Tribuna
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Meu amigo de redes sociais, precisamos falar sobre cotas. De novo

Bem-vindos ao século 21, parças. Desigualdade racial institucional (com conivência do estado e nossa passividade) terá de ser coisa do passado

Antes de tudo, um disclaimer: faço parte do seleto grupo de 0,16% da população brasileira que compõe a elite negra do país (fração negra do 1% mais rico, considerando-se apenas rendimento do trabalho). Sou filha de médicos intelectuais. Estudei em escolas privadas e tive aulas de violino, francês, pintura a óleo e tudo o mais que desejasse. Como era esperado de mim, cursei universidade pública e ganhei bolsas aqui e ali, fiz mestrados, morei fora etc.

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No entanto, este texto não é sobre minha trajetória acadêmica, mas sobre a ausência sufocante ao meu redor. Olho para os lados e sou a única negra da classe, do trabalho, das festas dos amigos, do restaurante, da padaria, da butique, do salão, do bar, da lavanderia – com exceção, em alguns casos, dos funcionários que me atendem. A ausência ao meu redor tem um nome e vários números. O nome é racismo. Alguns dos números: considerando a fatia mais pobre da população brasileira (10º percentil), 76% são negros; apenas 37% dos jovens negros de 18 a 24 anos estão nas universidades, enquanto os brancos na mesma faixa etária estão presentes com 67%; a informalidade atinge 50% dos trabalhadores negros, enquanto chega a 36% dos brancos.

Não é difícil inferir que esse quadro é reflexo da instituição econômica e política mais longa da nossa história, a escravidão. O Brasil foi o último país das Américas a aboli-la, em 1888, depois de quase três séculos dizimando africanos e seus descendentes. Calcula-se que foram, ao todo, 5 milhões que chegaram ao país – o que seria mais de 10 vezes a quantidade de africanos escravizados nos Estados Unidos, por exemplo. E isso sem contar o número muito maior ainda que morreu no caminho, nos navios da morte.

A escravidão tinha sua pilastra intelectual: teorias cientificistas enunciavam a inferioridade das populações negras, sua propensão ao crime, sua vinculação a doenças e epidemias e outras bobajadas do gênero. Seu fim, e a liberação de uma mão de obra barata para competir no mercado de trabalho, não impediu que fosse posta em curso outra política de estado que teve seu efeito cruel: a de “embranquecer” o país, estimulando a vinda de trabalhadores europeus. Estes recebiam o apoio estatal que aos escravos libertos lhes era negado, abrindo ainda mais o fosso racial no país – algo sentido até hoje. Tenho dezenas de amigos queridos com sobrenomes italianos e alemães, mas conto nos dedos da mão esquerda a quantidade de amigos negros…

Tudo isso para falar sobre o vídeo, publicado recentemente em redes sociais, que mostra um grupo de jovens ativistas negros ocupando uma sala de aula na FEA/USP. Os ativistas “hackeiam” uma aula de microeconomia para discutir acesso à universidade pública e cotas raciais. Não tarda a começar um bate-boca.

Os estudantes – todos brancos com exceção de um, que ao fim se posiciona em favor dos ativistas – se alternam no papel de desconforto (queria-que-acabasse-logo-para-eu-poder-voltar-a-fingir-que-estou-prestando-atenção-à-aula) e no de puro cinismo. Um deles, jovem homem branco ex-estudante do Vértice, dispara a uma mulher negra da periferia: “Você é igual a mim. Não fico me diferenciando de você.”

O estudante que afirmou isso – depois de dizer “não quero saber o que é ser negro, quero assistir à aula” – é bem representativo da elite brasileira bronca, chucra, pouco ilustrada. Esse é o pessoal que nega que haja racismo no Brasil ou que, se admite que há, tergiversa se devemos fazer alguma coisa a esse respeito. “Não quero saber o que é ser negro.” (Ou indígena, mulher, pobre, deficiente etc.)

As elites mais espertas dirão que há racismo e que até podemos fazer algo para reduzir as disparidades educacionais entre privilegiados e não privilegiados, como instituir cotas nas universidades. Mas “tal exceção à prevalência do mérito” tem de “obedecer a critérios sociais”, beneficiando egressos das escolas públicas ou alunos com menor renda familiar. Os jornalões brasileiros adoram repetir essa ideia. Gostam de reforçá-la com um argumento à primeira vista sensato: “cotas sociais compensam os estratos étnicos discriminados, na medida em que eles se concentram nas faixas de renda menor” (Editorial da Folha de São Paulo, 03.05.2014).

A pergunta-chave, portanto, para dialogar com elites mais espertas é: além da pobreza, negros são afetados por outros fatores?

Antes mesmo de a criança negra nascer já há desigualdades que podem afetar seu desempenho cognitivo. Entre as mulheres sem nenhuma instrução, apenas 31% das negras fazem sete ou mais consultas pré-natal; entre as brancas sem nenhuma instrução, o número sobe para 53%. Assim que o bebê nasce, a estrutura familiar também passa a desempenhar seu papel: 60% das mulheres negras sem escolaridade que tiveram filhos de 1994 a 2012 eram mães solteiras, percentual que cai para 51% das brancas na mesma condição no mesmo período.

Comparando negros e brancos de uma maneira geral, vê-se como negros são mais afetados por todas as mazelas do país. As crianças pardas e pretas são mais submetidas a trabalho infantil (7,57% e 6,45%, respectivamente) do que as brancas (5,44%). Uma vez na escola, os jovens negros de 15 a 17 anos de idade possuem uma taxa de frequência escolar líquida de 48%, ao passo que os jovens brancos têm taxa de 63%. O jovem negro entre 20 e 24 anos, que deveria estar estudando e conseguindo o primeiro emprego, vive constantemente com medo de ser assassinado: entre eles, a taxa de óbitos por agressão por 100 mil habitantes é de 82 – para os brancos é de 30. Inclusive com medo de ser assassinado pela polícia: em São Paulo, por exemplo, onde 34% da população é negra, entre as vítimas de mortes cometidas por policiais 58% são pretas e pardas. Para cada grupo de 100 mil habitantes negros, foi morto 1,4 em 2010 e 2011, ao passo que, para cada grupo de 100 mil habitantes brancos, foi morto 0,5. Ou seja, a proporção de negros entre mortos por ação policial é três vezes maior do que a de brancos.

Sem contar os elementos intangíveis: não aceitar o próprio corpo negro, lidar com o estereótipo da hipersexualização e sofrer discriminação direta na hora de conseguir emprego. Como neste depoimento ao UOL, em uma reportagem sobre desemprego entre negros:

“Carolina de Souza Batista é carioca, negra, tem 19 anos, ainda não completou o ensino médio e começou a procurar trabalho como vendedora no Rio de Janeiro há aproximadamente dois meses. A jovem se enquadra exatamente no perfil da maioria da população desempregada do Brasil, descrita na Pnad.

Ela sonha em cursar faculdade de medicina ou nutrição. Reprovada duas vezes no colégio, decidiu fazer um curso técnico em estética enquanto termina o supletivo, para ganhar o próprio dinheiro e deixar de depender da mãe.

“Como é que a gente vai conseguir o primeiro emprego sem experiência? Já distribuí vários currículos, mas não fui chamada para nenhum. Talvez porque eu não tenha o ensino médio. Eu tenho inglês, mas não consegui”, afirmou.

Além do desafio de conquistar o primeiro emprego, também sofre com o preconceito. Ela diz que na maior parte das lojas o perfil das vendedoras é de meninas loiras de cabelo liso. “Às vezes sinto vontade de mandar o currículo, mas, quando eles contratam negras, são sempre aquelas negras maravilhosas, que a gente não está acostumado a ver. Nunca são as negras comuns”, disse.”

Meu amigo leitor, você acha mesmo que o país é dividido entre pobres e não pobres – e que, portanto, não há regimes de desigualdades entre os desprivilegiados?

No vídeo na USP, uma das meninas negras chega a dizer: “Me acha radical? Radical é o sistema, parça.” Estamos atrasados em quase 130 anos em admiti-lo e repará-lo. Há quem diga que a adoção de critérios raciais introduz “um fator politicamente explosivo” (Editorial da Folha, já citado). Eu quero mesmo é a explosão da nossa tradição dos falsos consensos; a explosão da crueldade da meritocracia sem igualdade de oportunidades de fato; a explosão da falácia de que no Brasil “não há negros ou brancos, de que todo mundo é miscigenado”.

Bem-vindos ao século 21, parças. Desigualdade racial institucional (com conivência do estado e nossa passividade) terá de ser coisa do passado.

Natália Paiva é jornalista e diretora-executiva da Transparência Brasil, ONG de monitoramento das instituições públicas e combate à corrupção. Tem MBA pela IE Business School e mestrado em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP.

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