. Hoje, seus membros estão processados e questionados pelo povo mexicano: a guerra insensata contra o tráfico de drogas declarada pelo ex-presidente Felipe Calderón os obrigou a cumprir tarefas que não eram deles.

Agora os que prendem ou abatem os criminosos estão na mira das organizações de direitos humanos. Com 100.000 mortos e 23.000 desaparecidos, há casos de abusos que, na ausência de um suporte legal, projetam a sombra da suspeita sobre as Forças Armadas. E, para piorar, quando entregam os detidos às autoridades, estas cometem erros de tal magnitude que, mesmo neste ponto —no qual um escândalo mata o outro— a lista de falhas na prisão de El Altiplano é a evidência mais forte do desaparecimento do Estado mexicano.

O problema não é apenas a nova captura de El Chapo, o problema é que nem soldados nem civis podem ter certeza de que os mecanismos do Estado irão funcionar. Enquanto isso, os políticos —do presidente para baixo— fazem declarações que têm um problema crucial: era tão óbvio que ele ia escapar que, por isso, não quiseram impedi-lo.

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