Crise nos transportes

Greve de caminhoneiros à véspera da safra já eleva o preço da soja

Bloqueio de rodovias em 12 Estados cobra melhora no preço do frete do transporte de mercadorias, que caiu 40% desde 2013. Alta do diesel e queda da cotação de commodities explicam a redução

Caminhões parados na BR-381 em Igarapé (MG).
Caminhões parados na BR-381 em Igarapé (MG).Jornal Cidades

Cerca de 2.000 crianças matriculadas nas creches e colégios públicos de Santo Antônio do Sudoeste, no Paraná, tiveram as aulas canceladas por tempo indeterminado nesta segunda, dia 23. “Não tem combustível na cidade. Os caminhões não chegaram para abastecer os postos e os ônibus de transporte escolar estão sem gasolina”, lamentou o vice-prefeito, Valdir Oldra (PT). Um dia depois, o acesso ao porto de Santos (SP) – o maior do país, que responde pela saída de dois terços das exportações brasileiras – foi bloqueado. Caminhões que levavam carga aos terminais não conseguiram descarregar no final da tarde.

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Os dois fatos foram provocados pela paralisação de caminhoneiros iniciada na semana passada, mas que atingiu dimensão nacional nesta semana, e já afeta o preço da soja no mercado internacional. Motoristas bloquearam trechos de rodovias em 12 Estados, protestando contra a queda do preço do frete, afetado pelo aumento do preço do diesel. O combustível representa aproximadamente 60% do valor das viagens.

Em janeiro, o Governo federal anunciou o aumento de impostos nos combustíveis: o preço da gasolina subiu 22 centavos por litro e o diesel 15 centavos. A medida foi tomada com o objetivo de aumentar a arrecadação em 12,18 bilhões de reais este ano, e faz parte de um pacote de ajuste econômico criado para equilibrar as contas públicas.

Agora, às vésperas de uma colheita de soja, os caminhoneiros decidiram parar o país, que tem enorme dependência do transporte rodoviário. O abastecimento de combustíveis e alimentos e o escoamento da produção agrícola e industrial foram prejudicados em cidades do Pará, Ceará, Mato Grosso, Bahia, Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

A crise logística chega em momento inoportuno para o governo da presidenta Dilma Rousseff (PT), na semana em que a nota de risco da Petrobras foi rebaixada em consequência das investigações da Lava Jato.

Para deixar a situação ainda mais tensa, a mobilização coincide com a época da colheita e exportação da soja: aproximadamente metade da safra está em silos à espera de seu transporte para os portos do país, e a outra parte aguarda a colheita. O problema é que não há diesel para as colheitadeiras - os caminhões que abastecem os postos também não estão entregando a mercadoria - , e o escoamento da produção depende quase que exclusivamente dos caminhões, responsáveis por cerca de 60% de toda carga movimentada no País. Os protestos chegaram a atingir a BR-163, que responde por 70% do escoamento da produção agrícola mato-grossense. Empresas como a Fiat,que tem a principal fábrica em Minas Gerais, e a gigante JBS também foram afetadas.

Os bloqueios deixaram o mercado internacional de soja apreensivo: na Bolsa de Chicago, o buschel do grão (equivalente à nossa saca) teve alta de 15 pontos, e foi negociado a 10,15 dólares – quinze dias atrás custava 9,60 dólares. “Desde o carnaval, com os boatos de que paralisações se aproximavam no setor de transporte, houve um nervosismo do mercado.”, afirma Paulo Molinari, consultor do Safras & Mercados.

Molinari, em todo caso, não acredita que a paralisação terá efeitos duradouros para os produtores brasileiros. “O comprador de soja não é imediatista. Ninguém vai deixar de comprar do Brasil em função deste problema pontual, já que as empresas que dependem do grão tem estoques”, explica.

Produtores, no entanto, estão preocupados com os desdobramentos da situação. “Nosso setor é muito dependente do transporte rodoviário, e o Governo está onerando muito os caminhoneiros com o aumento do custo do diesel”, diz Ricardo Tomczyk presidente da Associação dos Produtores de Soja do MT (Aprosoja-MT) e vice-presidente da Aprosoja Brasil. “Temos todos os motivos do mundo para nos preocupar. A paralisação já tem reflexos na bolsa de Chicago, com um aumento do preço da soja por impossibilidade de cumprimento de contratos no país”, completa Tomczyk. Segundo ele, a situação do abastecimento de diesel já afeta fazendas, e o escoamento está prejudicado. “Estamos beirando o caos. A colheita não pode esperar, ou a soja apodrece. Estamos em uma corrida contra o tempo".

O governo trabalha com a possibilidade de que hajam sérios prejuízos em função das paralisações, e ministros procuram interlocutores no movimento negociar o fim dos protestos. "Não está na pauta do Governo a redução do preço do diesel neste momento", disse o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Miguel Rossetto. Rousseff também descartou a redução no tributo que incide sobre o combustível.

O aumento chegou às bombas dos postos de combustíveis no dia 1º de fevereiro, e no final do mês, com a divulgação do índice de Preço Médio Ponderado ao Consumidor Final (PMPF), que foi reajustado em 15 Estados, houve um segundo aumento no preço pago pelos motoristas na bomba de combustível. “O faturamento médio do caminhoneiro caiu 40% de 2013 para cá. O preço do combustível é um dos maiores vilões: antes pagávamos 2,70 reais o litro, e agora o preço está em 3,14 reais. E o pior de tudo é que o custo do frete não acompanhou esta alta”, afirma Vilmar Chitolina, diretor da Cooperativa dos Caminhoneiros de Sorriso.

A crise econômica e a queda no preço das commodities – entre elas a soja - também afetou os caminhoneiros com a redução do valor pago pro frete. Em fevereiro de 2014 a saca da soja era negociada a 68,50 reais. Já no mesmo período deste ano o preço médio foi de R$ 66, uma queda de 4%. “Hoje recebemos 20 reais por tonelada de soja transportada na rota Sorriso-Sinop [MT]. Antes ganhávamos 32 reais pelo trajeto. É preciso que haja um reajuste destes valores”, diz Chitolina. O preço do transporte de uma tonelada do grão de Sorriso a Santos (SP), onde a mercadoria é escoada, caiu 27% em menos de um ano. Produtores de soja confirmam que a queda do valor da commodity é repassado aos transportadores.

Melhorias no sistema de infraestrutura dos portos, como o agendamento eletrônico das entregas, responsável por reduzir drasticamente as filas nos acessos, também tiveram um impacto negativo no orçamento dos caminhoneiros, já que diminui a demanda pelo serviço de transporte.

Outras reivindicações incluem a aprovação pela presidenta Dilma de alterações na Lei dos Caminhoneiros para aumentar a quantidade de horas extras permitidas (de duas para quatro), para que os motoristas possam incrementar sua renda, e a isenção de pedágios para eixos suspensos: atualmente a cobrança é feita independentemente se o eixo está tocando o chão ou não.

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