Tempestade sobre Cristina

Presidenta da Argentina é bipolar, veemente, generosa, arrogante, fóbica e fiel. Os peronistas a veem como outra Evita Perón

Cristina Kirchner durante sessão do Congresso, em março.
Cristina Kirchner durante sessão do Congresso, em março.J. M. (AFP)

Concluídas as primeiras loções e cosméticos, escova feita, Cristina Fernández de Kirchner chega a seu gabinete às 7h30 da manhã e ingere um protetor gástrico antes de iniciar a indigesta leitura da imprensa portenha e de algum jornal estrangeiro, entre eles o EL PAÍS. O café da manhã da presidente argentina é peronista light e consiste em chá com torradas e frutas, e algum desgosto de sobremesa. O desgosto de 18 de janeiro foi maiúsculo: naquele dia, o promoter federal Alberto Nisman, que havia a envolvido em uma trama sinistra de acobertamento, apareceu morto em seu apartamento em Buenos Aires.

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A viúva de Nestor Kirchner, que completou 61 anos na quinta-feira passada, vive entre a aflição e o sobressalto da acusação judicial, com o rímel escorrido desde que desaparecem das capas as manchetes de bonança, as reportagens sobre as vendas multimilionárias de grãos para a China e um crescimento econômico invejável. Passaram os tempo de comemoração em família e reconhecimento governamental: seu filho Máximo, o secretário Carlos Zannini, e seu principal aliado, o ministro da Economia, Axel Kicillof, estão empenhados na quadratura do círculo: participar da globalização financeira com manuais de guerrilha. Perto da torta, os pibes da Cámpora, a nova escolta justicialista.

Mas essa não é uma crônica política, e sim uma aproximação ao mundo das emoções e anseios de Cristina Kirchner, que odeia as rugas, sempre se pintou, e, provavelmente, sente saudades dos tempos de florescimento nacional e de aplausos: a apoteose renascentista de 2003 junto a seu falecido marido, os cafés da manhã sem se engasgar com as torradas, e a feliz convivência com um jornalismo que, longe de destacar suas conquistas, a incomoda escrevendo sobre os fracassos econômicos e “As calças de Cristina”, sobre suas leggings. “Ai Cristina, com esta calça está divina. Que linda está a presidenta! Viva Perón!”, dizia uma canção em ritmo de cúmbia sobre sua vestimenta em uma cerimônia oficial em 2013.

A presidente dá gargalhada quando lhe perguntam sobre a pirotecnia registrada nas mídias sociais a propósito da exibição de curvas, e sua propensão a preenchimento das maçãs do rosto e contorno labial. Implacável e mandona, pomposa quando se declara uma mulher de princípios, tem certo senso de humor. Falando a uma associação de produtores de porcos, incentivou o consumo de carne suína para aumentar a potência sexual. “É muito mais gratificante comer um porco na brasa do que tomar Viagra”. Continuando com a picardia, lembrou o fim de semana matrimonial devorando um leitão de Córdoba. Gaudeamus igitur. “Algo excelente, impressionante…”.

Cristina Kirchner junto a seu ministro da Economia, Axel Kicillof.
Cristina Kirchner junto a seu ministro da Economia, Axel Kicillof.Natacha Pisarenko (ap)

Da brincadeira à bronca e aos frequentes ataques de mau-humor e despotismo. Quase como ofício, ataca várias vezes os jornais de Buenos Aires que provocam sua indigestão matinal. “Outra vez La Nación e Clarín, mais impublicáveis do que nunca. Agora as calças. Antes era que eu me vestia com roupa de marca. Agora calças e o protocolo. Chove no molhado na biografia de Cristina, indissoluvelmente ligada à conveniência de seus discursos populares e redentores com relógios Rolex, bolsas Louis Vuitton, sapatos de Christian Louboutin, cordões de Tiffany & Co, e várias bugigangas.

Sendo a Argentina um país com um culto freudiano à beleza física e à ostentação de vestidos Dior pelo bairro portenho da Recoleta, a presidente dificilmente poderia afastar-se da tendência das classes abastadas de embelezar-se com bisturi e pedrarias. “Para ser boa política não é preciso se disfarçar de pobre”, diz. Nunca o fez, nem saiu às ruas sem arrumar-se; nem sequer quando estudava Direito e militava no peronismo revolucionário de 1973 ao lado de Néstor Kirchner.

A dama também não descuidou da maquiagem durante os retiros na mansão da Antártida, e menos ainda à frente do Governo desde a posse de 2007. Não renega ao capricho suntuoso, nem a uma faceirice congênita, e os lençóis de linho egípcio devem parecer-lhe suavíssimos, mas se encastela quando a acusam judicialmente de ter se tornado rica aproveitando-se do cargo, e arde de raiva quando a imprensa de fofocas inventa namorados. Seu verdadeiro amor foi Néstor, a quem permaneceu fiel desde seu casamento 1975 até a viuvez em 2010. O jogador de rúgbi provocou suspiros quando ela o conheceu.

Néstor Kirchner comemorando com Cristina sua vaga na Assembleia provincial de Santa Cruz Argentina, em setembro de 1989.
Néstor Kirchner comemorando com Cristina sua vaga na Assembleia provincial de Santa Cruz Argentina, em setembro de 1989. (AFP)

As confusões alteram periodicamente a rotina do palácio. Foi doloroso saber que a admirada Hillary Clinton havia perguntado se ela estava sã, e ler em jornais dos Estados Unidos, México, Itália e Reino Unido que havia esbanjado em boutiques de moda e pedido mais extras do que Madonna em sua suíte na Riviera Maya. As mentiras e exageros colam porque são primas das verdades. O Corriere della Sera assumiu como autênticos gastos falsos e teve que pedir desculpas, e o New York Post acentuou seu sensacionalismo ao atribuir a ela o equivalente a 326.000 reais por cinco pares de sapato em Paris. “O problema é quando os próprios argentinos começar a repetir essas bobagens”, lamentou um porta-voz oficial.

Alguns excessos não parecem sandices. Chegou a fretar um jato particular em Buenos Aires para receber a imprensa em sua residência na Patagônia, de acordo com a The Economist. O último alvoroço não encaixa. “Cristina comprou até um milhão de dólares em joias por ano”, disse em dezembro a revista Noticias. Os colunistas de oposição avivaram a denúncia com perguntas de grosso calibre. Os dois jornais de referência esperaram que o jornal espanhol ABC repercutisse a acusação do semanário e que um advogado apresentasse uma demanda judicial para fazer eco do assunto em seus sites na Internet. A fonte da informação da revista, Sergio Hovaghimian, um ex-empregado da joalheria que acusa seus donos de evasão de impostos e contrabando, anunciou que fugiu aos Estados Unidos temendo por sua vida.

Perseverante nas dietas de baixa caloria, pratica patinação e jogging pela casa de campo presidencial de Olivos. Gosta de se olhar no espelho quando o exercício avermelha suas bochechas. “Seu caráter oscila entre a paixão e a razão”, segundo a jornalista Olga Wornat, sua biógrafa autorizada. “Vai e volta como uma tempestade de verão. É bipolar, apaixonada, generosa, dura, arrogante, vaidosa, fóbica, implacável, compassiva e fiel”, escreve no livro Reina Cristina (Rainha Cristina).

Cristina Kirchner, setembro de 2014.
Cristina Kirchner, setembro de 2014. (cordon press)

Autoridade com astúcia nativa, inflama moradores de favelas evocando o legado imortal de Evita, e finge com profissionalismo e postura quando diz que o poder, seu primeiro esforço, a aborrece porque ela não tem o narcisismo e arrogância necessários para seu desfrute. Também parece uma lenda argentina seu declarado aborrecimento com os puxa-sacos que dão razão a ela em tudo. “Gosto que me rebatam e discutam”. Duvidam que seja assim os cortesãos que a chama de bruxa por baixo dos panos e preferem continuar a bajulando em vez de correr o risco de terem as cabeças cortadas.

Não é fácil o retrato de uma mulher tão abrangente e intensa. Poucos de seus pares na Casa Rosada, talvez com exceção do marionetista Carlos Menem, deram tantos motivos para difamação e fofocas em um país em que os gêneros transbordam. Destaca-se nesse mundo a biografia não autorizada de de Franco Lindler, Los Amores de Cristina (Os Amores de Cristina), que questiona muito sobre sua vida privada, rebatiza o ministro Kicillof com o apelido de Kicilove e desperta curiosidade com insinuação de tribunal de polícia. Gênio e personalidade, a presidente enfrenta a nova tempestade pestenejando um pouco, levada por suas três paixões: a política, a imagem e seus herdeiros Máximo e Florencia: “Só confio nos meus filhos”.

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