Eleições na Câmara

O futuro do governo se define na primeira votação do Congresso

Candidatura favorita para presidente da Câmara do conservador Eduardo Cunha, do PMDB, é o primeiro teste sério para Dilma Rousseff no início de seu segundo mandato

O candidato à presidência da Câmara, Eduardo Cunha.
O candidato à presidência da Câmara, Eduardo Cunha. (Ag. Brasil)

As eleições para presidentes da Câmara e do Senado de sábado são as mais dramáticas dos últimos 12 anos. Nelas, tanto o governo da Presidenta Dilma Rousseff como o Partido dos Trabalhadores (PT), têm muita coisa em jogo.

O Governo e o PT não vivem seus melhores momentos políticos. O segundo mandado de Dilma começou com a sombra do escândalo da Petrobras e a crise econômica. E o PT aparece envolvido, como nos tempos do mensalão, em outra nova história de corrupção política, desta vez de dimensões bem maiores, cujo desenlace é difícil prever.

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O ex-presidente Lula, fundador do PT, já afirmou várias vezes que o partido precisa de uma renovação forte para recobrar seu espírito ético fundacional.

A debilidade do Governo de Dilma e as dificuldades de seu partido criaram divisões e atritos no Congresso entre os partidos aliados. A tensão desembocou no duelo das eleições de sábado com uma boa dose de paradoxo: o candidato com maiores possibilidades de ser eleito presidente do Congresso, o evangélico Eduardo Cunha, é do maior partido aliado do governo, o PMDB, mas é por sua vez o mais temido pela Presidenta Dilma Rousseff, já que se apresenta como independente do poder executivo. Cunha promete uma presidência da Câmara não submetida aos gostos do Governo.

Diante do medo de uma possível vitória de Cunha, a Presidenta Dilma decidiu enfrentar a mencionada candidatura com uma do PT, na pessoa de Arlindo Chinaglia, o que foi interpretado como uma vontade de medir forças com seus oponentes.

Por mandato constitucional, os três poderes do Estado, o legislativo, o executivo e o judiciário, são independentes. Na prática, nos últimos anos o legislativo acabou muitas vezes sufocado pelo executivo, que com sua política de apresentação de projetos de lei com caráter de urgência lhe roubou tempo e forças para legislar.

O Congresso tinha um acordo para a alternância na presidência entre o PT e o PMDB, para que no fim de cada mandato os dois partidos governassem dois anos cada um. Dessa vez, esse acordo foi rompido. Uma das propostas de Cunha consiste em que, com sua eleição, coloque-se ponto final nesse pacto para que outros partidos possam entrar no jogo e disputar a presidência da Câmara. Assim, o candidato do PMDB negou que no passado tenha existido uma negociação com o Governo para voltar à velha prática. Segundo a Folha de S. Paulo, foi o Governo quem tentou retomar o acordo diante do temor de uma vitória de Cunha contra Chinaglia.

Para o Governo de Dilma, nesse momento, qualquer candidato seria melhor do que o evangélico Cunha. As relações entre ambos sempre foram conflitivas e culminaram com várias derrotas da presidenta no congresso. E mais: se o escândalo da Petrobras desembocar em um pedido de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, Cunha, para demonstrar sua independência do Governo, levaria a medida ao Congresso. Vem daí a decisão, não programada, de apresentar apressadamente e correndo um candidato fiel ao Governo como Chinaglia.

As relações entre o governo e o PMDB desenvolveram-se sem atritos nos dois governos de Lula, mas acabaram deteriorando-se no primeiro mandato de Dilma. Esta, além do mais, se vê impelida pela esquerda de seu partido, o PT, a buscar aliados mais fiéis e menos conservadores que o PMDB.

Os analistas políticos frisaram o silêncio de Lula nessas horas de tensão entre o Governo e o Congresso e entre Dilma e o PMDB. Esse silêncio poderia indicar que Lula prefere manter-se à margem de tais brigas à espera de uma possível candidatura sua em 2018, na qual resgataria novamente o PMDB, que sempre lhe foi fiel.

Para o Governo Dilma Rousseff, de qualquer forma, a candidatura de Cunha constitui uma verdadeira dor de cabeça. Se o peemedebista ganhar as eleições, será a primeira grande derrota de Dilma no começo de seu novo mandato. E se ganhar seu candidato, a vitória sequer será completa, porque Cunha, que acabaria ressentido, tem grande influência entre o chamado “baixo clero” do Congresso e no grupo dos evangélicos. Dilma, mesmo ganhadora, seguiria tendo que lidar com a frustração do candidato vencido, mas não morto. A derrota, neste caso, poderia transformar-se em um problema adicional. Ou seja, há quem aposte que a equipe de ministros mais próximos de Dilma fará o impossível e até o último momento para conseguir um acordo amistoso com Cunha.

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