Em ofensiva para defender imagem, PT vai processar delator

O partido anunciou que pedirá sindicâncias para avaliar a investigação da Lava Jato

O presidente do PT, Rui Falcão.
O presidente do PT, Rui Falcão.EFE

O Partido dos Trabalhadores começou nesta quarta-feira uma ofensiva para defender sua imagem, gravemente afetada pelas denúncias de corrupção que alcançaram o tesoureiro do partido no início deste mês durante as investigações da Operação Lava Jato.

Em uma coletiva de imprensa na sede nacional do partido, o presidente da sigla, Rui Falcão, afirmou que o PT vai processar Pedro José Barusco Filho, ex-gerente de Engenharia da petroleira, que acusou a sigla de receber entre 150 milhões e 200 milhões de dólares de 2003 a 2013 em propinas pagas em troca de contratos com a empresa. Em depoimento à Polícia Federal, feito num acordo de delação premiada, Barusco Filho afirmou que o dinheiro irregular foi recebido pelo tesoureiro do partido, João Vaccari Neto, que na semana passada foi retirado por policiais de sua casa para depor.

“Vamos fazer uma interpelação civil e criminal contra esse bandido chamado Pedro José Barusco Filho, que acusa o PT sem provas de ter recebido 200 milhões de dólares, não dizendo quando, onde e nem para quem”, afirmou Falcão à imprensa. “Como já tenho dito, todas as nossas doações são doações legais, registradas e declaradas na Justiça Eleitoral, que tem aprovado todas as nossas contas. Esse senhor vai ter que responder pelos danos morais que essa acusação falsa está acarretando à imagem do PT”, completou.

O presidente do partido também afirmou que a sigla fará uma representação ao Ministro da Justiça e ao diretor-geral da Polícia Federal pedindo uma sindicância para averiguar os vazamentos à imprensa dos depoimentos das delações premiadas. O partido quer ainda que se investigue o que chama de “vazamento seletivo” de informações e a linha de investigação policial e judicial.

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“Se vocês tomarem como exemplo o depoimento do senhor Pedro José Barusco Filho que foi divulgado vão perceber que ele fala que começou a pegar propina em 1997, mas não há uma única pergunta direcionada ao período anterior à chegada do PT à presidência”, disse Falcão. “Além disso, ele também atribui responsabilidades ao nosso tesoureiro em um período em que ele, sequer, era tesoureiro. Ao se concentrar apenas num único período e não no período todo mencionado pelo delator, há uma tentativa de criminalização [do partido] na investigação.” Outro fator que justifica o pedido de sindicância, afirmou Falcão, é o fato de continuarem na investigação delegados federais que durante as eleições se manifestaram, em suas redes sociais, a favor do candidato opositor Aécio Neves, do PSDB, segundo reportagem do jornal O Estado de S. Paulo de 13 de novembro do ano passado. “O funcionário público tem que ser impessoal. Eles violaram esse princípio e continuam dentro da função do inquérito policial. Eles se colocam sob suspeição na medida em que revelam a preferência partidária, isso precisa ser averiguado.” Ele afirmou ainda que o partido quer saber como são coletadas as provas e os indícios na investigação, que é sigilosa.

O PT fará ainda uma reclamação disciplinar ao Conselho Nacional do Ministério Público para saber se a “seletividade” da investigação diz respeito a “uma linha geral de investigação”. A seletividade, segundo ele, também foi mostrada durante a condução do tesoureiro do partido pelos agentes da PF na semana passada. “A única pessoa que aparece sendo conduzida coercitivamente é ele. Isso é uma forma de induzir os fatos e circunstâncias para criminalizar o Partido dos Trabalhadores por meio de seu tesoureiro”. As representações serão feitas depois do Carnaval.

Ofensiva

As medidas têm o objetivo de tentar minimizar o impacto das denúncias de corrupção na imagem do PT porque o partido julga que está sendo injustamente "criminalizado". A sigla quer sair da defensiva no escândalo no momento em que as notícias relacionadas ao tema complicam a imagem do Governo e há forte queda da popularidade da presidenta, que há pouco mais de três meses venceu uma eleição extremamente polarizada e luta para manter sua governabilidade diante de uma Câmara hostil. Segundo uma pesquisa Datafolha divulgada no último sábado, o número de entrevistados que consideravam o governo de Rousseff bom ou ótimo despencou de 42% para 23%, entre dezembro e o início deste mês. Os que achavam sua gestão ruim ou péssima passaram de 23% para 44% no mesmo período.

A defesa do partido já havia sido desenhada na última sexta-feira, quando ocorreu a festa de comemoração dos 35 anos do PT, em Belo Horizonte. Tanto Falcão e Dilma, como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, convocaram a militância para defender o partido do que afirmam ser uma tentativa de “criminalização" da legenda. Lula também se articula para voltar à cena política com força: deve começar a participar de atos organizados por centrais sindicais e movimentos sociais e viajar mais para o interior no país. Nesta quinta, ele deve se encontrar com a presidenta em São Paulo para discutir as estratégias políticas para tentar tirar o PT dessa crise que, em meio a uma situação econômica turbulenta, se desenha para ser a pior já enfrentada pelo partido desde seu nascimento.

Dilma já tinha falado aos ministros, em janeiro, sobre a importância de empreender uma "batalha de comunicação" em defesa do governo. Agora, é a vez do PT da Câmara dos Deputados tentar instruir seus deputados a lidar bem com a "imprensa tradicional", como chamam os grandes jornais brasileiros. Segundo a cartilha petista publicada pelo jornal O Globo, os deputados devem ser econômicos nas entrevistas e dar preferências a mídias sociais e blog alternativos para transmitir mensagens "sem filtros".

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