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Vaticano realiza seu primeiro julgamento por pedofilia

Processo contra Jozef Wesolowski, ex-núncio da República Dominicana, foi anunciado

Josef Wesolowski
O sacerdote Josef Wesolowski, em 2009 em Santo Domingo. REUTERS

Um ex-arcebispo polonês no banco dos réus; dois bispos norte-americanos fora de circulação. O papa Francisco não quer deixar qualquer dúvida sobre sua determinação em erradicar a pedofilia dentro da Igreja. O Vaticano anunciou na manhã desta segunda-feira a abertura de um julgamento por abuso de menores contra Jozef Wesolowski, ex-núncio na República Dominicana e, quase simultaneamente, a renúncia — forçada por Jorge Mario Bergoglio — de dois bispos dos EUA que encobriram um sacerdote que está preso por pedofilia.

O caso de Wesolowski também pode ser considerado histórico. Não apenas porque será a primeira vez que o tribunal do Vaticano processa um hierarca da Igreja por crimes tão graves do ponto de vista penal e moral — abuso de menores e posse de material “pornográfico-pedófilo” —, mas também porque o verdadeiro promotor do processo, cuja audiência terá início em 11 de julho, foi o Papa.

Quem é Wesolowski?

Jozef Wesolowski nasceu na Polônia, em 1948, foi ordenado sacerdote em 1972 e tornou-se arcebispo em 6 de janeiro de 2000. Em 24 de janeiro de 2008, foi nomeado núncio apostólico na República Dominicana. Antes, havia sido embaixador da Santa Sé no Uzbequistão, Quirguistão, Tadjiquistão e Cazaquistão.

Não por acaso Bergoglio, em setembro passado, foi quem ordenou a prisão domiciliar de Wesolowski, de 66 anos, acusado de abusar de menores durante os cinco anos — de 2008 a 2013 — em que atuou como núncio na República Dominicana. "A prisão, disse na época o jesuíta Federico Lombardi, porta-voz do Vaticano, "é devido à vontade expressa do Papa para que um caso tão delicado e tão grave seja tratado sem demora, com o direito e o rigor necessários, e com as instituições que formam a Santa Sé assumindo plenamente a responsabilidade". Pouco depois foi anunciado — e o fato não foi ocultado como de costume — que, durante a prisão de Wesolowski, a gendarmaria do Vaticano descobriu uma grande quantidade de material pornográfico que poderia ser usado para julgar os crimes cometidos durante seu período como núncio.

O polonês foi removido do posto de chefe da nunciatura na República Dominicana em agosto de 2013, depois que um programa de investigação dirigido pelo jornalista Nuria Piera denunciou na TV que o alto oficial do Vaticano havia supostamente pago dinheiro para manter relações sexuais com menores. Após o programa, o cardeal dominicano Nicolás de Jesús López Rodríguez informou pessoalmente o papa Francisco sobre as denúncias e classificou o assunto como "extremamente grave". Menos de um ano depois, em junho de 2014, o prelado polonês foi expulso do sacerdócio, após um processo canônico liderado pela Congregação para a Doutrina da Fé, o antigo Santo Ofício.

"Quanto ao período [de agosto de 2013 a setembro de 2014] transcorrido em Roma antes de sua prisão," informou o Vaticano "o processo o acusa do crime de posse de material pornográfico-pedófilo, um [novo] crime introduzido na lei nº VIII de 2013 pelo papa Francisco. Para o período anterior, as acusações são baseadas no material probatório enviado pela autoridade judiciária de Santo Domingo sobre os abusos de menores”. A questão que os juízes do Vaticano devem elucidar, a partir de 11 de julho, é se as leis introduzidas por Bergoglio para punir os crimes de pedofilia poderão ser aplicadas retroativamente no caso do ex-núncio polonês.

Se restasse qualquer dúvida de que se foi o tempo – décadas inteiras – em que a Igreja oficial olhou para o outro lado e até encobriu pedófilos, o Vaticano também informou que o papa Francisco forçou a renúncia do arcebispo John Clayton Nienstedt, da cidade de Saint Paul em Minneapolis, nos Estados Unidos, e de seu bispo auxiliar, Lee Anthony Piché, ambos acusados de encobrir um sacerdote que abusou de menores entre 2010 e 2011 e agora está cumprindo uma sentença de cinco anos de prisão.

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