Peña Nieto felicita Obama por sua “audácia” na questão imigratória

Presidentes discutem também o “claro desafio” do México na segurança Obama se declara “preocupado” com fatos “trágicos” como o de Iguala

Enrique Peña Nieto e Barack Obama.
Enrique Peña Nieto e Barack Obama.KEVIN LAMARQUE (REUTERS)

Sérios, mas cordiais, e sem deixar assuntos sem abordar. Em sua primeira visita ao Salão Oval como presidente em atividade, o presidente mexicano, Enrique Peña Nieto, abordou na segunda-feira com seu anfitrião, Barack Obama, todos os temas de uma intensa relação bilateral: desde os “profundos” laços comerciais e econômicos entre os dois vizinhos norte-americanos até preocupações compartilhadas, como a imigração e a segurança, tendo a tragédia de Iguala como pano de fundo.

A reunião ocorreu no mesmo dia em que o Congresso iniciava o ano com a nova maioria republicana nas duas Casas ameaçando bloquear políticas unilaterais de Obama, como suas medidas executivas sobre imigração. Na Casa Branca, porém, Peña Nieto deu um claro respaldo ao presidente norte-americano por uma decisão que não duvidou em qualificar de “audaz” e “inteligente”.

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As medidas executivas de Obama, que frearão a deportação de até cinco milhões de indocumentados, constituem um “ato de justiça”, enfatizou Peña Nieto, que recordou que os mexicanos sem-papéis serão os principais beneficiados pelas medidas do presidente norte-americano.

Obama, por sua vez, agradeceu o apoio do México ante a crise que o país viveu em meados do ano passado com uma onda de dezenas de milhares de menores desacompanhados que chegaram à fronteira dos EUA, e enfatizou a necessidade de que os dois governos continuem trabalhando com os centro-americanos para resolver o problema em sua raiz.

No Salão Oval, onde os presidentes conversaram a sós durante pouco mais de uma hora, não chegou o barulho das vaias de dezenas de manifestantes que desde a manhã, apesar do frio e da queda da primeira grande nevasca da temporada em Washington, protestavam diante da Casa Branca contra Peña Nieto pelo desaparecimento dos 43 estudantes de Iguala.

Ainda assim, Obama fez uma das menções mais claras de seu Governo ao tema, ao reconhecer em suas palavras ante a imprensa, depois da reunião bilateral, a “preocupação” com que seu Governo acompanhou “os eventos trágicos em torno dos estudantes que perderam a vida”.

O presidente norte-americano afirmou que Peña Nieto lhe falou em detalhes sobre as reformas na matéria que seu Governo adotou para resolver os problemas subjacentes a tragédias como as de Iguala e prometeu o contínuo apoio de Washington contra o “flagelo” da violência do narcotráfico.

“Queremos continuar sendo um bom aliado e amigo do México” nesse processo, afirmou Obama. Uma oferta que Peña Nieto agradeceu ante o “claro desafio” que reconheceu que o seu país tem na hora de combater o crime organizado “com maior eficácia e contundência”.

A economia não podia faltar na conversa entre os chefes de Estado dos países com a fronteira mais movimentada do mundo e com estreitos laços comerciais – o México é o segundo parceiro comercial dos EUA. E assim foi. Obama cumprimentou o Governo mexicano pelas reformas estruturais empreendidas durante o mandato de Peña Nieto e se mostrou confiante em que elas beneficiarão os mexicanos e também seus vizinhos do norte.

Já Peña Nieto destacou os esforços para modernizar as passagens na fronteira e garantiu que os dois governos buscam resultados “visíveis e muito rápidos” nessa questão, assim como em outras medidas para continuar favorecendo o intenso intercâmbio comercial bilateral – mais de 1 milhão de dólares (2,7 milhões de reais) por minuto – e, sobretudo, os investimentos.

O comércio bilateral  supera os 500 bilhões de dólares por ano

Pouco antes do encontro presidencial, em um edifício vizinho da Casa Branca foi realizada a segunda reunião do Diálogo Econômico de Alto Nível EUA-México. O encontro, presidido pelo vice-presidente dos EUA, Joe Biden, e o ministro mexicano das Finanças, Luis Videgaray, revisou uma relação econômica estreita, com um comércio bilateral que supera os 500 bilhões de dólares por ano.

“Não há razão para que a relação EUA-MÉXICO, que já é forte, não esteja entre as mais fortes do mundo”, ressaltou Biden. “Não há razão para que a América do Norte não possa ser a região mais competitiva do mundo”, concordou Videgaray.

Uma demonstração da importância que os EUA dão à sua relação com o México é o fato de que a visita de Peña Nieto foi a primeira oficial do ano à Casa Branca. Os dois presidentes voltarão a se ver no mais tardar em abril, no Panamá, durante a Cúpula das Américas, da qual pela primeira vez participará também o cubano Raúl Castro.

EUA querem ajuda do México para obter mudanças em Cuba

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, já sabe que conta com o aplauso do México e do resto da América Latina por sua decisão de iniciar a normalização de relações com Cuba. Agora, quer que a região o ampare na busca por “mudanças positivas” na ilha, principalmente o “fortalecimento dos princípios democráticos”.

Essa foi uma das mensagens que Obama transmitiu a seu colega mexicano, Enrique Peña Nieto, durante o encontro a portas fechadas que eles mantiveram nesta terça-feira no Salão Oval da Casa Branca.

Os EUA continuarão defendendo uma política para Cuba que “enfatize os direitos humanos, a democracia e as liberdades políticas”, salientou Obama. O presidente norte-americano antecipou que insistirá para que esses temas figurem claramente na pauta da Cúpula das Américas, em abril, evento que terá pela primeira vez a participação do líder cubano, Raúl Castro.

A Casa Branca enfatizou o papel crucial que o México pode desempenhar nesse assunto, graças à sua “relação histórica” com Cuba, já que esse é o único país latino-americano que nunca rompeu relações com a ilha comunista.

Afinal de contas, conforme observaram altos funcionários da Casa Branca às vésperas da reunião de Obama com Peña Nieto, “o México tem um longo histórico na ajuda em promover de forma discreta a melhora das condições em Cuba”.

Peña Nieto respondeu oferecendo “toda a disposição e colaboração” do seu país para que EUA e Cuba consigam normalizar suas relações. “O México será um incansável promotor da boa vizinhança”, prometeu.

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