Coluna
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O muro da casa da minha irmã

Conquistamos a democracia representativa, mas estamos perdendo a liberdade

Todos os sábados converso por telefone com minha irmã, que vive num bairro operário de Cataguases, interior de Minas Gerais. Percebi que, pouco a pouco, nosso assunto foi se modificando até que, há cerca de dois anos, o diálogo tornou-se quase monotemático: ela passou a me relatar a aproximação inevitável da violência, como se aguardam incêndios, epidemias, enchentes. Assaltos mensais ao pequeno comércio, furtos cotidianos na escola, roubos à mão armada, tráfico de drogas à luz do dia. Ela vinha resistindo à paranoia da insegurança, até que afinal teve de se render: substituiu por um muro alto a pequena mureta que separava a casa da rua.

Poderia historiar o momento exato em que perdemos a fé uns nos outros

Agora, as pessoas que caminham pela calçada não podem mais contemplar o jardim bem cuidado com seus jasmineiros e hibiscos, a ampla varanda com seus vasos de antúrios, samambaias, avencas e violetas; quando chegar uma visita, ela não caminhará até a porta e baterá palmas, Ô de casa!, numa demonstração de íntima amizade, mas terá que tocar a campainha, anunciando-se no portão, como se anunciam os vendedores de quinquilharias, os portadores de desesperanças. E a varanda, onde reuníamo-nos fim de tarde para repassar os acontecimentos do dia, cedeu lugar a uma garagem, porque tornou-se perigoso deixar o carro estacionado junto ao meio-fio.

Lembro que, quando menino, atravessava sozinho a cidade, ponta a ponta, sem que passasse pela cabeça de meus pais qualquer preocupação em relação ao meu bem-estar. Nas fábricas de tecido, base da economia local, as bicicletas permaneciam descansando do lado de fora, sem trava ou tranca. Os homicídios eram tão raros que, quando ocorriam, tornavam-se referências temporais. Dizia-se: Fulano nasceu na época em que mataram o Dr. B; ou: Beltrano casou um ano depois que assassinaram o senhor F. Os roubos limitavam-se a galinhas e frutas, e crimes praticavam os bicheiros, os agiotas, as prostitutas. Minha mãe me despachava, nas férias, para a casa dos meus avós, em Rodeiro, colocando-me no ônibus e recomendando-me ao motorista. Muitas vezes, percorri a pé, sozinho, a légua e meia que separava a fazendola do núcleo urbano e o que me causava apreensão eram apenas os cães, os bois, as cobras...

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Poderia historiar o momento exato em que perdemos a fé uns nos outros. Ainda em 1979, os estudantes aglomeravam-se no trevo de Juiz de Fora, na antiga rodovia União e Indústria, no aguardo de uma carona que os conduziria para a Rio-Bahia, estrada comum para chegar em casa. Fossem dezenas e todos alcançariam seu destino, cedo ou tarde. No ano seguinte, começaram a escassear os caroneiros, porque, como uma enxurrada, avolumava-se o receio em relação aos estranhos. Em 1981, já praticamente estava extinta essa forma de generosa acolhida.

Alguém pode argumentar que encontrávamo-nos em plena ditadura e que o regime de força impunha essa sensação, talvez falsa, de tranquilidade. Eu posso concordar com essa objeção, mas por outro lado recordo que segurança pública é um dos itens básicos da satisfação social a ser garantida aos cidadãos: basta pensarmos como vivem as pessoas nos países da Europa ou nos Estados Unidos. Por isso, acredito que o muro levantado por minha irmã é a demonstração concreta da nossa incompetência no processo de construção de uma democracia plena.

Não podemos falar em democracia plena se não conseguimos afiançar educação de qualidade para todos; se não oferecemos um bom sistema de saúde para o conjunto da população; se não possuímos isonomia jurídica (só vão para a cadeia pretos, pobres e prostitutas); se a corrupção tornou-se parte essencial do brasileiro; se há um fosso intransponível separando as classes sociais; se não compreendemos a ideia de bem público como bem comum. E se não temos sequer o direito de ir e vir. A nossa democracia se limita – e temos nos contentado com isso – ao exercício da escolha periódica dos governantes.

Se derrubamos a ditadura militar, não alcançamos recuperar integralmente a liberdade um dia perdida

Se derrubamos a ditadura militar, não alcançamos recuperar integralmente a liberdade um dia perdida. Temos independência para votar, para opinar, para comprar, mas não para ir e vir – o que certifica a qualidade de vida de um povo. O tráfico de drogas, o sistema carcerário falido, a sensação de impunidade, a corrupção na polícia e no Judiciário, a pressão da sociedade consumista, a injustiça social, o contrabando de armas, o péssimo exemplo das autoridades, a impotência da população, tudo nos empurra para o encastelamento em edifícios superprotegidos, em casas-fortaleza, em condomínios fechados, onde, acreditando viver em cidadelas inexpugnáveis, apenas nos enredamos em solidão e egoísmo, apenas nos afastamos mais e mais das soluções para uma destinação coletiva.

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