STREET ART

A crise hídrica no menu dos apreciadores de arte

Exposição de 'street art' coloca a água na moldura até 7 de abril, em São Paulo

A seca do sistema Cantareira no graffiti de Mundano.
A seca do sistema Cantareira no graffiti de Mundano.Andre D'Elia

Passou o tempo, no Brasil, em que a água ficava circunscrita a territórios domésticos como a cozinha e o banheiro. Cada vez mais ausente desses lugares, ela passou virtualmente à sala do brasileiro, entre debates do tipo “o que é volume morto”, e também às galerias de arte, onde agora é exibida para ser apreciada. Essa é a sensação ao visitar a exposição Veracidade mundana – que ocupa a galeria paulistana A7MA, na Vila Madalena, até a próxima terça-feira, 7 de abril ­– ou, pelo menos, o recado que ela quer dar.

Nas paredes do espaço, obras e instalações inéditas dos artistas de rua Mauro e Mundano abordam a crise hídrica de São Paulo, misturando representações de água, cidade, meio-ambiente e política. O objetivo, porém, é ir além da mera estética, informando e conscientizando quem ainda consegue ignorar o problema. Há desenhos que mostram homens com galões de água gigantes nas costas, instalações de cactos com torneiras, uma mulher abraçando ‘a última gota’, além de filtros e cisternas – objetos antes tão corriqueiros, mas que hoje são caros e simbólicos. E o recado é sempre: “Água não se vende, água se defende”, como diz a pichação em uma das instalações expostas.

O tema soa quente, mas o artivista Thiago Mundano vem falando dele desde 2007. “Tento alertar as pessoas através de graffiti e instalações. Os cactos, que são um elemento bem específico do meu trabalho, representam para mim um povo que é forte, mesmo vivendo em um país abundante”, explica Mundano, cujo projeto mais conhecido é o P.I.M.P my carroça, em que usa materiais reciclados para intervir em carroças urbanas.

Mauro intervém na represa Billings.
Mauro intervém na represa Billings.Andre D'Elia

Quando a falta de água veio à tona em 2014, ele decidiu fazer uma expedição pelo sistema Cantareira. Ao se deparar com uma cena desoladora, a visita se desdobrou em várias idas ao reservatório: “Primeiro, instalei um cacto, depois encontrei um carro que estava submerso e fiz uma intervenção nele. Quando ele foi retirado, pela polêmica que gerou, pintei um carro num dos pilares que havia. Também levei pra casa muito lixo que apareceu quando a água baixou”. No total, 41 carros foram retirados do fundo do Cantareira, mas o de Mundano se tornou o símbolo da seca no sistema, porque foi usado como medidor do nível da água, já que dava uma noção de escala.

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Já Mauro, que além de artista plástico é educador, trabalha com a população que vive próxima dos mananciais de outra grande represa da cidade, a Billings. Imargem, de 2006, e Cartograffiti, de 2009, são projetos artísticos coletivos idealizados por ele na região e que debatem meio-ambiente e o direito à cidade. Os desenhos dele transmitem não só a seca, mas uma solidão intensa, mesmo retratando espaços urbanos hiperlotados.

Quem estiver interessado em levar pra casa uma das 95 obras expostas, à venda por valores que variam de 300 a 10.000 reais, pode começar a torcer pro nível do Cantareira subir nos próximos dias, até a exposição acabar. É que a porcentagem do reservatório define os descontos que serão dados no ato da compra. Hoje, o abatimento é de meros 18,86%.

Galeria A7MA: Rua Harmonia, 95, São Paulo.