Polêmica de financiamento de campanhas respinga em Bachelet

Imprensa revela um ato proselitista a favor da presidenta em um iate de Nova York no qual participaram estrangeiros

A presidenta Bachelet, ao iniciar uma visita a Nova York em 18 de janeiro.
A presidenta Bachelet, ao iniciar uma visita a Nova York em 18 de janeiro. (Governo do Chile)

Quando o Ministério Público e a opinião pública tinham os olhos postos no partido de direita UDI, o principal grupo implicado no esquema de financiamento ilegal de campanhas conhecido como Penta-Gate, esta semana a imprensa revelou um novo episódio que respinga na própria presidenta Michelle Bachelet. Apesar de a legislação eleitoral impedir que estrangeiros sem direito a voto no país coloquem dinheiro na política chilena, em setembro de 2013, em plena campanha presidencial, o atual chanceler Heraldo Muñoz organizou uma refeição em um luxuoso iate em Nova York com o objetivo de recolher fundos para a socialista. De acordo com a informação revelada pelo The Clinic, corroborada em primeira instância pelo Ministério de Relações Exteriores, diplomatas latino-americanos participaram do jantar.

Após a publicação, no entanto, uma sequência de declarações confusas deixou evidente o complexo cenário no qual está o Palacio de La Moneda com o Iate-Gate, como começou a ser conhecido o caso. O chanceler Muñoz, que em setembro de 2013 era o sub-secretário geral do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) para América Latina e Caribe, escreveu uma declaração na qual disse que as doações que recolheu foram exclusivamente de chilenos. Poucas horas depois, no entanto, o coordenador da atividade, o chileno Mario Paredes, reconheceu ao Canal 13 que houve estrangeiros no evento, entre eles "porto-riquenhos, dominicanos, de vários países". Embora não tenha detalhado que a doação iria para a campanha de reeleição de Bachelet, o convite que Paredes distribuiu, escrito em inglês e publicado no The Clinic, dizia que a participação dos convidados era "possível com uma doação de 1.000 dólares".

"Partiremos às seis da tarde do Pier 25, em 225 N. Moore Street, em Manhattan, para uma viagem de duas horas a bordo do 75'Hatteras Motor Yatch Avanti, que inclui várias acomodações, entre as quais se encontram um grande salão com ar condicionado de alta velocidade, sistema de som sofisticado ao redor do barco e uma luz tricolor de LED 6 debaixo d'água", indicava o convite.

O Governo não gostou da forma com a qual o chanceler Muñoz explicou o ato de proselitismo a favor de Bachelet, e a prova disso foi que o ministro foi convocado na sexta-feira em Nova York, onde o Chile assume a presidência do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Lendo um comunicado à imprensa e sem aceitar perguntas, disse que "não houve doações de estrangeiros, foi tudo dentro da lei". Esclareceu que, apesar de haver quase quarenta convidados, não compareceram mais de vinte e que "o tamanho das doações foi muito inferior ao que alguns veículos publicaram".

O Iate-Gate afeta algumas das principais autoridades do governo. O chefe de campanha de Bachelet foi Rodrigo Peñailillo, o atual ministro do Interior, que também se viu obrigado a tentar colocar panos frios e descartar qualquer irregularidade: "Descarto categoricamente qualquer irregularidade". Na mesma linha, o porta-voz do Executivo, Álvaro Elizalde, acusou a UDI de querer "gerar uma situação de empate". Assim que esse partido de direita tentou implementar uma operação para que o Executivo esclarecesse o episódio, e avaliou convocar o chanceler Muñoz para dar explicações ao Congresso, Elizalde também disse que "a UDI sente-se isolada e acuada por causa da complexa situação judicial que afeta um número significativo dos seus dirigentes".

O caso Penta revelou a delicada relação entre os políticos e seus financiadores no Chile e no processo expôs o quadro institucional fraco que regula o financiamento eleitoral. Em uma trama que poderia ser investigada por vários anos, o Ministério Público detectou que a empresa Penta financiou campanhas políticas, principalmente da UDI, violando o máximo permitido pela legislação e obtendo privilégios fiscais. Após o anúncio da formalização dos donos da empresa e do sub-secretário de Mineração do presidente Sebastián Piñera, Pablo Wagner, acusado de lavagem de dinheiro e suborno, começaram os interrogatórios, esta semana, aos políticos envolvidos nessa trama sem precedentes.

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