“Os democratas abandonaram a Venezuela”

Andrés Pastrana, ex-presidente da Colômbia, se une a líderes da oposição venezuelana

María Corina Machado e Andrés Pastrana.
María Corina Machado e Andrés Pastrana.C. G. R. (REUTERS)

Depois da frustrada visita a Leopoldo López, líder da oposição na Venezuela, no último domingo no presídio militar Ramo Verde, Andrés Pastrana, presidente da Colômbia entre 1998 e 2002, subiu no veículo que o levaria de volta a Caracas juntamente com Sebastián Piñera, ex-presidente do Chile, e com a opositora venezuelana María Corina Machado. Pastrana e Piñera estavam na Venezuela para participar, na segunda-feira, do fórum Poder Cidadão e a Democracia de Hoje, organizado por Machado.

Quando viajam pela velha estrada Francisco Fajardo, perto da Universidade Central da Venezuela, a opositora venezuelana pediu que o motorista mudasse a rota para mostrar aos ex-presidentes uma longa fila de pessoas em frente a um supermercado. Segundo a oposição ao regime, um símbolo da política errônea de Nicolás Maduro é a escassez de produtos básicos enfrentada pelo país. Segundo o Governo, a representação de um “golpe econômico” que tenta derrubar o mandato do presidente. Era uma e meia da tarde.

MAIS INFORMAÇÕES

Pastrana, que trabalhava como jornalista antes de alcançar o cargo máximo em seu país, conversou com um menino de sete anos na imensa fila formada fora do hipermercado estatal Abastos Bicentenario. Havia chegado às sete da manhã e queria comprar frango. “Estava triste porque havia acabado”, lembra o ex-mandatário. “Essas são as coisas que impactam de um país tão rico como a Venezuela. Conheci uma Venezuela diferente”.

Foi a segunda impressão que Pastrana levou nesse dia. A primeira veio muito antes de chegar à antessala da prisão onde López se encontra há quase um ano (detido devido aos distúrbios ocorridos no começo do ano passado). Juntamente com Sebastián Piñera, Pastrana havia tentado acompanhar os familiares à visita do domingo, mas um cordão de funcionários da Guarda Nacional Bolivariana os impediu de entrar com ordens do vice-presidente Jorge Arreaza. “O mais impactante dessa negativa foi comprovar que López é um preso político. Não se tratava de solicitar uma entrevista através da cancillería [relações exteriores], mas comprovar que um cidadão comum e normal é impedido de visitar um preso”.

Os dois episódios o levam a acreditar que em seu país, assim como no resto da América Latina, há pouca consciência sobre a verdadeira situação da Venezuela e sobre as condições nas quais a oposição é exercida. “Sempre disse que nós, os democratas do continente, deixamos a Venezuela sozinha”, disse Pastrana ao EL PAÍS. E enquanto afirma isso, se prepara para criticar o Governo de seu país, que se mantém, segundo sua opinião, à margem ou não quis expressar até agora suas diferenças em relação às decisões de Maduro. “Me chamou a atenção como meus compatriotas são perseguidos neste país. E frente a isso não há resposta”.

O ex-presidente foi muito crítico em relação ao presidente colombiano, Juan Manuel Santos, e à chanceler María Ángela Holguín em todas as frentes, não apenas com respeito à situação venezuelana. Para ele, até o momento os diálogos de paz conduzidos com a guerrilha das FARC em Havana deram ao grupo privilégios inaceitáveis.

O Governo de Nicolás Maduro não deu precisamente boas-vindas cordiais a Pastrana. “Viemos compartilhar com a oposição nossas opiniões sobre a democracia e não entendemos por que reagiram dessa maneira”, afirma o ex-presidente. A atitude de Maduro, disse, é muito diferente da de Chávez, com quem polemizou, e muito, durante sua gestão.

Os muros e a liberdade

O ex-presidente mexicano Felipe Calderón completou o grupo de ex-governantes que participaram do fórum Poder Cidadão e a Democracia de Hoje, organizado por Corina Machado. Calderón enviou uma mensagem emotiva a Leopoldo López e em geral a todos os venezuelanos contrários ao regime. Tanto em sua intervenção como nas conclusões quis destacar uma ideia:

“Não desista, querida Venezuela, porque sabemos que a liberdade virá. E ao mundo digo que não continue construindo muros como os que hoje isolam este país e Cuba. Continuemos atentos ao que acontece aqui”.

Em sua mensagem, o ex-presidente da Costa Rica, Oscar Arias, não foi menos crítico que seus colegas. Em referência à escassez, afirmou que a Venezuela é um “Governo corrupto, ineficiente e obcecado em ocultar seu fracasso”.

Arquivado Em: