Irã se oferece como aliado confiável

Conflito no Iêmen dá novo argumento para se mostrar como o país mais estável na região

O líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, com vários comandantes militares, em uma cerimônia de formatura em Teerã.
O líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, com vários comandantes militares, em uma cerimônia de formatura em Teerã. (AP)

“Olhe ao seu redor, somos o país mais estável da região”, repetem como um mantra todos os interlocutores iranianos, sejam políticos ou empresários, do Governo ou da oposição. A mensagem é clara: o Irã é um aliado no qual é possível confiar em um Oriente Médio submerso em guerras sectárias e tribais atribuídas à ingerência da Arábia Saudita. Sua intervenção militar no Iêmen reafirmou essa postura.

“O Iêmen é uma armadilha que a Arábia Saudita nos armou como reação às conversas nucleares, teme por seu papel na região quando as sanções forem levantadas”, afirma um embaixador aposentado que simpatiza com o Governo de Hassan Rohani. A ideia de que seu rival árabe pela hegemonia regional tenha reagido ao perceber o expansionismo iraniano é estranha até mesmo para os conservadores que fustigam o Executivo no Parlamento.

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O Irã nunca foi uma ameaça à região. A estratégia de defesa iraniana não inclui o armamento nuclear”, defende Alaeddin Boroujerdi, o veterano presidente da comissão de Segurança Nacional e Assuntos Exteriores do Parlamento. “Segundo os Estados Unidos, depois do possível acordo nuclear, o Irã não terá capacidade de fabricar armas atômicas, será menos perigoso, por que temê-lo?”, pergunta-se sob os mapas da região e do mundo que decoram a sala da comissão.

O Iêmen é a última amostra do encarniçado duelo entre as duas potências regionais que nas últimas décadas apoiaram aliados que se enfrentaram na Palestina, Líbano, Afeganistão, Iraque, Síria e Bahrein. A deterioração da relação com a Arábia Saudita é para alguns observadores o maior fracasso da política exterior de Rohani. Em sua posse, que logo fará dois anos, prometeu “fomentar a confiança entre o Irã e o resto dos países do mundo”, com menção especial aos seus vizinhos.

“Quiseram aproximar-se dos árabes antes do acordo [nuclear] para evitar o boicote, mas ao não conseguirem optaram pela estratégia de apresentar o país como o mais estável da região”, interpreta um embaixador ocidental.

Logo depois do anúncio do acordo que retomava as discussões nucleares em novembro de 2013, seu ministro das Ralações Exteriores, Mohammad Javad Zarif, iniciou um giro de visitas às monarquias árabes do Golfo, mas a Arábia Saudita não aceitou, apesar de ter conseguido reunir-se com seu homólogo Saud al Faisal em Nova York. De qualquer forma, existe unanimidade entre todas as tendências políticas iranianas em atribuir o desencontro ao Reino do Deserto.

“Continua apoiando o terrorismo na Síria e no Iraque e iniciou a guerra no Iêmen; isso é um obstáculo para as relações. A política aberta do Irã continua existindo, mas requer condições favoráveis”, explica Hosain Royvaran, professor de Relações Internacionais na Universidade de Teerã e analista político.

Os zaiditas na Constituição iraniana

O artigo 12 da Constituição iraniana reconhece a escola zaidita do Islã e garante o direito de seus seguidores de beneficiarem-se dessa jurisprudência. Não existem, entretanto, muçulmanos zaiditas na República Islâmica. Alguns iemenitas enxergam nisso uma prova da ação iraniana por trás do acesso do movimento Huthi (que surge em defesa da minoria zaidita do Iêmen).

“Também não existem iranianos seguidores da escola shafi´i [uma das quatro do islamismo sunita] e também é mencionada no mesmo artigo”, minimiza um jurista. “A Constituição quer dessa forma proteger as minorias”, justifica.

Além disso, os zaiditas são associados ao xiismo, doutrinalmente são os xiitas mais próximos ao islamismo sunita, até o ponto de alguns estudiosos os considerarem a quinta escola do sunismo. Fora do Iêmen só existem pequenas comunidades zaiditas no sudoeste da Arábia Saudita (nas regiões que foram iemenitas até a fundação do reino) e no subcontinente indiano.

Todas as fontes consultadas frisam o caráter autóctone do movimento Huthi do Iêmen; admitem a proximidade ideológica com a República Islâmica e até mesmo o apoio moral desta ao grupo. “Desde a revolução, o Irã sempre defendeu os oprimidos, por isso as duras declarações das mais altas autoridades iranianas”, afirma Boroujerdi. Negam, entretanto, as acusações sauditas de que estejam treinando e armando esses rebeldes.

“Não precisam pois boa parte do Exército os apoia, de modo que contam com os arsenais do Exército regular”, diz Royvaran que não refuta a possibilidade do envio de armas “se pedirem”. Lembra, entretanto, que como no caso do Hamas e o Hezbollah contra Israel, a diferença são os mísseis iranianos. “Não vimos algo desse tipo por parte dos Huthi, o que interpreto como ainda não os terem recebido”, conclui.

É uma análise compartilhada por numerosos observadores. “[Os iranianos] não têm tanta influência [no Iêmen] como lhes é atribuída”, admite um embaixador ocidental. O própria Zarif reconheceu em privado que não controlam os Huthi, que lhes disseram para não avançar sobre Áden e não obedeceram.

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