O drama da imigração

Cerca de 300 imigrantes continuam desaparecidos no Canal da Sicília

Guarda Civil espanhola alertou Itália do perigo depois de receber ligação de um senegalês

Sobrevivente do naufrágio é levado a Lampedusa.
Sobrevivente do naufrágio é levado a Lampedusa.A. PARRINELLO (REUTERS)

Os últimos 29 imigrantes mortos confirmados no Canal da Sicília já não são mais os últimos. A descoberta de pelo menos outros dois barcos à deriva com apenas nove pessoas a bordo —os traficantes de pessoas costumam encher os barcos até o limite para lucrar com as viagens— disparou um alarme que os próprios imigrantes confirmaram ao chegar a Lampedusa, na Itália: “Vimos morrer mais de 200 pessoas”. Embora os corpos ainda não tenham sido encontrados, Carlotta Sami, porta-voz da ACNUR (Agência da ONU para Refugiados), diz que a suspeita tem fundamento: “No total, foram três barcos infláveis com imigrantes a bordo. Em um deles estavam os 29 que morreram por causa do frio e os 79 sobreviventes”, afirmou nesta quarta-feira. A organização teme que 300 pessoas tenham morrido somente nesta semana. Apenas nove conseguiram se salvar.

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O alerta sobre o risco de naufrágio de um dos barcos foi dado por um senegalês que estava a bordo, e que ligou para um irmão que vive na Espanha. Este recebeu a chamada por volta das 13h (no horário local) no domingo passado. Pouco depois, foi a um posto da Guarda Civil em Murcia para pedir socorro e informar que um barco que havia partido da Líbia se encontrava perto de águas territoriais italianas, e que a polícia local fosse avisada para buscá-los. Em seguida, o protocolo foi acionado no centro de coordenação marítima e, em questão de minutos, as autoridades italianas receberam o aviso, segundo confirmou um porta-voz da Guarda Civil que, no entanto, não soube informar em qual embarcação estava o homem que fez o alerta.

Segundo o relato dos últimos imigrantes levados ao porto de Lampedusa pela Guarda Costeira Italiana, o último naufrágio ocorreu entre as 15h e 16h da segunda-feira. As fortes ondas teriam provocado o naufrágio dos barcos infláveis e apenas dois dos ocupantes teriam conseguido se salvar agarrando-se a eles até a chegada da Guarda Costeira. Segundo fontes da equipe de resgate, os sobreviventes ficaram entre 12 e 14 horas agarrados ao barco inflável furado.

Pelo menos 3.419 morreram no Mediterrâneo em 2014

Algumas horas antes, na noite de domingo, a Guarda Costeira e dois barcos mercantes ajudaram a salvar duas pessoas que estavam em um bote inflável que vinha da África. Devido ao mau tempo, o barco ficou à deriva na costa da Líbia. Dos 108 passageiros, apenas 79 conseguiram se salvar. O restante morreu de hipotermia na travessia.

Pelo menos duas das embarcações naufragadas foram resgatadas pelo comerciante de Luxemburgo Bourbon Argos, que se encontrava na região no momento da tragédia. Apesar do mau tempo, um turboélice ATR 42 da Proteção Civil sobrevoa a área.

A nova tragédia no Mediterrâneo reacendeu o debate sobre as limitações da política europeia de imigração e da Frontex, sua agência de controle de fronteiras. “Se não for iniciada uma operação europeia eficiente de busca e resgate, mais pessoas morrerão na tentativa de alcançar nossa costa”, prevê Michael Diedring, secretário-geral do Conselho Europeu para Refugiados (Ecre). Cerca de 170.000 refugiados e imigrantes chegaram à costa italiana no ano passado, segundo dados da Frontex. Pelo menos 3.419 morreram no Mediterrâneo em 2014, segundo dados da ACNUR.

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