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Obama diz que o que aconteceu em Baltimore não representa nova crise

Presidente desqualifica causadores dos distúrbios de Baltimore

Barack Obama, em seu comparecimento nesta terça-feira. REUTERS-LIVE

A Casa Branca guardou um sonoro silêncio enquanto Baltimore mergulhava na segunda-feira no caos, e o fogo era a imagem do protesto mais recente, iniciado depois do enterro do último jovem afro-americano morto por policiais brancos. Observador distante, ciente de que as relações raciais continuam a ser campo minado nos EUA, o primeiro presidente negro da nação precisou ficar nesta terça-feira diante da imprensa, obrigado por sua agenda, que o colocava no palanque ao lado do primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe.

Obama levava pronta a resposta, longa, com seis pontos. “O país está diante de nova crise nacional, com o estado de emergência declarado em Baltimore e a guarda nacional nas ruas de uma cidade a menos de 40 minutos de carro da Casa Branca?”, perguntou uma jornalista, deixando de lado o jogo de economia que resulta do triângulo geopolítico formado por EUA, China e Japão.

Durante mais de 15 minutos de solilóquio, Obama desempenhou o equilíbrio político-circense a que apela sempre que se aborda o tema da raça, de forma geral desde que assumiu o poder, em 2009, e especificamente desde que em agosto do ano passado um policial branco matou um jovem negro desarmado na até então desconhecida Ferguson (no Estado do Missouri).

Durante mais de 15 minutos de monólogo, Obama fez o equilibrismo político-circense a que apela sempre que se aborda o tema da raça

O presidente manifestou suas condolências à família de Freddie Gray; reconheceu que entendia que ela quisesse resposta a respeito de sua morte sob custódia da polícia; mostrou solidariedade com os policiais feridos nos distúrbios; criticou os meios de comunicação por se aferrarem a apenas uma parte da história e mostrarem repetidamente as imagens do vandalismo, mas não as dos protestos pacíficos que aconteceram durante o dia; atacou os violentos, que chamou de criminosos; e terminou dizendo que a crise era uma crise, mas certamente não era nova.

“Isso vem acontecendo há muito tempo”, declarou o presidente, filho de um negro africano e uma branca do Kansas. “Não é novo, não podemos fingir que seja”, insistiu Obama, dizendo que compreendia por que os líderes religiosos e comunitários falavam de crise. Depois de Ferguson e Michael Brown houve Staten Island (Nova York) e Eric Garner. Em seguida, Cleveland e Tamir Rice, um menino negro de 12 anos que um policial branco matou num parque porque achou que estivesse armado.

Neste mês, outra morte pelas mãos da polícia pôs no mapa North Charleston, na Carolina do Sul. Dessa vez, a gravação que um transeunte fez do incidente inocentou Walter Scott, levou à prisão, acusado de assassinato, o agente Michael Slager, e abriu o debate, propondo a seguinte questão: quantas mortes de homens negros pela polícia não foram acobertadas sob a descrição de “uso necessário da força diante de um suposto delinquente”? Obama fez referência velada ao que aconteceu no caso de Walter Scott ao dizer que havia apenas uma notícia boa nessa dolorosa sucessão de mortes, que era o fato de as “redes sociais” agora ajudarem na divulgação da verdade.

Chegando a esse ponto, ainda não tendo completado metade de sua longa resposta a uma pergunta curta, o presidente pediu desculpas ao primeiro-ministro japonês por monopolizar de tal maneira sua entrevista coletiva conjunta. “Isso é muito importante para nós”, disse Obama, apoiado no palanque e virando-se na direção de Abe.

Não me iludo que este Congresso vá investir nas comunidades negras empobrecidas”

Barack Obama

Na Casa Branca, em Baltimore, nos Estados Unidos, há ecos do passado. O presidente de um país que enriqueceu com a escravidão e que como nação tem a mancha da segregação é cauteloso e às vezes ambíguo na hora de manifestar sua frustração e exasperação para não ser identificado com uma comunidade apenas. Frustração porque, como ele mesmo declarou, “não me iludo que este Congresso vá investir nas comunidades negras empobrecidas”. Exasperação ao mencionar a avenida que leva “as crianças negras das escolas para a prisão” e mais exasperação ao lembrar que essas mesmas crianças nascem em lugares sem futuro, com mães viciadas e pais ausentes.

O passado ecoou na noite de segunda-feira e fez as forças da ordem de Baltimore retrocederem à década de setenta, quando reinava o Black Liberation Army. A polícia da cidade, que fica ao Norte de Washington, considerou que houvesse uma ameaça verossímil de que as gangues rivais dos Crisp e dos Bloods tivessem formado uma aliança para assassinar policiais brancos após o funeral de Gray.

O presidente disse não encontrar “desculpa” para “a violência sem sentido” registrada em Baltimore e afirmou que os responsáveis pelos distúrbios seriam tratados “como criminosos”. “Isso não foi um protesto. Isso não foi uma manifestação”, declarou o presidente. “Foi um punhado de pessoas tirando proveito da situação por suas próprias razões.” Obama desse modo descartou que os que incendiaram carros e centros sociais e saquearam lojas fizessem parte da categoria definida há mais de meio século por Martin Luther King: “Os distúrbios são a linguagem usada pelos que não são ouvidos”.

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