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Paulo Massato, o homem que fecha as torneiras de São Paulo

Muito do que hoje sabemos da crise hídrica é graças ao diretor metropolitano da Sabesp

Paulo Massato Yoshimoto.

Paulo Massato Yoshimoto, responsável pelo abastecimento dos 19,5 milhões de habitantes da região metropolitana de São Paulo desde 2003, foi apelidado por funcionários da Sabesp de Hirohito, o imperador com o reinado mais duradouro do Japão e que envolveu o país na Segunda Guerra, em que perdeu mais de dois milhões de soldados e 800.000 civis.

Massato, após 33 anos com o crachá da companhia e responsável hoje por 7.000 empregados, é descrito como um homem afável, reservado e autoritário, embora cumprimente os funcionários pelo nome. “Há pessoas que ele não respeita e mostra um desprezo profundo, é bem comum ele entrar em reunião e não cumprimentar nem outros diretores. Quem discorda dele não tem mais espaço na empresa”, afirma uma ex-funcionária da Sabesp. Massato suaviza essa afirmação, mas reconhece que o seu sentido de “justiça” o impede muitas vezes de ser “bonzinho”. “Fico de 12 a 14 horas por dia na empresa, acho que estou contribuindo para a sociedade, mas há pessoas que gostam de estar sempre contra. Eu já fui assim, mas não gosto de pessoas que não trabalham”, afirma em um café de manhã com a reportagem.

O poder e autoridade de Massato, de 63 anos, só minguam ao chegar no Palácio dos Bandeirantes, onde, apesar da confiança depositada nele, suas declarações nem sempre são bem recebidas pelo governador Geraldo Alckmin. Muito do que hoje sabemos sobre o risco de desabastecimento de água em São Paulo é graças a Massato, que, às vezes com um tom jocoso demais, falou sem controlar o poder das suas palavras. Ele mesmo brinca com o assunto e se descreve como um “boca mole". Sua franqueza, porém, tem evitado a Alckmin aparecer como o mau do filme, em uma espécie de roteiro combinado: Massato dá as más notícias, a população entra em pânico, e o governador chega para nos tranquilizar. Foi Massato quem falou pela primeira vez, em janeiro, do plano de instaurar um "rodízio drástico" na capital, de cinco dias sem água por semana. Alckmin o desautorizou três dias depois.

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Massato segura um guarda-chuva durante um ato com o governador.

Uma das maiores escorregadas de Massato veio à luz em outubro de 2014, após o vazamento do áudio de uma reunião da diretoria da Sabesp em maio. Nela, Massato passava exatamente a mensagem que o governador Geraldo Alckmin, em plena campanha eleitoral, pretendia esconder: “Essa é uma agonia, uma preocupação”, começou. “Alguém brincou aqui, mas é uma brincadeira séria. Vamos dar férias. Saiam de São Paulo porque aqui não tem água [...] quem puder compra água mineral. Quem não puder, vai tomar banho na casa da mãe lá em Santos, Ubatuba, Águas de São Pedro, sei lá, aqui não vai ter”. Cinco meses antes do vazamento, Massato já mostrava sua agonia na CPI que investiga os contratos da Prefeitura com a Sabesp: “Se houver uma crise hídrica maior, nós vamos distribuir água com canequinha”. “Eu sempre tentei transmitir a gravidade da crise que atravessávamos, era importante remar na mesma direção”, justifica. “A Dilma [Pena, ex-presidenta da companhia] era mais zelosa nas questões de comunicação, mas eu falo sempre”.

Ele mesmo brinca com suas declarações polêmicas e se descreve como um “boca mole".

O último desencontro com a mensagem política do Governo do Estado foi no mês passado, quando Massato reconheceu que a redução de pressão é tal que não permite encher as caixas de água das residências, o que supõe, além de desabastecimento, o descumprimento de uma norma técnica nacional. O governador tinha negado esse extremo em dezembro.

Massato fala, aparece nas manchetes, mas prefere ter os jornalistas longe. Bom fumante, apura os cigarros rapidamente na porta do recinto da companhia em Alto de Pinheiros, por temor a ser abordado, especialmente por uma câmera de televisão. Ele aceitou um encontro para a elaboração desta reportagem, mas com a intenção de desestimular sua publicação. Diz não entender por que ele é tão relevante assim e não quer sua vida e trajetória exposta. O único perfil seu publicado recentemente na revista Época, ele não leu.

A relação com Alckmin não parece ruim, porém ele nega que seja próxima. Os dois já estão acostumados um com o jeito do outro. Em 2003 lidaram com uma crise parecida, quando Massato era superintendente de produção de água. “Na época só tínhamos a alternativa de rodízio, porque a cobertura das válvulas de pressão era muito pequena ainda”, lembra. “Hoje, podendo reduzir a pressão, é muito melhor que adotar um rodízio. Já vivi essa situação entre 1990 e 1997 e é uma dor de cabeça”.

Em 2003, Alckmin e Massato já lidaram com uma crise grave de abastecimento

Esta crise hídrica, a pior de todas as que já viveu, desviou os planos de carreira de Massato. Seu círculo mais próximo na companhia aspirava a que ele substituísse a ex-presidenta Dilma Pena, mas o governador tinha outros planos e colocou na cúpula da Sabesp o carioca Jerson Kelman, que, além de contar com uma destacada carreira no ramo hidrelétrico no setor público e privado, é amplamente reconhecido no mundo acadêmico, dos Estados Unidos ao Japão. Dizem que Massato refere-se a Kelman e ao Secretário de Recursos Hídricos, Benedito Braga, como os “professores”, e não sem certo sarcasmo. Massato assegura que não existe esse “carimbo”, e elogia a atitude, capacidade e proatividade de Kelman, “um carioca que trabalha até 14 horas por dia”. Massato perdeu aquela que poderia ter sido sua última oportunidade de dirigir a companhia, mas ele afirma que o que a crise hídrica frustrou foi sua aposentadoria e não sua ambição de reinar sobre as tubulações de toda São Paulo.

Massato chegou à Sabesp em 1983 no primeiro governo estadual eleito em eleições diretas após o golpe militar graças a sua proximidade com o Partido Comunista Brasileiro, do qual foi sempre muito próximo, junto com o vice-presidente nacional do PSDB e ex-governador de São Paulo Alberto Goldman. Vários funcionários da companhia elevam os laços de Massato com o PSDB ao pessoal, no que se refere ao senador Aloysio Nunes, que seria ex-cunhado da mulher de Massato, com quem depois de três décadas e quatro filhos não está casado no papel. Mas Massato nega rotundamente.

Massato sempre transitou bem com os diferentes interesses políticos que buscaram controlar os corredores da máquina pública estadual

As ideias políticas de Massato sempre caminharam na faixa da esquerda, diz ele. “Eu já fui contra tudo. Minha juventude está marcada pela militância pela democratização do país e tinha como mentores pessoas como João Luiz Barreiro de Araújo [ex-diretor metropolitano de quem ele foi assessor] ou Rodolfo Costa e Silva [pai do ex-deputado do PSDB e ex-assessor da companhia Rodolfo Costa e Silva]. Eles estavam muito na vanguarda, tinham uma visão social que procurava o equilíbrio, e usaram o setor de saneamento para fazer política, que era o único jeito com a ditadura”.

Independentemente do caminho ideológico que o engenheiro seguiu, Massato sempre transitou bem com os diferentes interesses políticos que buscaram controlar os corredores da máquina pública estadual, do PMDB – de onde saíram vários dos tucanos de hoje –, passando pela antiga Ação Popular – cujo principal representante foi José Serra –, até o atual ninho peessedebista. “Paulo manteve-se em evidência com o PSDB no comando do Estado, ocupando a superintendência de planejamento e mantendo grande influencia sobre as políticas, planos e projetos da empresa”, lembra um ex-engenheiro da companhia.

No legado do imperador Hirohito, ainda discutido pelos historiadores, surpreende que, apesar de ter perdido a Guerra e se rendido por rádio perante toda a nação, os Estados Unidos o mantiveram no poder. A permanência do imperador legitimava a presença das forças de ocupação e servia como elemento de estabilidade em um universo devastado. Nesta história, pode ser que o papel de Massato esteja próximo de se esgotar e que o paralelismo com Hirohito acabe aqui. “Eu sempre expressei minha vontade de me aposentar, só não posso abandonar o barco agora”.

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