Venezuela sugere que poderia impedir a entrada de Felipe González

Defensor do Povo diz que González precisa ter “um visto de trabalho” Vice-ministro afirma que a decisão de permitir a entrada depende de Maduro

Mitzy Capriles com o ex-primeiro-ministro espanhol Felipe González.
Mitzy Capriles com o ex-primeiro-ministro espanhol Felipe González. (EL PAÍS)

“Ingerência externa”, “parte de uma campanha internacional”, “tentativa de atualizar-se por parte de um político que perdeu relevância”: são algumas das explicações que porta-vozes do chavismo encontraram para a intenção anunciada pelo ex-primeiro-ministro espanhol Felipe González de juntar-se à defesa dos líderes opositores venezuelanos Leopoldo López e Antonio Ledezma, encarcerados em uma prisão militar próxima a Caracas. Tudo indica, porém, que o Governo de Nicolás Maduro não vai ficar somente nos qualificativos, mas se prepara para impedir que González cumpra sua palavra.

Na terça-feira, o Defensor do Povo Tarek William Saab, ex-constituinte e ex-governador do estado de Anzoátegui pelo Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), no governo, enfatizou em sua conta do Twitter que “um estrangeiro [mesmo que seja ex-primeiro-ministro] que pretenda trabalhar como consultor na Venezuela deve possuir um visto de trabalho para exercer tal profissão”. Não se sabe ao certo se o Governo venezuelano vai emitir esse documento para González, mas, ainda que o fizesse como gesto de boa vontade política, os juízes dos casos de López e Ledezma – recordou o Defensor do Povo, citando um artigo do Código Processual Penitenciário vigente – ainda teriam o poder de admitir ou rejeitar a “participação de qualquer consultor”.

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A opinião de Saab foi precedida, um dia antes, das insinuações do ex-embaixador em Washington e atual vice-ministro das Relações Exteriores para a Europa, Calixto Ortega, que declarou em um programa de televisão que “só será bem-vindo quem vem ao país em um plano não ingerencista”. A possibilidade de González ser impedido de entrar na Venezuela continua aberta, segundo Ortega, e ficará, “conforme o caso”, nas mãos do presidente Maduro, “que dirige a política externa”.

Mais contundente ainda foi o deputado chavista e presidente da Comissão de Política externa da Assembleia Nacional, Saúl Ortega, que definiu a intenção de González como a tentativa de instaurar um governo estrangeiro na Venezuela, e advertiu que se “uma pessoa pretende vir como um procônsul interferir nos assuntos internos no país, o mínimo que pode fazer um Governo sério é mandá-lo de volta”.

Até agora, os porta-vozes do Governo venezuelano se limitaram a censurar os anúncios do ex-primeiro-ministro espanhol e ressaltar que González não cumpre os requisitos para atuar como advogado na Venezuela, incluindo a revalidação de seu diploma universitário e a filiação à associação profissional. Entretanto, as repreensões de Caracas escalaram até as mencionadas sugestões de que o ex-mandatário pode ser expulso do país.

Durante o Governo chavista, a Venezuela não hesitou em expulsar visitantes críticos como a ex-candidata presidencial peruana Lourdes Flores, ou o diretor do Human Rights Watch (HRW), José Miguel Vivancos.

Desde 22 de março, quando se soube que González estava disposto a participar da defesa dos opositores presos, o Governo venezuelano deixou claro que se trata de um plano com o qual não simpatiza. O próprio presidente Maturou qualificou González como “lobbista” de interesses privados e coordenador de um suposto eixo Madri–Bogotá que conspira para derrubar o regime revolucionário. A chanceler, Delcy Rodríguez, afirmou que Felipe González “não tem faculdades nem para exercer a advocacia na Venezuela nem para intrometer-se nos assuntos internos da Venezuela, de tal forma que eu recomendo a ele que, se foi mal em seu outro negócio (…) procure solucionar seus problemas de outra forma”.

O presidente venezuelano no programa de 'Em contato com Maduro'.

O deputado da Assembleia Nacional pelo PSUV Germán Ferrer arriscou uma opinião um pouco mais positiva sobre a iniciativa. Em outro programa de televisão disse que uma atuação como a de González, a que se somou o ex-presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso, embora seja “uma manobra política” de dirigentes que “perderam vigência em seus países e hoje querem atualizar-se em nosso país com uma quantidade de declarações e ingerências na política nacional”, representa, não obstante, uma oportunidade “para que observem que aqui na Venezuela há absoluta liberdade de expressão”.

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