Crise na Grécia

Alexis Tsipras: “Rajoy estava nervoso com a Grécia. Equivoca-se”

Premiê espanhol: “Espanha fez empréstimos a Atenas e não temos dinheiro de sobra”

Alexis Tsipras durante coletiva de imprensa em Bruxelas.
Alexis Tsipras durante coletiva de imprensa em Bruxelas. ALAIN JOCARD (AFP)

A primeira cúpula europeia depois da vitória do Syriza terminou com uma batalha dialética aberta entre Alexis Tsipras e Mariano Rajoy. O primeiro-ministro grego, em uma longa entrevista coletiva em que se mostrou conciliador e evitou criticar a chanceler alemã Angela Merkel, quis fazer uma exceção quando lhe perguntaram sobre a atitude de Rajoy, o único primeiro-ministro europeu que apoiou Antonis Samaras em plena campanha. “Rajoy estava um pouco nervoso durante a cúpula, especialmente no que diz respeito à Grécia”, começou Tsipras para, em seguida, acusar o premiê espanhol de ter essa atitude só por causa de problemas internos na Espanha, em uma clara referência ao Podemos, aliado do Syriza.

“Acredito que Rajoy está equivocado e eu gostaria de poder explicar a ele. Não deveria trazer para cá seus problemas internos. Esse é um enfoque errôneo. Os problemas internos deveriam ser resolvidos na Espanha com políticas que sejam aceitas pelos cidadãos espanhóis”, declarou.

Rajoy não podia responder porque, naquele momento, já estava no avião de volta à Espanha. Mas, antes de partir, tinha sido mais crítico com Tsipras. O primeiro-ministro recordou que países como a Espanha, em dificuldades, decidiram fazer um empréstimo à Grécia e agora têm o direito de receber a devolução. “A Europa é enormemente solidária. Um país como a Espanha emprestou 26 bilhões de euros (78 bilhões de reais) à Grécia. E também não temos dinheiro de sobra. Não será possível construir a Europa se todos decidirmos não cumprir nossos compromissos”, afirmou.

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O Governo espanhol está especialmente indignado com a atitude dos primeiros dias do Executivo grego. As declarações públicas, e sobretudo os comentários em privado, deixam isso claro. Rajoy e sua equipe sabem que qualquer coisa que Tsipras conseguir será imediatamente aproveitada pelo Podemos como efeito espelho. O primeiro-ministro espanhol acredita que não haverá “contágio político” entre a Grécia e a Espanha, mas sabe que Pablo Iglesias aproveitará qualquer êxito de Tsipras. Se o chefe de Governo grego conseguisse, por exemplo, aprovar o prometido salário mínimo de 751 euros mensais, enquanto na Espanha permanece o valor de 648,6 euros fixado por Rajoy para 2015, com um aumento mínimo de três euros, isso seria utilizado contra o PP.

Em qualquer caso, o Governo espanhol não trabalha com um cenário de ruptura e está convencido de que, ao final, haverá um acordo, a Grécia não sairá do euro, Tsipras cederá e não poderá cumprir o que prometeu aos gregos e isso prejudicará também o Podemos, já que se verá que, na Europa, há pouca margem para alternativas.

O premiê espanhol deixou a diplomacia de lado e foi muito claro: “Neste momento, a Grécia não tem quem lhe empreste, só a UE. Estamos falando de mais de 200 bilhões de euros. A Espanha emprestou 26 bilhões. A Grécia tem 30 anos para pagar e, durante os 10 primeiros anos, não paga o principal, só os juros. São condições magníficas. vamos esperar que o Governo grego nos diga o que quer, mas quem recebe a solidariedade deve cumprir os compromissos”.

A dureza do Governo espanhol chegou ao ponto de o ministro dos Assuntos Exteriores, José Manuel García-Margallo, assegurar que a solidariedade da Espanha no resgate à Grécia impediu o Governo de Rajoy de aumentar o seguro-desemprego e a aposentadoria.

O Executivo espanhol não admite a influência do Podemos em sua posição sobre a Grécia, mas, mesmo antes da fala de Tsipras, uma alta autoridade do Governo grego tinha assegurado, diante de vários jornalistas, que vê motivações políticas internas por trás da posição de Rajoy, uma ideia que está instalada em círculos europeus.

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