Venezuela

Opositor venezuelano Leopoldo López declara greve de fome

Em vídeo gravado na prisão, o ex-prefeito de Chacao também convoca uma manifestação contra o regime chavista

Leopoldo López, em uma captura do vídeo gravado na prisão.
Leopoldo López, em uma captura do vídeo gravado na prisão.YOUTUBE

Na noite deste sábado o líder opositor venezuelano Leopoldo López conseguiu romper o férreo isolamento imposto pelo regime de Nicolás Maduro para divulgar um vídeo através de sua conta do Twitter. Sua esposa Lilian foi a encarregada de postar a gravação, de mais de três minutos de duração, em que o político, detido há 15 meses em uma prisão militar nos subúrbios de Caracas, anuncia o início de uma greve de fome que tem como objetivo fazer o Conselho Nacional Eleitoral marcar de uma vez a data das eleições parlamentares.

Tendo como fundo uma parede escura coroada por uma janela com as típicas grades das celas, López deu início a seu discurso mencionando o tempo que estava na prisão “por ter denunciado o Estado venezuelano como corrupto, repressor, ineficiente e antidemocrático”. O oposicionista recordou que as mortes ocasionadas entre fevereiro e junho passados, meses nos quais uma facção da oposição, liderada pela ex-parlamentar María Corina Machado e pelo prefeito de Caracas Antonio Ledezma, promoveu protestos nas ruas para provocar a saída do sucessor de Hugo Chávez, “estão protegidas pela impunidade e pela cumplicidade da justiça venezuelana com quem está no poder”.

Depois do diagnóstico, de recordar a caótica vida diária venezuelana e as recentes denúncias da imprensa internacional sobre a investigação contra altas autoridades do regime por transformar o país sul-americano em um grande centro de distribuição de cocaína, chegou a notícia. “Por todas essas razões, pelas violações a nossos direitos, a nossas famílias, ao presente e ao futuro dos venezuelanos, Daniel Ceballos e eu tomamos a decisão de iniciar uma greve de fome para que sejam libertados os presos políticos, para que cesse a perseguição, a repressão e a censura e que se fixe a data das eleições parlamentares e que estas possam ser fiscalizadas pela Organização dos Estados Americanos e pela União Europeia”. Leopoldo López também convocou todos os venezuelanos para uma mobilização em todo o país no próximo sábado.

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O chavismo tem feito questão de honra em não permitir a observação internacional, e toma qualquer iniciativa dessa natureza como uma intromissão nos assuntos internos da Venezuela. A oposição acredita que as missões internacionais não controladas por Caracas poderiam verificar o impune e grotesco uso dos recursos públicos para mobilizar os eleitores chavistas no dia das eleições, e as irregularidades que se apresentam em centros de votação das regiões onde a oposição é minoria.

A aposta de López em manter sua presença entre os venezuelanos opostos ao regime chega logo depois das eleições primárias da oposição para escolher candidatos unitários às eleições parlamentares, realizadas no domingo passado. Uma das possíveis leituras dos resultados é que seu partido, o Vontade Popular (VP), e em geral a ala que promoveu as desordens no ano passado, obtiveram menos votos que o bloco moderado encabeçado pelo Primeiro Justiça, o partido do ex-candidato presidencial Henrique Capriles, e pela Ação Democrática. Entretanto, o VP foi a segunda legenda mais votada da oposição atrás da organização de Capriles. López parece estar decidido a se tornar o principal rosto da alternativa ao chavismo em um momento de extrema debilidade do regime.

A notícia da greve de fome surgiu ao final de um dia especialmente movimentado. Os rumores começaram na noite da sexta-feira. A dirigente estudantil Gaby Arellano, membro do partido Vontade Popular, alertou por um aplicativo de mensagens com fotos sobre uma atividade policial incomum na prisão onde é mantido o principal dirigente da sua organização. Na manhã de sábado, foi confirmado que Daniel Ceballos, ex-prefeito de San Cristóbal detido por acusações semelhantes às imputadas a López, havia sido transferido para a perigosa Penitenciária Geral da Venezuela, no Estado de Guárico, região central do país.

As prisões venezuelanas estão entre as mais violentas da América Latina e são usualmente controladas por máfias

Horas depois, o defensor do povo venezuelano, Tarek William Saab, reiterou essa versão, mas esclareceu que Ceballos seria acolhido em uma nova prisão, o Centro para Processados 26 de julho, cujo nome evoca o histórico ataque ao Quartel Moncada, episódio considerado o embrião da Revolução Cubana. Na tarde de sábado, alguns veículos da imprensa venezuelana asseguravam ser legítima uma foto das redes sociais mostrando um homem muito parecido com Ceballos, de cabelo raspado e macacão amarelo – o uniforme usado por presos comuns nas prisões venezuelanas.

Segundo o jornal chavista Últimas Notícias, o Governo decidiu separar López de Ceballos “porque eles previam começar um plano de conspiração, que teria início com a decisão de lançar-se numa greve de fome por tempo indeterminado”. Essa versão coincide com a fala do defensor do povo, uma autoridade ligada ao chavismo, que denunciou a descoberta de um telefone celular nos pertences de López durante uma revista feita na noite da sexta-feira. “É o terceiro celular expropriado dele em quatro meses, e isso viola o regulamento interno”, escreveu Saab no Twitter. Em uma postagem posterior, ele revelou que o líder opositor havia sido punido por essa razão. O programa de TV La Hojilla, transmitido pela TV estatal, também exibiu um vídeo que reforçava essa impressão.

Mais cedo, a organização de direitos humanos Human Rights Watch protestou contra a transferência de Ceballos e afirmou, contradizendo o Governo, que essa movimentação do preso não foi informada a advogados e familiares, e que tampouco atendia a qualquer ordem judicial. A organização recordou que as prisões venezuelanas, muitas delas controladas pelo crime organizado, estão entre as mais violentas da América Latina, e que todos os anos dezenas de presos são mortos, com total impunidade.

“Diversas autoridades das Nações Unidas e do sistema interamericano já exigiram a imediata libertação e proteção de dirigentes políticos detidos arbitrariamente, como Ceballos. Tratando-se de uma pessoa que se encontra sob a custódia do Governo da Venezuela, responsabilizamos o Governo do Presidente Maduro pela vida e integridade física de Ceballos e de todos aqueles que foram detidos arbitrariamente no país”, disse a entidade.