Novos atores para um velho drama

As eleições decidem-se entre quem nada têm que perder e quem temem o perder tudo

O líder do Syriza Alexis Tsipras (à esq.) ao lado do líder do espanhol Podemos, também de esquerda, Pablo Iglesias.
O líder do Syriza Alexis Tsipras (à esq.) ao lado do líder do espanhol Podemos, também de esquerda, Pablo Iglesias.YANNIS BEHRAKIS (REUTERS)

A política e o drama sempre andaram de mãos dadas na Grécia. As eleições de domingo não são as primeiras em que o país votará à beira do abismo, com uma sociedade polarizada. As declarações radicais, o duelo dos candidatos, a oratória inflamada dos líderes –característica decisiva como em nenhum outro lugar para serem apreciados pelos cidadãos— têm sido tradicionais no espetáculo de som e de fúria das eleições gregas desde a restauração da democracia, há 40 anos. Mas elas são as primeiras em que o resultado será decidido entre quem já não tem nada a perder e quem teme perder tudo. Sem dúvida terá repercussão no resto da Europa, e a provável vencedora, a esquerda radical do partido Syriza, verá seu triunfo como uma revanche pela derrota dos comunistas na guerra civil de 1946-1949.

Também são as primeiras a não serem dirimidas entre representantes das grandes dinastias que ocupam o poder há décadas. As famílias Karamanlis, Mitsotakis e Papandreu proporcionaram seis primeiros-ministros e governaram o país por mais de 30 anos desde a II Guerra Mundial. Não é o que ocorre agora. Andonis Samarás, candidato da Nova Democracia (centro-direita) e Alexis Tsipras, líder do Syriza, não pertencem à elite e são em vez disso novatos que surfaram a onda, cada um à sua maneira, da pavorosa crise econômica sofrida há cinco anos pela Grécia.

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Samarás, um oportunista, na opinião de seus críticos, rompeu com a Nova Democracia por causa da questão da Macedônia –o nacionalismo grego nega a essa ex-república iugoslava o uso do nome da pátria de Alexandre, o Grande-, fundou a Primavera Política, um partido de tintas xenófobas com o qual afundou nas urnas, e voltou em 2004 ao redil da centro-direita para se tornar o chefe em 2009 e se opor ao primeiro resgate europeu um ano depois. Tsipras, de 40 anos -uma juventude insólita para um país que valoriza muito a maturidade e experiência de sua classe dirigente- era há poucos anos um político obscuro com origem no comunismo, condenado a uma carreira entre os assentos irrelevantes da minoria.

A chance do Syriza chegou quando a Grécia despencava rumo ao Estado falido, e Tsipras soube interpretar o humor nacional: a raiva pelos estragos da austeridade imposta do estrangeiro vencia o medo das aventuras políticas. A ruína da classe média, varrendo a centro-esquerda, representada pelo Pasok, cuidava do resto. A ascensão do Syriza, um amálgama de ex-comunistas e toda sorte de órfãos e náufragos da esquerda, foi se consolidando eleição após eleição –de 5% dos votos em 2009 a 16,6% em maio de 2012 e 27% um mês depois, no mesmo ano– conforme os cidadãos perdiam seus empregos, pensões e salários eram reduzidos, os serviços sociais se deterioravam, os remédios escasseavam, e muitos deles –calcula-se que 200.000– votavam com os pés voltados ao exterior.

A chance do Syriza chegou quando a Grécia despencava rumo ao Estado falido

Foi então, e não agora, que se rompeu o bipartidarismo. De forma concreta, em maio de 2012, quando o voto combinado da Nova Democracia e do Pasok foi de 35% do total, ante 89% que concentravam em 2009. O sistema político estava ferido de morte, e um partido antissistema não deixaria de aproveitar a ocasião. Havia uma culpada –Merkel e o dogma da austeridade– e um atalho –o populismo nacionalista e antieuropeu seria capaz de regenerar a democracia grega.

O discurso do Syriza alarmou a Europa conservadora e deixou mudos os sociais-democratas. Mas a memória política grega vai longe, e o populismo e o estatismo desta nova esquerda têm raízes em Andreas Papandreu, que começou sua conquista do poder pedindo um referendo sobre a entrada na União Europeia, manifestando-se contra a participação da Grécia na OTAN e flertando com as ditaduras árabes. Que diriam hoje em Bruxelas se ouvissem Tsipras repetir aquelas saraivadas contra a oligarquia e contra este clube capitalista que era a Europa, que explorava os países da periferia, como fazia o velho leão do Pasok? No final, era só retórica.

Hoje, depois de 240 bilhões de euros (720 bilhões de reais) gastos em resgates, e às portas do poder, Tsipras moderou sua mensagem, declarando-se a favor do euro e de renegociar a dívida para aliviar o fardo sobre os cidadãos, e contra qualquer política econômica unilateral contra os credores europeus. O Syriza, mais afim ao que pretendia ser a Esquerda Unida na Espanha que o que é o Podemos, sem um componente bolivariano tão marcante, prepara-se para governar, e seu líder se verá submetido à pressão dos radicais e às vozes moderadas que convivem na aliança progressista. A política grega volta a oscilar entre a “Grécia pertence ao Ocidente”, do velho Constantino Karamanlis, e a “Grécia pertence aos gregos”, proclamada por Andreas Papandreu.